Xico Sá

Modos de macho, modinhas de fêmea & outros chabadabadás

 

Amor é como aquela placa de fiado: só amanhã

E seguimos na estrada. Agora a margem esquerda do rio São Francisco, Juazeiro, Petrolina.

“Amor só amanhã”, como na placa do fiado das velhas bodegas, como pragueja Esmeralda, ela mesma sábia e ex-proprietária de uma mercearia de secos & molhados que negociou toda uma vida na base da fiança e da caderneta.

Não parece nada ressentida além da conta imposta pelos tantos janeiros, vê-se nas feições de mulher grande, que pisa forte e justifica com beleza uma a uma das rugas. “Amor só amanhã” é apenas um dos seus tantos chistes contra escravidão barata a sentimentos doentios tipo Síndrome de Maysa.

“Meu mundo caiu uma pitomba”, gargalha,  “isso é coisa de gente fraca”, diz e escancara o riso mais ainda, pense em uma grandeza, senhoras e senhores.

Esmeralda, como ela mesma diz, é viúva de um morto e viúva também de um marido vivo, como brinca com o seu atual e lesado consorte, varanda do rio São Francisco, ali adonde o mundo se divide entre Juazeiro e Petrolina.

Além de lembrar um tanto a minha mãe na sua disciplina virginiana -a gente vive por ai a enxergar a mãe nas belas senhoras-, Esmeralda é a cara da  personagem Amélia, não a Amélia submissa da canção de Mário Lago, mas a destemida criatura do livro “A Balada do Café Triste”, de Carson McCullers, escriba do sul dos Estados Unidos da América tão boa quanto o velho William Faulkner, bravo senhor também daquelas bandas.

De fala certeira e braços fortes, Esmeralda, assim como miss Amélia, cuidou por muitos anos da sua taberna e das plantações nos arredores de casa.

Assim criou, praticamente sozinha, oito filhos, meia dúzia de machos e duas fêmeas. Capaz de enxotar no tapa os pés-de-cana que roubavam-lhe a paz no balcão da bodega e no mesmo embalo ainda bater na calçada uma montanha de feijão em vargens. Em um silêncio bruto que encorpa ainda mais o sangue da auto-suficiência e do orgulho de não precisar de homem.

Quando se diz viúva de marido vivo, Esmeralda se refere à leseira ribeirinha de Donato, com quem se casou há dez anos e cinco meses. Ela entrou para os sessenta anteontem; o traste, como ela diz, tem meio século de penitência nas costas.

Não é que o caboclo seja leso de tudo, até que se mexe o sujeito, é que diante daquela mulher qualquer um toma chá de sumiço, se encanta, desaparece, se apequena, amofina. 

Mas se não tem queda alguma para o amor, por que casou outra vez, criatura?, pergunto, levando em conta a proteção de ser parente distante da fera.

“Por pena do desalmado, eu juro, vivia ai pelos cantos com um declaratório infeliz, ainda por cima fraco das pernas e do juízo”, argumenta. “Como os filhos se largaram tudo no mundo, botei dentro de casa, serve ao menos para tanger galinha e também como carranca contra os maus espíritos”, zomba da feiura do peste.

De um canto da sala, encolhido em uma rede, o marido ri bonito diante da grandeza de Esmeralda. Desce mais uma Caribé com este inoportuno cronista visitante e a mira morto de preguiça e felicidade.

Escrito por Xico Sá às 17h55

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Nossos planos são muito bons. E recicláveis

 

 

 

Aqui na Chapada do Araripe, ja espocando a cilibina, velho Glauco, medito, reflito: Nossos planos são tão bons que nem merecem ser executados.

Cronicamente repetitivo vos digo, como a cada fim de ano: nossos planos são muito bons, como na canção dos Doces Bárbaros, nossos planos são recicláveis, como os de mil novecentos e antigamente...

Nossos planos são os mesmos que se arrastam desde século seculorum, nossos planos são tão conhecidos, tão íntimos, eles nos acompanham há tanto tempo que viraram nossos amantes, nossos melhores amigos.

Nossos planos renascem a cada fim de ano como os nossos melhores cúmplices.

Nossos planos sabem que se os realizássemos à risca a vida perderia a graça, seríamos perfeitos demais, estávamos todos magérrimos, malhados, gozando a saúde dos deuses ou dos imortais da ABL, seríamos todos um bando de Davids Beckhans e Giseles.

Nossos planos são muito bons, mas sinto muito por eles, coitados, mais uma vez não serão cumpridos na íntegra no ano da graça de 2012.

Cumpriremos, no máximo, os 10% da humaníssima cota do possível, os 10% do garçom, justa medida.

Nossos planos são muito bons e nunca foram atrapalhados por crise alguma. O que nossos planos enfrentam para valer é uma invencível guerra interna nos fracos juízos repletos de defeitos de fábrica.

Nossos planos são muito bons, mas, como sempre, ainda temos o benefício da dúvida, ainda temos a complacência e, se, por acaso, faltar alguma conversa fiada no estoque, botamos a culpa nos outros –nosso inferno mais próximo.

Nossos planos mal devoraram a ceia do Natal, nossos planos famintos, nossos planos eivados pela fome histórica de todos os semi-áridos e Jequitinhonhas, e lá estão nossos planos a dormir a mais preguiçosa das siestas espanholas.

Nossos planos estão dengosos, como nunca, para o ano novo, nossos planos querem colo, nossos planos odeiam uma academia de ginástica, um cooper às cinco da matina, uma dieta saudável...

Nossos planos não têm medo do colesterol e muito menos da gordura trans, nossos planos adoram uma costelinha de porco, como aquela que Maria fez ainda no Paraíso, costelinha com cerveja preta.

Ah, nossos planos lamberam os beiços, mesmo não sabendo o que seríamos de nós dali a duas voltas do sol no eixo da existência.

Nossos planos não se desgastam à toa, não vivem de estresse, não andam de automóvel na cidade de SP, nossos planos são eternos pedestres e adoram uma rede depois do almoço.

Nossos planos são do interior do mato e ruminam um capinzinho entre os dentes manchados pelo cigarro brabo do tempo.

Nossos planos se espreguiçam, estralando todas as juntas e costelas, quando ouvem falar outra vez de novos planos.

Escrito por Xico Sá às 11h06

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As 10 + para fazer amor ainda em 2011

Só no dois pra lá, dois pra cá. Não faça sexo, faça amor. Très romantic nos posts crepusculares deste 2011, o blog compatilha uma lista das melhores músicas para cama, mesa e banho.

Quem nos manda é o colaborador Marcelo Mendez, cronista do Pastilhas Coloridas e do cineblog Bandidos do Cine Xangai, autor de outras nobres listas aqui desta bodega de secos & molhados.

Na praia, à modinha Cicarelli, ou na alcova, à moda do marquês de Sade, acabe o ano com amor. E não o contrário. Escute:

Barry White - Love Making Music – Aí é covardia! Barry White e sua voz de trovão aveludado é infalível. O Homem é capaz de fazer qualquer pacata senhoura tirar a roupa, apenas com um “Bom Dia”!

Al Green - Love and Happiness – Do Green, escolher uma musica para a hora santa é pouco. Daria pra sacar umas 150 pelo menos! Elegemos esta por ser de um suingue, de um sacolejo malemolente, daqueles que tornam o ensejo da coisa toda algo que deveria durar pelo menos uns dois meses.

Serge Gainsbourg - Je T'aime Moi Non Plus – Se tocar esta canção em um cabaré de Petrolina ou em uma tenda no meio da Jordânia... os gemidinhos de Jane Birkin ao som do órgão meloso de Gainsbourg deixarão bem claro a intenção da cousa toda.

Isaac Hayes - By The Time I Get To Phoenix – Essa é do lendário HOT BUTTERED SOUL. A famosa faixa dos 19 minutos. Com 19 minutos, uma boa dama e um pouco de imaginação faz-se a festa da vida eterna.

Duke & TraneI'm Sentimental Mood – Duke Ellington e John Coltrane se juntaram para fazer um disco em 1963. Histórico. A faixa marca um momento em que homem e mulher se encontram e o mundo pára! Só isso.

SadeSmooth Operator – Ao som da musa nigeriana o caboclo já começa a pensar na dama dançando, tirando safadamente a alça da blusinha, mexendo mirabolicamente a anca, num sacolejo de fazer Aiatolá Khomeine corar a barba!

Aretha FranklinDrinking Again – Chique! A Aretha pedindo por mais um drink, para que anoite não acabe, para que o amor não acabe...

Ibrahin Ferrer - Aquellos Ojos Verdes – E como a gente vai falar de classe sem lembrar de Ibrahin Ferrer? A Voz de Cuba cantou lindamente boleros lendários, com uma elegancia de fazer inveja a um Yves Saint Laurent.

Tim Maia - Nobody Can Live Forever – Big Boss! Aqui conosco ele não é “sindico”, só pode ser de Presidente pra cima. Fica aí uma canção de um momento peculiar. Em 1976, depois de tomar um cambau dos safados da seita Racional, Tim perdeu grana, trampo e a mulher. E em uma tentativa de reconquistar a nega, grava uma balada daquelas...

Willie Dixon - Back door man – Mestre. Agora ele chega com este sussurro que diz tudo: “Mulher, se prepara que sou o homem atrás da sua porta, vai ver estrelas!”

E você, amigo(a), o que gira na sua vitrola que faz revirar a sua cabeça na cama?

Escrito por Xico Sá às 11h51

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PERFIL

Xico Sá Xico Sá, 48, escritor e jornalista, colunista da Folha, é autor de “Chabadabadá – As Aventuras do Macho Perdido e da Fêmea que se Acha” e + 10 livros. Na TV, participa dos programas “Cartão Verde” (Cultura) e “Saia Justa” (GNT).


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