Xico Sá

Modos de macho, modinhas de fêmea & outros chabadabadás

 

Gritos, sussurros e asma do amor

 

ilustração Manara

 

Não há mais dúvidas: quanto mais beira o verossímil, com gritos lancinantes na noite, como assimilamos do cinema, mais fingido é o tal do orgasmo.  

 

Nunca é condizente com a nossa performance e suor. Os melhores e mais recompensadores orgasmos guardam o bom preceito da educação dos gemidos. Um clássico!

 

Por mais megalomaníaco que seja Vossa Senhoria, recomendo que não acredite naquelas algazarras, feiras amorosas, sacolões do sexo, capazes de fazer os vizinhos pularem da cama só de inveja.

 

Aquela gritaria toda, meu amigo, só vale para provocar um problema dos mais graves. Deixará o casal que mora do outro lado da parede em pé de guerra, uma vez que a mulher, atenta à lição de gozo comparado, vai exigir mais, muito mais, mais e mais, e mais um pouquinho ainda, do seu colega de prédio ou de rua.

 

E o pior é que os gritos só costumam ocorrer quando o gozo não passa de truque, melodrama de fêmea, como canta a deusa La Lupe no filme Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos: “Teatro, lo tuyo es puro teatro/ falsedad bien ensayada/ estudiado simulacro/ fue tu mejor actuación/ destrozar mi corazón!”

 

O gozo desesperado costuma ter origens variadas, como me soprou o amigo W. Reich. O gozo desesperado costuma ser resultado de algum curso mal digerido de teatro amador, de formação em escola com viés jesuíta, interpretação errada dos manuais do Actors Studio, dietas à base de alcachofra e audiências tardias das onomatopéias do Led Zeppelin.

 

As melhores gazelas educam cedo os gemidos. Em vez de gritos que parecem mais apropriados para momentos de sequestro-relâmpago, a boa moça sussurra e balbucia safadezas no cangote do amado. 

 

Até a Amy Winehouse, a bela suburbana de Southgate, sabia disso. Mesmo depois do seu coquetel preferido –ecstasy, vodka, cocaína...- era capaz de um orgasmo educadíssimo. Mordia  um pouco, óbvio, pois sem dentadas, como já dizia tio Nelson, não há amor.

 

Sim, as que só mordem e tudo calam, nada falam... são as melhores! Vixe, como diria meu professor de ídiche.

 

Uma coisa é a gritaria, quase um SOS, edifício em chamas ou algum sinistro do gênero. Outra é a gemedeira gostosa, fungada sentida, sacanagem nas oiças, fogo nas entranhas, quase um decassílabo a cada descida, lirismo sem fôlego, a gostosa e inadiável asma do amor, me falta o fôlego, ave!, traz a bombinha!

Escrito por Xico Sá às 17h33

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Dez lições de amor deixadas por Wando

Ou dez coisas que aprendemos ou devemos aprender com o mestre Wando e suas canções:

1) Que a devoção às mulheres é obrigatória: “Você é luz, é raio, estrela e luar...”

2) Que brochada ou broxada é um ato de delicadeza: “Beijo suas costas e nada... / caem dos meus olhos duas lágrimas geladas”.

3) Que melhor do que colecionar obras de arte ou miniaturas é colecionar calcinhas. Coleção Wando na próxima Bienal, please curadores modernos de São Paulo.

4) Que não se deve estragar hoje o que se pode fazer mais gostoso logo adiante: “Moça, me espere amanhã...”

5) Que em uma mulher não se bate nem com uma flor: “Nossa Senhora das fêmeas proteja toda mulher/ Desses perigos do mundo,/ venha de onde vier/ Livrai dos homens malvados, sem piedade, sem dó/ Ôoo, que batem, xingam, machucam, quando não fazem pior...”

6) Que a vida íntima deve ficar entre as quatro paredes: “Eu te quero assim/ Safada, sacana/Me pedindo grana/ Ouvir seu gemido/ Quando a gente ama/Guardar em segredo/ O que a gente faz...”

7) Que o amor é como campeonato baiano, tem ida e volta, turno e returno: “O que importa, /É que um dia você volte, pra ficar,/ Vá, conheça, tudo que não pude oferecer, /Vá pela vida adormecida dos seu olhos, /Pela avenida, ao encontro das ilusões, /E quando você se cansar...”

8) Que os corpos se entendem, mas almas nem sempre: “Razões tenho demais pra te deixar e ir embora/O que é que eu vou fazer /O que é que eu vou dizer para o meu corpo /Que vai ficar vazio e quase morto”.

9) Que nunca devemos cair no conto das discussões complicadas e labirínticas: “Uma mulher tem os seus desejos loucos, mas no fundo/ Seu coração só quer as coisas mais simples do mundo”.

10) Que a poesia de verdade é punk-brega, como bem sabe Wander Wildner -igualmente Wanderley como o mineiro falecido. Que na despedida cantemos esse refrão rock´n´roll do mestre Wando, repare que lindo: “Aquele amor filho da puta me deixou/ô, uouô uouô uouô –repete 2x.

 

Escrito por Xico Sá às 13h47

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Homem já demora mais no espelho que mulher

 

A metrossexualidade by Allan Sieber 

 

Desculpa aí, meu prezado, pela insistência no tema. Não é perseguição aos fofos metrossexuais. É mera obrigação do cronista de costumes com a história do afrescalhamento contemporâneo.

A vida como ela não deveria ser, mas fazer o quê?

É o apocalipse antes do apito final do cacique Maia.

O caso eu conto como o caso foi:

Minha amiga V. protesta: o novo namorado passa tanto tempo se emperiquitando na frente do espelho que o casal não consegue chegar na hora marcada nos compromissos sociais, shows, teatros, cinemas...

Brava, pede um conselho e, ao final da conversa, desata uma gargalhada nervosa. Só rindo mesmo.

Põe roupa, tira roupa, prova de novo, troca o casaco, muda a meia para combinar com a camisa, testa uns dez pares de tênis e sapatos.

“Uma esquizofrenia fashion do demo”, presta queixa a bela comadre.

Sem se falar nos cremes -é um lambuzamento maluco. Com o cabelo, seu maior exercício de vaidade, ponha ai, por baixo, uns 45 minutos, o tempo de um jogo de futebol.

É o que ela faz, aliás, fica vendo um joguinho do seu Corinthians enquanto o mancebo escolhe as peças do vestuário. 

Por mais que tente se distrair na tv ou na internet durante o processo de embelezamento do seu metrossexual paulistano, V. confessa que vai largá-lo.

O seu critério para a decisão é muito simples: não pode ficar com um homem que demore mais do que ela para ficar pronto e apto a enfrentar o mundo.

“Se pelo menos me deixasse em paz nesse momento”, relata a nobre afilhada de Balzac.

“Não, não deixa, mal consigo falar com os amigos no Facebook, é uma praga, ele fica me consultando para saber se um cachecol está melhor do que o outro”.

Como se não bastasse, começa aquela choradeira de que está sem roupa -mesmo com os armários e araras abarrotados de grifes e acessórios.

Quando ela acha que o cara, enfim, já está “montado”, pronto para a vida, o miserável confere o visual no espelho do elevador e resolve voltar para trocar a camisa.

Só matando, ela suspira. Foi exatamente neste momento em que telefonou a este cronista com o seu desabafo. 

Sintoma da transformação masculina, o episódio narrado pela amiga é cada vez mais freqüente nos lares doces lares.

Boa sorte, amiga V., na escolha do próximo homem.

Escrito por Xico Sá às 00h45

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Grandes questões da humanidade: no país do malfeito, xixi na rua é crime?

 

Nobre mija na rua do Rio, quadro de J.Baptiste Debret, entre 1817/29 

Nem precisou chegar o Carnaval para o debate recomeçar: fazer xixi na rua é crime?

Pode até ser. Dependendo do tamanho do atentado ao pudor, diria um sátiro de plantão.

No Rio, a polícia prendeu 96 por tal desfeita, agora nas prévias de rua do final de semana. Só do bloco “Me esquece” foram 51desobedientes mijões.

Outras cidades de grandes carnavais de rua, como o Recife, Olinda e Salvador, são mais tolerantes. Mas a polêmica é sempre viva nesse período.

Todas têm em comum a mesma história: a falta de banheiros públicos ou os vagabundos banheiros químicos insuficientes para os foliões.

E não apenas para os carnavalescos.

Tente, em qualquer período do ano, achar um banheiro público nestas cidades. Recife ainda se salva se o cidadão estiver na orla de Boa Viagem.

Esqueçamos o carnaval e lembremos do aperto que passamos em SP, por exemplo. Em qualquer período do ano.

Você conhece algum banheiro público, decente ou indecente, na capital paulistana?

Desconheço. E olhe que sou um caminhador profissional que flano por todos os cantos da cidade.

De qualquer maneira, com ou sem privadas públicas –essa contradição em termos- o blog recomenda os bons modos de machos & fêmeas. Muita discrição nesta hora.

À guisa de descarga, uma inocente enquete geográfica e cultural. Em que cidade se faz mais xixi na rua no Brasil?

Escrito por Xico Sá às 02h05

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Só amante de firma ama segunda-feira

Isso mesmo que você leu, caríssimo, ainda sob a ressaca de domingo. Só os homens e mulheres que têm amantes nas firmas e nas repartições amam a segunda-feira.

É, nobre Garfield, os pombinhos sorriem na alienante linha de montagem.

Eles amam este dia como os seus próprios objetos e alvos do desejo. Segunda é o dia sagrado dos amantes de escritórios, redações, bancos, repartições, editoras, almoxarifados, restaurantes, varejões Ceasas, tomate e maravilha como na canção do Arnaldo Baptista.

Depois de esperarem o sábado e o domingo, resignados ou aos coices internos no juízo, os amantes de firmas voltam assobiando aos seus postos, mesmo nas funções mais escravas, mesmo que a burocracia lhes reservem apenas o lirismo comedido antes do almoço no quilo.

As criaturas que têm amantes nas empresas seriam uma incógnita para o velho Karl Marx , cada dia mais atual com a quebradeira dos mercados: seriam a quintessência da mais-valia, uma vez que retornam felizes à labuta e assim produzem de forma lindamente alienada?

Para com isso, seu cronista de quinta. Não ponha ideologia noss amantes.

Esse amor, seja que diabo for, não deixa de ser lindo, pois quebra de alguma maneira a corrente burra do trabalho e dos dias, velho Hesíodo.

Chega. Só queria dizer que hoje é segunda e alguém está sorrindo com essa maldita folhinha do calendário. 

Que a semana lhe seja leve. Com ou sem amante na linha de montagem.

Escrito por Xico Sá às 12h39

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PERFIL

Xico Sá Xico Sá, 48, escritor e jornalista, colunista da Folha, é autor de “Chabadabadá – As Aventuras do Macho Perdido e da Fêmea que se Acha” e + 10 livros. Na TV, participa dos programas “Cartão Verde” (Cultura) e “Saia Justa” (GNT).


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