Xico Sá

Modos de macho, modinhas de fêmea & outros chabadabadás

 

A melhor mulher do mundo: a mulher culpada

 

Duas ou três coisas que eu sei sobre a mulher culpada.

Tem coisa melhor no mundo que amor de mulher culpada?

Sim, porque como dizia o tio Nelson, até a virtude prevarica, então aproveitemos o doce amor da mulher culpada, a recompensadora, a justa, a mais honesta de todas as fêmeas do mundo, a criatura que deseja, sobre todas as coisas, nos agradar como nunca, como se fosse a primeira vez.

Há algo de uma nova virgindade possível na mulher eivada de culpa. 

Só acredito na mulher culpada.

Capaz de buscar minha camisa mais boêmia e pregar botões que faltam.

Capaz de esfregar o taco do amor como no Último Tango.

Por favor, erre mais meu amor, me xingue, volte com a consciência pesada e me recompense da forma mais justa.

Falte ao respeito, amorzim, me dê motivo para humilhações amorosas.

Mulher sem culpa é Jesus sem cruz, credo.

Quero o sagrado direito da mulher culpada aspirando nosso chão de estrelas.

Não quero perdoar por completo a mulher culpada. Viverei  do quê doravante?

Quero sempre uma beiradinha de culpa no canto do olho. Como um cisco que não sai nem com sopro da pessoa amada – como vi ontem numa cena linda de Poly com seu homem.

Não me venha sem culpa, mulher, cadê a elegância?

A culpa é a melhor lição de estilo.

A culpa é uma mulher vestida de Yves Saint-Laurent  descendo uma escada.

E qualquer uma, até uma freira, pode ter ou fingir uma culpa.

Quero a maçã caramelada da culpa no parque de Exposição de Animais do Crato.

A Eva de Crumb no Gênesis.

E sem culpa eu dispensaria até Ava Gardner, mesmo depois dela humilhar o pobre Frank Sinatra. Quem manda ter olhos azuis!

Quero o forno & fogão da culpa, a sopa quente da culpa, o Alka Setzer e a toalha pós-vômito da culpa.

Quero até o infame e imperdoável trocadilho de boteco: Tem culpa eu?

Casa, comida e roupa lavada para uma mulher culpada.

 

Escrito por Xico Sá às 16h10

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Agora é oficial: Kassab, o Jânio sem álcool

Quando digo que o Kassab, o Sr. K., é o Jânio Quadros sem álcool, muita gente acha ruim.

Principalmente os religiosos janistas. Com alguma dose a mais de razão.

Além de fazer mais pela cidade, no seu segundo mandato como prefeito nos anos 1980, Jânio era mais autêntico na sua tragicomédia política. Um artista.

Kassab é um Jânio sem álcool até ao imitar, voluntária ou involuntariamente –vai saber do que são capazes os homens do marketing- a pose clássica de JQ durante a assombrada passagem pela Presidência.

O fotógrafo Luis Carlos Murauskas, da Folhapress, que sabe mais de política do que nós todos juntos, deve ter dado risadas durante o seu clique –foto acima.

O moonwalk de uma nota só de Jânio é mais estiloso. A água escocesa realmente azeita a musculatura e ajuda na coreografia.

Em ambos, porém, o passo provoca a mesma ilusão de ótica que tínhamos com o gênio e inventor Michael Jackson: quando achamos que estão andando para a frente, estão de marcha à ré na história.

Outra marca janista que o sr. K. imita é a das proibições. Quem não governa, proíbe. É bem mais fácil.

Se Jânio vetou o biquíni no Ibirapuera, Kassab mandou logo lacrar os puteiros e inferninhos.  

A blitz, a pegadinha, a visita-surpresa a órgãos públicos também era outra característica de JQ.

O senhor K. até que tenta, mas o charme do dramalhão janista é insuperável. Foi um dos maiores atores que o país já teve.

Kassab é mais sincero, sua face corada entrega a farsa. Taí uma grande vantagem do alcaide paulistano.

Quem seria hoje, em matéria de artes dramáticas, o grande nome na política?

 

Escrito por Xico Sá às 10h03

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Minha 1ª vez em SP e mais um pouco de história

Juro, foi tão comovente quanto ver o mar pela primeira vez. Minha chegada foi de bagunçar o coração, coisa de cinema.  

foto João Wainer

Valia o sonho da velha piada: “Cresce logo, menino, pra ir pra São Paulo”.

E haja Emulsão de Scott, aquela delícia de óleo de fígado de bacalhau, para vitaminar o crescimento.

O eco da voz materna retorna agora ao sótão edipiano da cabeça de cearense: “Se não tomar o remédio não vai para São Paulo!”

Meus tios e primos, que haviam migrado nos anos 1970, voltavam de férias cheios de histórias de grandezas.

O tatuzão cavando pra fazer o metrô era a coisa  que mais me impressionava. Eu sonhava com aquele bicho gigante.

 “Estou trabalhando debaixo da terra”, dizia um parente. “Lá é tão frio que chove até pedra de gelo”, assombrava outro.

Aquelas narrativas nos deixavam, matutos do Sítio das Cobras, município de  Santana do Cariri, maravilhados.

Será que um dia vamos conhecer essa terra? Será? Aquelas fábulas fantásticas acabaram funcionando como um hormônio e tanto para o crescimento.

Quando o ônibus chegou na rodoviária, em janeiro de 1976, eu enxugava,  com a manga da camisa, algumas rápidas lágrimas que escaparam pelas brechas da  macheza semi-árida.

Um alumbramento que me fazia enxergar um Sena onde havia apenas um  Tietê. Eu já era um simpático rapaz espinhento e adolescido.

Peguei o metrô e sofri para achar a casa do meu tio Alberto, no Parque São Rafael, ZL. Só a avenida Sapopemba era uma eternidade.

“Ô Saopaulão grande da bubônica, ô Sãopaulão grande da porra!”, matutava o matuto. 

Dias depois, gastava o espanto de novo baiano na Sé, no Viaduto do Chá, na frente dos cines e teatros pornôs do Centrão, na Augusta –esperava anoitecer e subia e descia só recolhendo imagens que seriam devidamente escaneadas no banho.

Passeava sozinho por SP, exercendo a bela arte de chutar tampinhas e de abestalhar-me com as mulheres da cidade, caro João Antônio.

Lindas, mas na delas. “Quase nenhuma te encara na rua, são econômicas de olhar”, refletia. “Só devem sorrir nas firmas... jamais nas ruas!”

Durante a temporada de mês, só as generosas moças da Luz e da Augusta, as “secretárias das calçadas” –como dizia um sucesso brega da época- sorriram para mim, sem graça.

Coitado daquele rapaz, voltou para o Nordeste mais seco  e necessitado do que retirante de quadro de Portinari.   

No dia 1º de abril de 1990 -depois de ter morado em Juazeiro, vivido a educação sentimental no meu Recife e passado por Brasília-, estava  de volta, agora para ficar, profissionalmente.

Continuei achando as moças lindas. Agora já me sorriam nos corredores da firma. Mas foram necessários uns seis meses (tenho duvida) para que Maria Ligia, meu primeiro amor em SP, acreditasse na minha conversa de loucura por aqueles ojos verdes.

Tão linda. O Tietê voltou rapidinho à sua condição de Sena.

Para completar a euforia, descobri os sabiás da megalópole -meu passado me condenava como vendedor de passarinhos. Em pleno Largo de Santa Cecília, acordava ouvindo esses danados. Ainda hoje me impressiona como tem sabiá na cidade.

Tem mais sabiá aqui do que na minha infância inteira, seu Rubem Braga. Minha terra tem Palmeiras, São Paulo, Corinthians... onde canta o sabiá. Adorava recitar essa parodiazinha ridícula.

Muitas Augustas, Angélicas e Consolações depois... Muitas bistecas e muitos engradados do Sujinho depois, vez por outra me pego ranzinza, reclamando e mal-dizendo da cidade.

Até pareço um paulistano nessas horas. Mas ai basta lembrar do que diz a minha mãe, aquela que me empurrava o Emulsão de Scott, para que o mau-humor com a província de Piratininga se dissolva. 

Quando dona Maria do Socorro me ouve xingando essa terra, fala duro, com firmeza, num corretivo:

“Meu filho, cala-te boca, você num sabe que São Paulo foi quem deu o pouco que temos. Vê que casa linda me deste de presente!”

Escrito por Xico Sá às 00h08

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Panfleto por uma SP menos reacionária

 

arte de rua by Celso Gitahy,SP

 

Nesta semana de aniversário da cidade, pego a bandeira de uma das mais sábias e lindas paulistanas:

"São Paulo, larga a mão de ser reacionário. Isso é triste e burro e violento", manifestou-se a brava moça.

Bia Abramo é o nome dela, profissão jornalista.

Em nome da sua nobre causa, rodei este panfleto romântico, declaradamente ingênuo e grávido de anarcolirismo.

Bárbaros, crédulos, pitorescos, meigos e novos Oswalds de todas as artes & ofícios, espalhemos a boa nova.

Por uma SP menos reacionária.

Por uma SP menos sorridente diante da chacina.

Por um São Paulo menos reacionário e uma SP igualmente.

Por uma SP que não seja a extensão do braço armado da polícia.

Menos design fascista, menos bancos antimendigos, menos rampas antimiseráveis.

Pela ocupação dos prédios improdutivos do centro por sem-tetos e artistas sem grana.

Por calçadas menos esburacadas para o conforto do flâneur, do bêbado, do velho e da mulher grávida.

Por uma estética mais “baiana” e menos fetiche da mercadoria nova-iorquina.

Que Esperanza, a índia boliviana de Cochabamba, troque a escravidão do parque industrial subterrâneo pelo sol da decência.

Que a alegria seja mesmo a prova dos nove no matriarcado de Pindorama e de Piratininga.

Pela prática da psicanálise selvagem nos bancos de praça. A Sé como a Viena de Freud.

Redes entre as árvores dos parques para a sesta de esportistas e sedentários.

Que a sesta seja obrigatória no comércio, na indústria e nas redações de revistas e jornais.

Por uma SP menos avexada. Que a tecla oficial da cidade seja o slow.

Pela modernismo de ontem e não a modernagem de hoje.

Pela ciência de que o futuro está em 1922. 

 

Escrito por Xico Sá às 17h10

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A mulher que vendeu o marido

Estimada leitora, quanto vale o seu homem?

Prezado leitor, em quanto você acha que está cotado?

Sei que é muita metafísica para um domingo de maresia e leseira, mas a pergunta procede.

É baseada em um “fatos reais” da cidade de Patos, na Paraíba, onde acabo de chegar para resolver um contencioso de amor.

O relato está no cordel “A mulher que vendeu o marido por R$ 1,99”, de Janduhi Dantas, um dos grandes nomes da nova geração de cordelistas.

Na sua crônica de costumes sobre o avanço das mulheres, o poeta conta como uma destemida fêmea resolveu se livrar do seu ébrio e desagradável companheiro, no ano de 2010.

A heroína, que no cordel é comparada a Leila Diniz, levou a infeliz criatura à feira e o vendeu a uma velha senhora.

Para desmoralizá-lo publicamente, não aceitava mais do que R$ 2 pelo sujeito. Voltou feliz ao lar doce lar.

Quantas vezes você, amiga, não quis se livrar do seu pé-de-cana, não é mesmo?

Ninguém merece.

É, amiga, como diz outra mulher genial, a escritora Flannery O`Connor (1925-1964), "Um homem bom é difícil de encontrar" -livraço que ilustra este post e que muito recomendo.

Erga as mãos para os seus e agradeça se acaso tiver um dessa categoria.

Mais fácil encontrar esses de R$ 1,99 mesmo, não acha?

Repito: quanto vale o seu traste?

Mire-se no exemplo das belas mulheres da Paraíba.

 

Escrito por Xico Sá às 00h10

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PERFIL

Xico Sá Xico Sá, 48, escritor e jornalista, colunista da Folha, é autor de “Chabadabadá – As Aventuras do Macho Perdido e da Fêmea que se Acha” e + 10 livros. Na TV, participa dos programas “Cartão Verde” (Cultura) e “Saia Justa” (GNT).


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