Xico Sá

Modos de macho, modinhas de fêmea & outros chabadabadás

 

Crepúsculo da Cracolândia e as Higienópolis do Brasil

 

 

Higienópolis agora tenta se livrar dos capitães do crack, essa nuvem de zumbis que vaga por SP.

Essa legião de gabirus-ninjas protegidos apenas por seus molambos de cobertores Parayba. Cancões de olhos-de-fogo da fumaça azulada.

Higienópolis tem virado símbolo do medo burguês –ou de uma certa classe média- do misererê nobis ou da gente diferenciada.

Gente diferenciada é o termo da novilíngua do bairro para definir os "Feios, Sujos e Malvados" ("Brutti, Sporchi e Cattivi"), como no cartaz do filme acima que ilustra este post.

Pode ser justo afirmar que SP está na vanguarda do atraso da higienização.

Basta observar as patentes das gestões demotucanas dignas de uma feira internacional da higienização social urbana, como a rampa e o banco de praça antimendigos.

Pode ser justo porque essa gente pegou pesado nessa arquitetura da assepsia. Uns tarados pela vida limpinha.

Mas isso aqui, iaiá, como na canção, é apenas um pedacinho de Brasil, ioiô.

Também é justo dizer: Higienópolis não fica apenas em SP. 

O país está repleto de Higienópolis ilhadas por pobres indesejados em todas as partes.

Agora mesmo o que vi de cancelas e muralhas no litoral nordestino é uma doideira. Pobre não entra. Praias particulares para os ricos daqui, do Sudeste e do estrangeiro.

De Serrambi (PE) a Morro de São Paulo (BA). Em todos os Estados litorâneos rola a mesma cancela ou edificações que lembram o muro de Berlin.

Nem quero mirar no exemplo das ilhas de Angra, a Higienópolis marinha. Seria até covardia.

As desculpas são muitas para enxotar os feios, sujos e malvados, como no filme acima. 

Sabe quanto vai entrar de grana para a campanha eleitoral? Falo da grana  das empreiteiras envolvidas com a operação arquitetônica Crepúsculo da Cracolândia.

Nem eu. Só sei que não acredito em interesse dessa gente em salvar pobres das drogas. Prefiro ingenuamente apostar no de sempre: estão limpando a área para entregar por um preço mais alto às construtoras gigantes.

E por falar em higiene e limpeza, assim uma mão pública lava uma mão privada e vice-versa.

Escrito por Xico Sá às 19h21

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Breve oração na despedida de São Marcos

 

 

Ô figura esse Marcão!

É o único santo do mundo que ri de si mesmo.

O único santo do mundo que reconhece, antes de todo mundo, os seus pequenos pecados e tropeços.

Reconhece inclusive, e publicamente, como fazia o Sócrates -ainda jogador de bola-, que toma uma cerva de leve e que pita, como um bom caipira, o seu honesto cigarrinho.

“Vícios Não São Crimes”, como já dizia o gênio das leis Lysander Spooner ainda em 1875.

Sim, são prejudiciais à saúde, deixo aqui a tarja de advertência para os meus jovens leitores..

Ô figura esse Marcão, nosso evangelista do futebol!

Justo como o santo homônimo, sempre pondo o dedo das feridas podres dos donos da bola.

No seu jeitão de quem está sempre contando um causo, muitas parábolas sobre o jogo clássico do caráter X trairagem. 

É o tipo de santo capaz de agradar até a um radical ateu corintiano –exceto durante aqueles milagres dos pênaltis da Libertadores.

Boa segunda vida, Marcão, há vida depois do futiba.

Ainda mais para um santo que manja as suas terrenas imperfeições.

Ainda mais para um goleiro que sempre foi obrigado a provar mais do que todos os outros.

Ainda mais para um bom moço de Oriente (SP), criatura simples, que até debaixo do gol se comportava como quem estava apenas na porteira da roça.

Por muito menos, falsos milagrosos foram idolatrados, enquanto por algumas poucas falhas do ofício Marcão sempre foi posto em xeque.

Como tu mesmo contaste, no programa “Cartão Verde” (TV Cultura), uma falha tua sempre era repetida mil vezes no videoteipe.  As de outros metidos arqueiros  nem tanto –sempre foram poupados do vexame público.

Canonizado pelas massas, de ti sempre foi exigido que abrisse a cada jogo uma tenda dos milagres.

Feliz vida nova, Marcão.

“Só o jogador de futebol morre duas vezes”, disse o Falcão no momento da aposentadoria. “A primeira é quando encerra a carreira”.

No caso de um goleiro, a morte é mais rotineira e se multiplica a cada grande falha. É o único vivente da terra para quem errar nunca foi demasiado humano.   

Deixemos aqui também, caro Marcos, um rápido calcanhar filosófico do nosso amigo Doutor Sócrates sobre a hora do adeus:

 “Não é o jogador que abandona o futebol, é o futebol que abandona o jogador”  

Um forte abraço e feliz segunda vida, grande palmeirense de todas as torcidas.

Escrito por Xico Sá às 19h11

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Nova campanha pela volta do cafuné

 

 

Nostalgido Jr., estafeta e braço-direito deste blogueiro, insiste, cricri como sempre:

-Já que falaste da arte de espremer cravos da pessoa amada, retome a nossa campanha pela volta do cafuné, meu caro.

Conservado na aguardente dos velhos costumes, Nostalgido Jr. toma mais uma antes do almoço, na praia do Pina (Recife), e apela, fofo:

-Lembre-se que sou co-autor da crônica. Preciso agradar uma moça com esse texto; ou publica ou me demito.

Tudo bem, cabra safado, soltemos mais uma vez o nosso panfleto sentimental:

Dos dengos femininos, ou historicamente femininos, o que mais nos faz falta é o cafuné.

Nos dias avexados de hoje, não há mais tempo nem devoção para os delicados estalinhos no cocoruto do mancebo. 

Pela volta imediata do mais nobre dos gestos de carinho e delicadeza. Nem que seja pago, como o sexo das belas raparigas dos lupanares, mas que devolvam vossas mãos às nossas cabeças.

Pela criação imediata da Casa de Cafunés Gilberto Freyre, como me propõe, em sociedade, a amiga Maria Eduarda Risoflora Belém.

Ótima idéia a ser espalhada por todo o país. Milhares de casas, guichês, varandas, redes debaixo de coqueiros, sofás na rua... Tudo a serviço dos breves e deliciosos estalinhos dos dedos das moças.

Clínicas de cafunés pelo SUS!

Gilberto Freyre era um entusiasta do cafuné e a ele dedicou páginas e páginas.  GF, aliás, escrevia como quem dá cafuné, prosa mole, ritmo dos mais  sensoriais.  Como também assenta palavras outro Freire, sem o estilingue do Y, o Marcelino de “Contos Negreiros”.

Como Hemingway apreciava espremer cravos na sua Mary, Jorge Amado era um praticante do cafunezismo, como vemos no retrato acima com a sua Zélia.

Que machos & fêmeas sejam treinados, em um programa social de emergência, para reaprenderem o hábito do cafuné.

Melhor: que seja feita uma campanha de saúde pública. Ah, quantas doenças de fundo nervoso seriam evitadas, quantos barracos de casais seriam esquecidos, quantos juízos agoniados seriam libertos!

Sem se falar no erotismo que desperta o dengo, como anotou outro sociólogo, o francês Roger Bastide, no ensaio “Psicanálise do Cafuné”.  Pura libido.

Delícia de se sentir; beleza de se ver. O cafuné de uma mulher em outra, ave palavra!, puro cinema, para além muito além do lesbian chic.

Como era comum, na leseira de fim de tarde, nos quintais e nas calçadas.

Ao luar, então, sertões e agrestes adentro, era puro filme de Kurosawa. O resto era silêncio.

Ai que preguiça boa danada, ai que arrepio no cangote, quero de volta meus cafunés.

Viver de brisa, como na receita de Bandeira, numa rede na rua da Aurora, sob a graça dos dedos de uma morena jambo ou de uma morena caldo-de-feijão.

Como pode uma criatura, como esses rapazes de hoje, passarem pela vida sem provar do êxtase de um cafuné?

Pela obrigatoriedade do cafuné nos recreios escolares, nas missas, nos cultos, nos intervalos dos jogos de qualquer esporte.

Não é possível que se condene toda uma geração a viver sem cafuné. Eis uma questão de segurança nacional.

Tão importante como aprender a assinar o próprio nome. O cafuné, aliás, é a assinatura em linda e barroca caligrafia de mulher.

Escrito por Xico Sá às 18h51

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A arte de espremer cravos da pessoa amada - II

 

 

Retomo alguma esperança na humanidade.

A primeira manifestação amorosa que testemunhei no ano novo foi uma mulher tirando cravos do seu homem.

No caminho entre a praia de Carneiros e o Recife. Precisamente no bar do Marcão, Maracaípe, parada do almoço, com rock progressivo na sonoridade ambiente.

O sol por testemunha, velho Hemingway, acredite: naquela cena havia a reinvenção do macho e da fêmea.

Ela resgatava a grande arte de tirar cravos na napa do seu mancebo.  Uma arte que anda um tanto quanto obsoleta, uma arte quase morta.

O velho Hemingway gostava tanto de ter o rosto mexido pela costela amada que retribuía o ato, como vemos ai na foto com a sua bela Mary.

Retomo a esperança na humanidade.

O melhor é que era uma gazela moderna. Nem combinava com aquele viejo e cansado rock progressivo que saía do violão do moço.

Moderníssima protagonista de uma cena que parecia tão demodê, tão das antigas.

Preferimos, aqui neste panfleto inaugural de 2012, incentivar a prática de espremer cravos e espinhas a testemunhar o horror e o triunfo da invasão dos homens nos salões de beleza.

Na manifestação feminina de Maracaípe vi Deus refazer o macho-jurubeba a partir da costela das Evas futuras.

Retomo alguma esperança na humanidade.

A derradeira vez que havia visto uma mulher fazendo a revolução dos cravos com os indicadores  foi numa parada de ônibus na avenida Sapopemba, ZL de SP, ano 2009.

Suburbanos corações espremidos.

A parada de ônibus é o sítio perfeito para tal gesto. Um olho no destino do coletivo e outro na cândida face de um marido resignado como um Cristo de Semana Santa.

Não tem a menor graça, nesse mundo tão imbecilmente profissionalizado, a limpeza de pele dos salões de beleza. Seu rosto ali entregue a  amistosas funcionárias sem nenhuma intimidade, mulheres que nunca ouviram os nossos roncos e gemidos de noite na cama.

É o tipo de serviço que exige intimidade. Tal arte carece de pelo menos um mês de namoro ou acasalamento. Não é tarefa para qualquer uma.

É tão delicado quanto tirar a roupa pela primeira vez na frente de outrem - e, pensando bem, uma reveladora prova de devoção.

A menos que seja uma perversa incatalogável, uma gazela não escarafuncha nossas crateras à toa. Quando ela posiciona aqueles dois indicadores sobre a bíblica face parece aceitar a convivência harmoniosa até com as nossas mais indignas impurezas.

Você, amiga, tem nojinho ou pratica, na buena, a tal arte sob o sol dos trópicos?

Escrito por Xico Sá às 15h36

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PERFIL

Xico Sá Xico Sá, 48, escritor e jornalista, colunista da Folha, é autor de “Chabadabadá – As Aventuras do Macho Perdido e da Fêmea que se Acha” e + 10 livros. Na TV, participa dos programas “Cartão Verde” (Cultura) e “Saia Justa” (GNT).


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