Xico Sá

Modos de macho, modinhas de fêmea & outros chabadabadás

 

Pelo MSTT, movimento dos sem-trending-topics

Só hoje vim a saber que diabos era mesmo esse negócio de Luíza está no Canadá etc.

De Michel Teló soube quando o cara visitou o Real Madrid, porque curto futebol, obviamente.

Do suposto estupro do BBB 12... idem ibidem.

Nunca sei o que significa pelo menos nove de cada 10 tópicos mais comentados do twitter.

Tudo bem, ando meio desligado e ainda na maresia do veraneio.

A praia de São Miguel do Gostoso (RN) me lesou mais ainda. Lá a gente esquece até o próprio nome com o mar até o pescoço e água de coco diluindo o google do cerebelo.  

Francisco-quem  mesmo?

Calma. Não se trata de uma redação do tipo “minhas férias” -eu adorava escrevê-las, professora Emília, escola Moreira de Souza, Juazeiro do Norte.

Calma aí. É que admiro demais as pessoas desligadas. E somente em algumas fases do ano consigo tal proeza.

Como sempre ganhei a vida com informação, seja uma besteira monumental ou um furo retumbante, não posso me dar ao luxo de desligar a bomba e apertar o “on” do foda-se.

Este, porém, é o meu projeto de vida.

Nesta temporada sob o sol dos trópicos conheci muita gente que consegue. Criaturas extraordinárias.

E não estou falando de bravos maconheiros das antigas, intelectuais ou pseudos-intelectuais  que recusam a leveza do pop.

Gente de todas as classes e graus de instruções.

Gente à prova dos virais.

Gente à prova de BBB´s & outras micaretas.

Gente com os pés no chão.

Ando meio desligado. Mas demorarei para atingir esse sofisticado estágio ou fase.

Não significa que você não saiba o que se passa no mundo. Significa, porém, que você não saiba da gafe da Luana Piovani e ignore nove de cada 10 itens do twitter.

Pelo movimento dos sem-trending-topics, MSTT, por supuesto. Sem trending-topics no juízo.

Pelo MSV, movimento dos sem-virais, braço auxiliar do MSTT, evidentemente.

Pela ocupação das redes sociais com movimentos particularíssimos, como o  movimento sexy do umbigo, por exemplo.

 

Escrito por Xico Sá às 21h56

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Retratos da Paulicéia - A mulher que ronda a cidade

E continuamos com a série de crônicas em homenagem ao aniversário de SP. 

A mulher chega na frente do bar, como não quer nada, vasculha com as vistas, e vai embora.

Mais adiante repete o mesmo ritual em outra freguesia. Está desesperada à procura do marido, do traste, do vagabundo, como deve ser tratado doravante.

De tanto ver tal cena na capital paulista, quando trabalhava como patrulheiro de ruas no baixo meretrício, Paulo Vanzolini fez a clássica "Ronda".

Vanzolini que é bamba da música, mas gosta mesmo é do seu ofício como zóologo da USP, doutor em biologia em Harvad, cientista especializado em répteis.

Entres seus estudos recentes está um mergulho no comportamento das cascáveis. Homem destemido.

Criatura que rasteja, seja macho, fêmea ou bicho é com ele mesmo.

A sua música está repleta da gente que esperneia, desassossego, como a dama que procura o seu marido, amante  ou cacho em uma longa viagem ao fim da noite paulistana.

E foi ao ouvir de novo a canção que joguei na mesa do botequim o debate: esta mulher ainda existe?

Falo da destemida que enfrenta o frio e as almas sebosas da madruga em busca do seu homem?

Há controvérsias, como diriam os diplomáticos.

Ora, hoje em dia existe o celular, ela não careceria de tanta humilhação, diriam outros mais espertos.

E se ele desligou o aparelho, como muitas vezes acontece nos chá-de-sumiço do gênero?

Um pouco da canção enquanto o leitor reflete sobre o tema: “De noite eu rondo a cidade/ A te procurar sem encontrar/ No meio de olhares espio em todos os bares/Você não está...”

O problema é que agora somos nós, os homens, que rondamos em vão à procura da cria das nossas costelas, opinariam amigos que se pelam de medo de um chifre, um traição amorosa.

Até que faz sentido. Sintoma dos tempos, coisas da vida. Bem feito. Eu acho é pouco. Levamos o troco da história.

Vanzolini gira na agulha: “Volto pra casa abatida/ Desencantada da vida/ O sonho alegria me dá/ Nele você está...”

Coitada, você diria a essa altura, abaixou-se mais do que os répteis investigados pelo Vanzolini. Recolha a sua piedade, amigo, e aguarde as cenas dos próximos capítulos.

“Ah, se eu tivesse/ quem bem me quisesse/ Esse alguém me diria/ Desiste, esta busca é inútil/ Eu não desistia...”

Até ai tudo bem, rola o vinil na vitrola, mas a dama, logo adiante, já ensaia a tragédia: “Porém, com perfeita paciência/ Volto a te buscar/

Hei de encontrar/ Bebendo com outras mulheres/ Rolando um dadinho/Jogando bilhar.”

Como vê, amigo, o ciúme sempre corre na frente da realidade e puxa o rabo de todos demônios interiores.

Até o trágico epílogo: “E neste dia então/ Vai dar na primeira edição/ Cena de sangue num bar/ Da avenida São João.”.

Não foi por falta de aviso. Os seres que rastejam depuram no alambique do peito os venenos mais trágicos.

Escrito por Xico Sá às 21h00

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A blitz antibroxada nos bares de SP

Gazelas insinuantes aproveitam as nuvens de testosterona que encobrem a noite dos bares da vila Madalena, SP, e distribuem folhetos contra a “disfunção erétil” .

Sim, a humaíssima brochada ou broxada, por supuesto, como admitem os dicionários.

Uma piadinha bêbada aqui, uma cantada grosseira acolá, e lá seguem as moças na pregação cívico-priápica. 

Uma galega linda. Tão linda que só perde para Amanda –a pescadora dos sete mares-, me sorri bonito e barulhento como o cachorro da música de Roberto.

O panfletinho azul que elas distribuem nem toca no nome da pílula milagrosa. Nem carece.

Mal as fofoletes adentram o Filial, botequim da madruga, e a nossa mesa, enfeitada por um magote de cabra safado, ataca de “Capim Novo”, o clássico da disfunção erétil de todos os tempos:

 “Esse negócio de dizer que droga nova/ muita gente diz que aprova/ mas a prática desmentiu...”

Nossa canção de protesto toma conta do ambiente. Um belo fuzuê:

“O doutor disse/ que o problema é psicológico/ não é nada fisiológico/ele até me garantiu...”, emendamos.

“Certo mesmo é o ditado do povo/ pra cavalo velho/ o remédio é capim novo”.

A música de Luiz Gonzaga e José Clementino toca fogo na noite paulistana.

Pianinho, pianinho, como dizia Benito de Paula. Silêncio no ambiente.

Aí começa um debate de altíssimo nível. Com participação das gazelas, dos garçons, do tirador de chope...

Beber é ter sempre uma tese de algibeira.

A desta fatídica noite: pelo direito de falhar, pelo direito de ouvir um lindo “relaxa, querido, isso acontece nas melhores famílias do Crato.”

Tempos chatos estes da felicidade química a qualquer custo.

Como diz uma amiga curitibana, linda afilhada de Balzac, hoje em dia as mulheres não sabem mesmo se são o motivo daquele sexo inspirado ou se tudo não passa de mais um milagre da pílula.

Acabou aquele suspense, hitchcockianismo  do amor, diante da possibilidade de um retumbante fracasso na cama.

Acabou o orgulho da moça em fazer funcionar algo aparentemente leso e morto.

Com as tais das drogas novas, o camarada é capaz de ficar excitado até num velório. Morte de parente próximo. Qualquer coisa que se bula é motivo para o assanhamento. 

Esse paraíso artificial só faz sentido para os vovôs.

As autoridades poderiam até distribuir umas drágeas por ocasião do pagamento das aposentadorias. Seria o fim geral do fastio.

Nada de “vovô viu a uva”. Coisa das antigas. “Vovô viu o Viagra”. Esta sim seria a nova aliteração didática das cartilhas infantis.

Para os mais jovens, jamais. Apenas a pílula do destemor e da coragem.

Escrito por Xico Sá às 20h22

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Recife melhor que Paris

Ou Por que o Recife (aqui na foto by Fred Jordão) é a melhor cidade do mundo!

Antes de tudo um alerta, inclusive para os recifenses mais jovens: o certo é O Recife, no Recife. Dizer em Recife é o mesmo que dizer em Bahia, em Rio. Pra gente soa um desastre. E é errado. Por favor, Folha de S.Paulo e toda mída sudestina.

Amar mulheres muitas, amar cidades só uma: Recife. Disse certa vez o poeta e tradutor alagoano Lêdo (Engano) Ivo, como chamamos no trocadilhismo bêbado.

Assim como sempre amei mais do que uma mulher, amo mais de uma cidade. Nenhuma, porém, amo mais que o Recife.

Agora um pequeno e desnecessário  esclarecimento: sou dos recifenses nascido no Ceará, como Miguel Arraes, dom Helder e etc. Tô fraco de companhias, sorry.

Mais precisamente no Cariri.

Óbvio que amo o meu Crato, onde só nasci nem nunca morei. Óbvio que amo Santana, a maior reserva de fósseis de pterossauros gigantes do planeta, onde vivi a infância –Sítio das Cobras, perto de Aratama, Assaré, que luxo da gota serena.

Juazeiro foi amor de muito. Até os 15, 16, quando peguei o bacurau Princesa do Agreste que mudaria minha vida.

Família metade pernambucana, metade cearense, arrecifes pedrifiquei-me.

Cá me encontro. Sem vontade alguma de comentar nada do mundo. Sem aquela velha opinião formada sobre tudo.

Apenas querendo dizer que amo até o cheiro desses bueiros apodrecidos do velho Recife Assombrado.

Que amo como o boi que avoa do conde Maurício.

Cá me encontro. Com vontade de apenas dizer que sinto sim saudades grandes de SP, a generosa SP dos tempos pré-Kassab.

SP com luminosos tal Tóquio. A beleza-mor. Kaos. Loviu Liberdade e todas as minhas concubinas e augustas putanas.

Com o Recife, porém, ninguém compete. Recife melhor que Paris, como disse o amigo Mario Hélio no seu livro.

Se Deus fosse botar um piercing, como eu escrevi pro filme “Conceição”,  do estimado Heitor Dhalia, botaria no Recife.

Aqui é o umbigo do mundo. Mesmo.

Recife, desculpaí seu Bandeira, Recife com arroz e com o neto de Arraes.

Evoco-te invocada cidade, evocações.

Recife com ou sem prefeito. Bom de todo jeito.

Hellcife.

Nessa tarde da rua da Aurora, a mais bonita do mundo segundo Gilberto Freyre, as morenas ficam mais lindas.

Avisto daqui da janela a mais bela das comerciárias.

Jambo-girl?

Não.

Morena caldo-de-feijão-vermelho. Foi meu amigo Duncan Lindsay, from Garanhuns/New York, que me ensinou a catalogar os 17 tipos de morenas do Nordeste brasileiro.

Foi.

Eu lambi o umbigo do mundo, caro Cícero Dias, e ele se derretia nesta tarde com tuas cores, mangas, e pronto.

Escrito por Xico Sá às 18h16

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O BBB e a crônica das belas adormecidas

Não vejo BBB. Não por metimento intelectual, pois sou capaz de ver coisas bem mais trash na tv. É que não gosto e pril, e pronto. Da repercussão, porém, é impossível se livrar.

Amigas me chamaram a atenção para a cena de sexo com uma mulher desacordada. 

Estupro? Será? Talvez. Triste. 

A propósito das mulheres que dormem, republico, a pedidos, uma crônica sobre o assunto:

“Amar, além de muitas outras coisas, quer dizer deleitar-se na contemplação e na observação da pessoa amada”, sopra o velho escritor Alberto Moravia, sempre aqui na minha cabeceira.

Uma das melhores coisas da vida é observar uma mulher quando dorme, entregue, para além dos pesadelos diários.

Como bem disse Antônio Maria, um homem e uma mulher jamais deveriam dormir ao mesmo tempo, embora invariavelmente juntos, para que não perdessem, um no outro, o primeiro carinho de que desperta.

Experimente você também, estimada leitora, vê o seu homem quando dorme. Há uma beleza nessa vigília que os tempos corridos de hoje não percebem.

Amar é... vê-lo(a) dormindo.

Cada mexidinha, cada gesto. O que sonha nesse exato momento? Tomara que seja comigo, você pensa, pois o amor também é egoísmo.

Gaste pelo menos meia hora por semana nesse privilegiado observatório.

Psiuuuuu!

Ela dorme.

Mãozinha no ar, como se apanhasse pássaros, que coisa mais linda. Uns 23 minutos assim, mirei no rádio-relógio.

A mão desce ao colchão, quase dormente, formigamentos. Coça o nariz. Põe a mãozinha direita entre as coxas. Agora vira de lado, como os antigos LPs quando gastavam as seis músicas do A. E me abraça como nunca fosse partir, corpos viciados, almas em busca de um acerto.

Dorme, meu anjo.

Ela obedece.

Vigio o sono dela como um soldado zapatista.

Como um cão zela o sangue do dono.

Como se fosse um homem-exército e pronto.

Amar, no início era o verbo intransitivo da alemã professora de amor de Mario de Andrade. O idílio tem sobrevida, não como gênero, mas como vício, vício de amar. Amar de muito.

A mão desce agora sobre o meu peito, como se medisse meus batimentos.

A mão direita volta para a arte de apanhar pássaros, que beleza, que diabos!

O ideal é que você, amiga leitora, durma do lado esquerdo da cama, o do coração, sempre.

Mãozinha no ar catando pássaros. Até se acalmar de vez.

Calmaria danada de horas, sem coreografias ou narrativas. Sonha, sonha, sonha, minha menina.

Como é lindo a vigília ao sono dela.

Coça o nariz. Sussurra umas onomatopeiazinhas lindas de sonhos de besouros.

Ela arruma os cabelos como algas, entorpeço num mergulho.

Observar o sono do(a) amado(a) é a melhor maneira de mapear a sua beleza.

É a melhor maneira de conhecer o homem ou a mulher com quem dormimos.

E como são lindas aquelas marquinhas deixadas pelos lençóis no corpo dela. Um mapa de delírios! Melhor é lê-las como quem adivinha os sonhos e o futuro no fundo da xícara árabe ou no tarô das cartas.

Escrito por Xico Sá às 19h23

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PERFIL

Xico Sá Xico Sá, 48, escritor e jornalista, colunista da Folha, é autor de “Chabadabadá – As Aventuras do Macho Perdido e da Fêmea que se Acha” e + 10 livros. Na TV, participa dos programas “Cartão Verde” (Cultura) e “Saia Justa” (GNT).


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