Xico Sá

Modos de macho, modinhas de fêmea & outros chabadabadás

 

Moby Dick e o Santos nos mares do Japão

A pedidos, a coluna de hoje na Folha:

Amigo torcedor, amigo secador, a beleza aguda e precisa qual peixeira de baiano vai vencer o tédio dos incansáveis posseiros da bola no planeta. Bordadeiras da Baixada Santista, preparem-se para desenhar a terceira estrela na imaculada camisa branca.

A baleia vai triunfar nos mares gelados do Japão com mais ganas e teimosia que Moby Dick. Confio nos nossos defeitos como primordiais na peleja contra a suposta perfeição do Barça. O mundo não é da virtuose. Nunca. A vida é Durval e sua cara de Corisco, o destemido caubói paraibano de Cruz do Espírito Santo.

A virtuose é entediante. Case com uma mulher muito linda e saberá o que digo. O time catalão tocando a bola dá sono. Parece a vida eterna. Quanta repetição, meu Deus, e o prezado locutor todo orgulhoso das estatísticas. Saco. 

A menor distância entre dois pontos não é a linha reta e euclidiana de Cristiano Ronaldo. Nem tampouco a curva de Einstein e Messi, como diz o amigo Manuel Vicent, cronista do “El País”. A menor distância entre o Zé Menino e o mundo, caro Vicent, é o improviso de Neymar Jr, como verás no domingo.

O nó do cafuçu mestiço na retidão da existência e da física. A faísca da foice na pedra de amolar da roça, sempre mais veloz que a luz de estar vivo. Un toque e me voy, como dizia o venturoso Emílio Brutagueño.

Confio no Muricy, mas a preleção para a decisão teria que ser do Serginho Chulapa, com quem estive ontem, para a minha sorte e recreio d´alma. Ele diria, certamente: “Quem tiver com medo desses branquelos donos da bola que pegue o trem-bala, hoje precisamos de homens.”

Somos mais camisa, Santos, somos mais história, o Barcelona é uma invenção holandesa recente. Uma bela invenção, sejamos justos, mas uma invenção confortável, planejada, sem o free style da perifa.

Por Mano Brown, Peixe, traga esse título, por Baleiro e todos os amigos fuleiros e lindamente anônimos. Agora, perdão, vou apelar: por Sócrates, que era Santos desde criancinha, vamos botar essa faixa.

 Mas se não der, relaxa, óbvio que a Libertadores da América é mais dura e mais importante que esse torneiozinho natalino, por supuesto.

Agora quem dá bola é o Santos, mesmo diante do maior favorito de todos os tempos. Corvo Edgar que o diga, desde já no ombro do terno de grife do Pepe Guardiola. Porque a vida é jaleco, a vida é mais a cara do Muricy Ramalho, a vida é zona norte, a vida é pança e uma cerveja na esquina.

Escrito por Xico Sá às 21h31

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Johnnie Walker X João Andante e McDonald´s X McBode

Pô, amigo Johnnie Walker, deixa o mineirinho João Andante em paz. Para com isso, retira esse processo do instituto de marcas e patentes.

Vai por mim, sinta-se homenageado, velho Johnnie, jamais copiado.

Como um lorde inglês de US$ 3,5 bilhões sente-se inseguro diante de um pobre capiau de 200 garrafas de pingas mensais?

Deixa disso, stop, Mr. Johnnie, deixa o Jeca no caminho da roça, meu rapaz, ele também é filho de Deus.

Salve a Rainha, velho Johnnie, e segue o seu milionário percurso.

Você está me saindo, lorde Johnnie, qual a cúpula do McDonald´s.

Outro dia, no Recife, testemunhei o humilhante fim do McBode.

Por ação judicial dos gringos, o bar foi obrigado a trocar o nome.

Para ironizar a ridícula situação, o dono rebatizou “Deu Bode”.

Lá se come o melhor hambúrguer caprino do mundo.

Aqui em SP, o McFavela, em Heliópolis, também foi vítima.

Continua vendendo o clássico e turbinado MacLarica, mas agora se chama Minha Favela Lanches.

Quebra essa, velho Johnnie Walker, te peço em nome de tantas quedas já nos deste, em nome de tantas paraguaias manhãs de ressaca.

Deixa o Joãozinho mineiro andar em paz!

Escrito por Xico Sá às 13h36

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Sim, existe amor nos orelhões de SP

  

 

Que classificados que nada. O pecado, em todas as suas formas, cores e tamanhos está nos orelhões.

Já viram? Como viram se ninguem liga mais de telefone da rua! Como viram se preferem morrer com muita grana no celula!

Como viram se esquecem do amor de Macabéa caindo a ficha!

“Aline, 18, comigo a palavra proibido foi riscada do meu caderninho logo cedo...”  “Fabianne, mulata, rostinho perfeito, dengo, faço tudo,  indecepcionável...”

Indecepcionável mesmo, seu Pasquale, sem “sic” na linguagem do prazer. São as Guimaraes Rosas do sexo pago. Elas ocupam, com etiquetas-anúncios, todos os orelhões da cidade de SP.

Nos jornais, o tijolinho sai caro, precisam deixar tudo muito cifrado: “Bia, fç td bb perf c/ bj an/or”.

Tradução: Faço tudo, bumbum perfeito, com beijo, anal e oral. Virou uma novilíngua medonha.

Nos orelhões, o espaço é de graça, democrático. Alcança também aqueles clientes que não compram jornal, pois preferem viver com as suas próprias invenções e mentiras.

 “Sullen, bumbum empinadinho, recém chegada a SP, para você esquecer até o desemprego”, essa etiqueta, pregada em um telefone nos arredores do Copan, na Ipiranga, tenta pegar os desesperados sob o sol da segunda-feira –o dia em que o Centro ferve as dores dos encostados, dos perdidos e dos considerados obsoletos.

Suellen e a maioria delas cobram só R$ 10. “Pode gozar duas vezes”, assim terminam muitos anúncios de orelhões, generosidade para o exército de reserva.

É louco, mas o desemprego empurra o homem para masturbação permanente e para a busca louca por sexo. Tudo culpa do capitalismo!!!

O beijo é outra novidade histórica. Tanto nos jornais como nos orelhões, as raparigas passaram a vender o mimo como um atrativo indispensável.

Historicamente, sempre odiaram esse carinho, mesmo que feito de maneira artificial. De certa forma é uma volta à Idade Média, quando, por causa do alto índice de proliferação de doenças, só elas se permitiam, sob a garantia de algumas patacas, ao boca-a-boca.

“Anny, coroa fogosa para quem sabe dar valor...” “Adri, porque a vida não é compromisso, a vida é prazer...” “Andrea, bumbum doirado para tardes calientes, toda tua...”

“Bianca, boneca, para quem acha que sexo é sonho sem preconceito”. “Karen & Lucy, mãe e filha, comprove com documentos”. “Dupla, pça. República, 100% loira e 100% negra...”

“Demorô, rapaz! ``, disse eu para o pombo velho, cinza e triste que cruzou o meu caminho ali no Arouche. E segui para o local do último anúncio.

Como eu tinha revisto a “Doce Vida” e acho que todas elas merecem a última gota da minha Veuve Clicloq -mesmo que eu me desmanche em letras, bicos e frilas-, adquiri uma garrafa da viúva ali numa travessa da Vieira de Carvalho e segui aceleradamente.

O dia estava tão lindo que a fonte da República virou a Fontanna de Trevi, onde joguei meus últimos cobres... Eu me sentia o próprio Moravia -comunista, safado e elegante.

Subi. Lindas. Um cheiro de Koleston danado na quitinete, acho que a loira tinha acabado de pintar os cabelos para atender ao apelo colado no orelhão. Humano, falsamente humano.

Lindas. Botamos a champanhe para gelar. A negra pintava as unhas, uma graça, e vestia uma calcinha amarela bem-comportada.

Adoraram a minha falta de pressa, diferentes das meninas do ramo, quase sempre tão neoliberais quanto qualquer taxista ou qualquer resfolegante sanguessuga da Fiesp.

Até que a champanhe gelou... Ah, podemos não viver a bela vida, mas a imitamos como nunca. Em uma cobertura ou numa quitinete. Ô diabo de vida breve!

Escrito por Xico Sá às 15h29

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Chega de D.R.! Só o silêncio salva o amor

 

 

Os corpos até se entendem, as almas nem sempre.

A D.R., a mitológica Discussão de Relação, tem tudo para dar errado.

A gente sabe disso, mas é melhor quando a ciência chancela a parada. Foi o que acabou de fazer o seríisimo linguista americano John Locke.

O cara lançou nos EUA  “Duels and Duets”, ainda sem tradução no BR. É isso aí. Duelos e duetos.  

A colega Juliana Vines resumiu a obra aqui na Folha.com: o livro diz que homens e mulheres se expressam de formas bem diferentes: eles duelam, disputando poder, e elas falam como se estivessem fazendo duetos, compartilhando informações.

A pesquisa sobre o desentendimento me fez lembrar de um casal que vive há 20 anos, na mais perfeita harmonia, sem trocar uma palavra, como registrei em uma crônica recente.

Vinte anos, amigo, sem um monossílabo, nem um pantim, nem um grunhido, nem um muxoxo, nem um arrulho, apenas o silêncio a lastrear o lindo amor dos pombinhos.

Talvez seja a fórmula do sucesso, o Santo Graal dos relacionamentos, a chave do mistério.

Assim vivem João e Maria –nomes falsos, óbvio, para preservá-los, pois moram em um lugar onde habitam menos de mil pessoas, na chapada do Araripe, Santana do Cariri (CE).

João e Maria, meia dúzia de filhos, estão na faixa dos 65 de idade e deixaram de se falar por besteira e capricho.

Certo dia, João a procurou, com teimosia e macheza, e Maria recusou-se a fazer os gostos sexuais do marido. Não estava a fim, pronto, queria ficar na dela.

O cabra voltou a insistir por mais cinco vezes nas semanas seguintes. A católica Maria, cansada de guerras e gravidezes, manteve-se na resistência.

Com o orgulho de macho ferido, ele fechou a cara. Em pouquíssimo tempo descobriram o bem que fazia aquele silêncio, passaram a conviver sem discussões ou arengas, estavam a dois passos do paraíso na terra.

Com a economia de palavras, não inventam conflitos, não brigam por miudezas, não ferem e não são feridos com o mal que sai da boca do homem.

Meu primo Zé Humberto, que visita aquele lar doce lar semanalmente para a venda de carne em domicílio, assegura: não há casal mais feliz nas redondezas.

Até mesmo quando estão em dúvida se compram um talho de contrafilé ou de costela, por exemplo, eles tocam de ouvido. Num simples olhar, resolvem.

Dias desses, Humberto flagrou João morrendo de saudade. Maria estava passeando em São Paulo. Ele morria por dentro de tanta falta.

De gozação e chiste, meu primo sugeriu um telefonema, pelo menos umas duas, três unidades de crédito no orelhão da esquina. O marido saudoso até se benzeu para evitar a tentação da proposta. 

João aprecia mesmo, na mirada certeira dos seus olhos semi-áridos, é olhar a sua mulher sem que ela perceba. Admirá-la dormindo, por exemplo, a extrema beleza da calada da noite.

Fica horas neste exercício, relembrando o tempo em que estragavam o amor com palavras como tapuru –bicho-da-fruta- bota a perder as melhores goiabas.

Escrito por Xico Sá às 18h18

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Centenário de Gonzagão, maior artista brasileiro

Começa agora, dia de Santa Luzia, a protetora dos olhos, o ano da celebração do centenário de Luiz Gonzaga (*1912+89), o homem que cantou a cegueira-blues do assum preto.

Hoje o pernambucano do Exu completaria 99 anos.

Talvez seja o maior artista brasileiro de todas as artes. Será? Creio que seja. Mas é besteira essa coisa de medir grandezas do gênero.

Foi grande. E pronto.

O homem praticamente inventou a ideia que se tem hoje de Nordeste. Tanto para os nordestinos quanto para os sudestinos.

Inventou o artista quase completo. O cara que pensa do figurino à formação sanfona, zabumba, triângulo -como o rock´n´roll vingou com o seu clássico guitarra, baixo e bateria.

Nesse aspecto, Chico Science lembrava muito Gonzaga. Era ligado na simbologia do traje e na possibilidade de reinventar um Nordeste moderno, donde criou o mangue bit.

Com o cearense Humberto Teixeira, Luiz fez o baião. A história da parceria pode ser vista no filme “O Homem que engarrafava nuvens”, de Lírio Ferreira, um documentário musical e tanto.

Uma grande sabedoria de Gonzagão era escolher parceiros: os Zés –Dantas e Marcolino-, Patativa do Assaré, Dominguinhos... Só o filé da carne de sol no varal da memória.

Chapei desde a primeira vez que ouvi a voz do homem. Inesquecível: “Assum Preto”. Aquela história triste, sertão do algodão-blues, que não sai nunca mais da cabeça.

Rádio Araripe do Crato. Tocava uma de Gonzaga e uma dos Beatles, sequência bem comum nos anos 70 –meu Cariri sempre na vanguarda!

Por razão afetiva, talvez, continuo achando “Assum Preto” a mais bonita das músicas do repertório do gênio. Bate "Asa Branca", mas aí é a tal questão de gosto, que aqui no blog discutimos demoradamente, com cerveja ou aguardente.

Outra de lascar de dor é "A triste partida", de Patativa do Assaré: "Nós vamos a São Paulo que a coisa tá feia..."

Das divertidas fico com "Dezessete e setecentos" e "Siri jogando bola".

No capítulo das safadezas, escolho "Karolina com K", "Cintura Fina" e "Xanduzinha".

De amor com boniteza: "Sabiá" e "Légua Tirana".

E por ai seguimos... E você amigo(a), quais as suas preferidas?

Escrito por Xico Sá às 02h23

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Consultório sentimental: L.,19 anos, desistiu de amar

Entre as centenas de cartas de amor desesperado que chegaram ao nosso consultório sentimental, Madame Corações Solitários escolheu a menos esperançosa para uma tentativa de aconselhamento. Se é que é possível.

LucydaDepressão, como a remetente se denomina, já diz tudo na sua sincera assinatura. Ela tem apenas 19 anos, 19 primaveras, amigos, e não acredita mais no amor.

Como pode?

“Não sou do tipo que abre o coração, pois todas as vezes que tive a infelicidade de fazer isso, alguém colocou um alfinete nele”, conta Lucy no seu inferno particularíssimo.

“Na verdade, isso aconteceu duas vezes nos meus dezenove anos de vida. Porém, pareço ter 70 de amargura. Não acredito no amor. Não acredito em palavras bonitas”, prossegue com o seu infortúnio precoce.

Deixemos falar mais a voz profunda e anti-lírica do coração da moça:

“Acho beijos públicos nojentos. Acho flores ridículas. Poemas, bom, poemas só se for de dor”, confessa a nossa alma irmã da Florbela Espanca.

Lucy traduz o seu sofrimento até na roupa que veste:

“Eu me visto como uma crente, sempre ando pelos cantos, cabeça baixa e pensando no impossível! Penso em alguém que nem existe!”

Lucy, em mais um rasgo de sinceridade que faz lacrimejar o cronista e a Madame Miss Corações Solitários, escreve:

“Acho tudo lindo nos outros, exceto em mim. Não consigo ver o amor em mim. Não consigo ver sentido. Não consigo ter um olhar apaixonado. Sabe qual a razão, madame? Tenho medo.”

Aí está a razão de tudo, querida consulente. O medo. Com medo, parodiando o tio Nelson, não se atravessa uma rua, não se chupa um sorvete.

Aos 19 anos não se deve temer nada que é terreno, Lucy. Amor é risco. Sempre foi e sempre será um salto no escuro.

“Te juega, rapariga em fulô”, dita aqui a Madame, no seu portunhol selvagem que mistura a sua Sevilha de nascença com a beira do Capibaribe onde hoje habita.

Com medo não se encara um olhar de um mancebo, com medo não se põe o pé na rua, não se conhece a verdadeira tempestade.

E outra, sofrida e jovem criatura, não existe amor sem beijo público.

Não existe amor sem testemunhas. O amor está condicionado à vista alheia. Por que os amantes clandestinos sofrem tanto? Ora, porque não podem tornar público o amor que deveras sentem.

Lucy, por mais que tenhas te decepcionado com alguém, não há como desistir das coisas do coração no auge dos 19 aninhos.

Tua vida, ao contrário do teu prognóstico, não terminará como a da protagonista do livro “Um dia”, do David Nicholls.

Quer perder essa paúra amorosa, meu coraçãozinho aflito?

Começa por amar irresponsavelmente, sem medo de ferir ou ser ferida, como se fosse apenas um treino, um ensaio para um amor de verdade.

É aquela velha historia, amiga, amar é como andar de bicicleta: só se aprende ralando os joelhos.

Sorte, cariño, da sua Madame ou Miss Corações Solitários.

Escreva você também para o nosso consultório!

Escrito por Xico Sá às 09h13

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PERFIL

Xico Sá Xico Sá, 48, escritor e jornalista, colunista da Folha, é autor de “Chabadabadá – As Aventuras do Macho Perdido e da Fêmea que se Acha” e + 10 livros. Na TV, participa dos programas “Cartão Verde” (Cultura) e “Saia Justa” (GNT).


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