Xico Sá

Modos de macho, modinhas de fêmea & outros chabadabadás

 

Pelos direitos das amantes, amásias e concubinas

ilustração Benício

Ilustração Benício

 

Reparo aqui no noticiário desta Folha.com que o  Tribunal de Justiça de Santa Catarina decidiu que a pensão de um funcionário público deverá ser dividida entre duas amantes dele.

Sabendo da morte da viúva, as duas amantes entraram com ações na Justiça para reivindicar a suas partes. Justíssimo.

Não combinaram nada. Cada uma entrou isoladamente com a sua causa. O TJ acaba de determinar que a grana, no valor de 15 mil, seja dividida entre as belas afilhadas de Balzac que tanto amaram o mesmo Sr. neste quadrilátero amoroso.

 Os homens da toga preta de Santa Catarina mantiveram segredo sobre o nome dos personagens deste folhetim com tintas rodrigueanas.

O caso, no entanto, abre agora um precedente para que todas as amantes fixas busquem os seus direitos nas pensões. Afinal de contas, a não ser a clandestinidade amorosa, nada as difere das legítimas esposas.

Lembro que há cinco anos, na Bahia, uma mulher que viveu durante 25 anos com ex-militar, mesmo sabendo que ele era casado, ganhou na Justiça Federal o direito de receber parte da pensão do INSS concedida após a morte do companheiro.

Neste episódio, os juízes estabeleceram que a mulher do casamento oficial receberia 70% e a concubina, este ofício amoroso clássico, ficaria com 30%.

Independentemente do percentual, o interessante, e ainda raro, é o ato da Justiça, tardia como sempre, reconhecer o dito amor clandestino para efeito de herança das aposentadorias.

É um certo status de legalidade para “a outra”, uma entidade sempre tão comum às famílias conservadoras como os filhos, o papagaio, o cachorro e a missa de domingo.

Ser a “outra” é sempre uma missão dificílima. Nada mais legítimo do que estes pequenos reparos de justiça tardia.

Parabéns às duas amantes do quadrilátero catarinense pela conquista. Ao disposto senhor defunto, o funcionário público que partiu desta para tediosas repartições da vida eterna, ficam também as nossas sinceras homenagens.

Escrito por Xico Sá às 23h41

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Dica de leitura para ministros da Dilma

Em tempos de ministros com graves problemas no hipocampo, aquele pedaço ali do cocuruto que age na memória, este blog, em um exercício aplicado de moral e bons costumes, deixa a dica para as autoridades:

Sim, excelências, mirem-se no exemplo do ex-prefeito de Palmeiras dos Índios Graciliano Ramos (1929-30).

Neste município alagoano, o autor de “Vidas Secas” (aí acima no traço do Fortuna)  foi tão zeloso com o cacau público quanto era com a sua escrita.

Um furto, por menor que fosse, era tão ofensivo para o velho Graça quanto um gerúndio ou um adjetivo frouxo no seu texto movido a olho seco.

O alagoano, comunista perseguido e levado ao cárcere pela ditatura getulista, deixou, nos seus ``Relatórios´´, um código de ética que ajudaria bastante aos ilustríssimos senhores da Esplanada dos Ministérios.

A seguir, pequenas mostras de prestações de conta do prefeito Graciliano ao governador Álvaro Paes:

GRATIFICAÇÕES - 1:560$000. Estão reduzidas.

ILUMINAÇÃO - A Prefeitura foi intrujada quando, em 1920, aqui se firmou um contrato para o fornecimento de luz. Apesar de ser o negócio referente à claridade, julgo que assinaram aquilo às escuras. É um bluff. Pagamos até a luz que a lua nos dá.

CEMITÉRIO - No cemitério enterrei 189$000 - pagamento ao coveiro e conservação.

ESTRADAS - Procurei sempre os caminhos mais curtos. Nas estradas que se abriram só há curvas onde as retas foram inteiramente impossíveis.

Os relatórios do escritor-prefeito são uma obra-prima de gestão pública. Sem se falar no estilo, óbvio, outra aula de correção.

Em livro, as prestações de contas foram  publicadas  em 1994, graças a uma co-edição da Fundação de Cultura Cidade do Recife com a ed. Record. O exemplar foi organizado por Mário Hélio, com prefácios de José Paulo Cavalcanti Filho e Joel Silveira.

Deveria ser adotado em todas as repartições públicas deste Patropi Patropizza.  

Escrito por Xico Sá às 22h33

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O crime e castigo de morar sozinho

 

 

Você está entre os quase 7 milhões de criaturas que moram sozinhas em alguma grande cidade do Brasil?

Na frieza do recente relatório do IBGE –mais frio que a solidão do chicabon do tio Nelson-, a coisa pode ficar menos dolorosa: somos apenas habitantes de unidades domésticas unipessoais, UDU´s.

Chique no último, não?

“E, aí, na minha ou na sua unidade doméstica unipessoal?”, perguntaria o conquistador politicamente correto.

Somos quase 7 milhões de solitários.

O contingente subiu, nos últimos dez anos, 8,6% para 12,1%.

Reparo nas estatísticas e me sobe logo ao nariz o cheiro do miojo do desprezo.

Mas isso não significa, amigo(a), obrigatoriamente o que sugerem os números.

Significa também independência.  Principalmente daquele povo que vive, qual um Dr. Smith no velho seriado futurista, reivindicando o seu “espaço”.

Diz muito também da solidão da velhice. O ex país do futuro está virando uma pátria de bengalas.

Diz muita coisa. Conheço centenas de pessoas que não trocariam as suas confortáveis  UDU´s por acasalamento algum.

Tem todo um luxo e é sonho de muita gente morar solitariamente.

Tem tudo isso, é bom, é ruim, como tudo na vida.

É bom ter sua liberdade, inclusive para curtir as mais inerciais das ressacas. É, meu velho, depois dos 40 a ressaca não é mais apenas uma consequência natural da farra. Depois dos 40 a ressaca é uma dengue existencialista.

É ruim naquele momento de coçar as costas, como testemunhei, da minha janela indiscreta, uma linda afilhada de Balzac em apuros aqui nas cercanias da Paulista.

Quando li a glacial estatística, um poema esquentou no cocoruto, aquele do Drummond, que diz assim:

“Nesta cidade do Rio, /de dois milhões de habitantes/, estou sozinho no quarto, /estou sozinho na América.”

Era um Rio ainda dos anos 1940.  Quase não havia ninguém nas unidades domésticas unipessoais. Era muito mais assombroso.

Agora o Rio tem uns 15% dos seus moradores na solidão do próprio eco. Incluindo, óbvio, o luxuoso e leblonístico sr. João Gilberto,

O Rio só perde para Porto Alegre, com mais de 20% de tri-solitários.

Aqui, na solidão paulistana me despeço. E você, meu rapaz, e você ai amiga independente, o que há de bom e o que há de ruim em morar sozinho?

Escrito por Xico Sá às 20h54

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O feriadão e a arte do passeio com a pessoa amada

  

 

(Ou breve etiqueta da alma encantadora das ruas, como sopra aqui o João do Rio, meu cronista-guia nesse esporte fino).

E feriado, então, pelo amor de Diós, levanta-te Lázaro, deixa de preguiça sentimental, é hora de flanar com a cria da tua costela.

Vamos nessa.

Levo minha pequena na calçada, pelo lado de dentro, o da parede, que é o lugar da moça no passeio público, que é o lugar que diz o status do enlace para o mais lesado dos transeuntes.

Do lado de fora, a bonequinha na beira do asfalto, representa amizade.

Ela do lado de dentro, como na coreografia dos meus passos de Fred Astaire do Crato, indica romance, namoro, amor de muito, amancebo social clube.

Levo ao cine, ao concerto de rock, à festa Original Olinda Style com o novo disco da Eddie,  à tapioca da Sé, às quiches -com alface americana-  do bistrô mais próximo, aos drinques coloridos  ou à extravagância bistecossáurica do Sujinho da Consolação com Mathias Aires.

Levo às ostras com champanhe, no circuito recifense do Califórnia, Pina Dreams, mesmo com a conta bancária em vermelho -porque com a minha pequena mesmo quando não posso eu estou sempre podendo.

Recomendo também que leves a pequena para comprar vestidos e roupas de veraneio, pense no prazer de ouvir  aquele barulhinho da cortina dos provadores, e ela, flamejante, colorida, só estalando o elástico dos novos biquínis.

Levo porque levar é o verbo da hora, a  grande função do bicho macho contemporâneo nesses tempos de frouxidões e covardias no atacado e no varejo, no prêt-à-porter, na alta costura  ou na feira da sulanca.

Levo de avião ou de busão, mas sempre mantendo a classe, levo, porque o o resgate do cavalheiro roots está no levar a dama na riqueza ou no pé-sujo, na cachaça ou na campanhota, no free jazz ou no bolero, levar a moça, inclusive, para conhecer as nossas contradições, talvez a maior fortuna crítica de um homem.

Levar e não esquecer dos degraus, dos altos e baixos da cidade, das calçadas de SP que conspiram contra o passeio de mãos dadas e contra os inocentes anjos bêbados.

Levar e ampará-la nas alamedas e avenidas, a mão segura e firme como prova inconteste do amor que sobra em todos os nossos membros... superiores e  inferiores.

Levo ao parque, ao picnic, você bonita como aquela moça da blusa quadriculada do filme Blow-up.

Ser homem de verdade pressupõe a conjugação do verbo levar como oração de todas as manhãs.

Escrito por Xico Sá às 22h45

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As 11 razões de Bia Abramo para amar o futebol

Em campo, ela joga o fino, à moda Sócrates, seu ídolo -aí bem na foto com a Rita Lee, o Vladimir e o Casagrande, campanha das Diretas Já, ano da graça de 1984.

Claro, em algumas jornadas, o requinte vai para as cucuias e ela resolve a parada no melhor estilo Geraldão mesmo.

 Geraldão, o místico e estiloso macumbeiro do ataque corintiano, lembra?

 No rock´n´roll do teclado, ela fez e faz história. É um dos maiores nomes do jornalismo -não só cultural- de todos os tempos.

 Bia Abramo, corintianíssima, diz agora para este homem que ama as mulheres e o ludopédio (nessa ordem!) as 11 razões pelas quais ama o futebol. Gravando:

 1. Por que é uma paixão irracional. Você vira torcedor de um time por que sim. Pega por osmose. No meu caso, foi assim que me veio o corintianismo. Coisa de família.

 2. Por que eu tinha 6 anos e pouco em 1970. E não podia torcer pela Seleção (família de intelectual de esquerda blablabla, tá tudo no excelente “Carro Zero e Pau de Arara”, Luiz Weiss e Maria Hermínia Tavares, in História da Vida Privada, Companhia das Letras). Mas, mesmo assim, no dia do 4 x1, diante da TV, não deu.

 3. Por que eu não gostava (muito) de boneca.

 4. Por que, quando eu tinha 14 anos e era a manhã do dia 14 de outubro de 1977, no caminho para pegar o ônibus para a escola, vi portas de ferro do comércio da Lapa cobertas de pichações e, daí, minha paixão irracional da infância fez meu coração corintiano transbordar de amor.

 5. Por que, no longo e tortuoso processo de redemocratização, faixas pintadas com os slogans “Pelas liberdades democráticas” e “Abaixo a ditadura”, num gesto duplo de coragem e gaiatice, apareciam no meio da nação, sob a bênção da democracia corintiana.

 6. Por que, em 1982, aos 19 anos assisti a derrota dos melhores, dos mais ousados, dos mais elegantes, dos mais poéticos. Foi duro, mas foi belo e entender a beleza é uma das poucas coisas que valem a pena nessa porca da vida.

 7. Por que, 20 anos mais tarde, numa manhã de domingo, meu bebê na barriga, realizamos aquilo que do maio de 1968. Realistas, pedimos o impossível e veio o penta.

 8. Por que, para o futebol e pelo futebol, Jorge Ben compôs “Fio Maravilha”, “Umabaraúma” e “Arrepia Zagueiro”.

 9. Por que, com meu filho, um boleiro palmeirense, aprendi a amar o Marcos, goleiro, e tolerar o amor ao inimigo.

 10. Por que, no Museu do Futebol, a instalação da Daniela Thomas faz a arte do futebol arte tornar-se arte, sem mais.

 11. Por que a alegria tem muitos nomes: Didi, Vavá, Pelé, Garrincha, Nilton Santos, Ademir da Guia, Jairzinho, Zico, Sócrates, Falcão, Ronaldo, Ronaldinho, Rivelino, Gérson, Romário, Bebeto, Marcos, Gilmar, Neymar. E Maradona.

Escrito por Xico Sá às 19h22

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O Homem-Ocupação e a mulher de saco cheio

 

 

“Você ocupa tudo”, diz a moça ao seu namorado. “Me ocupar que é bom nada”.

Acompanho a lenta e lerda discussão de relação do jovem casal.

“Você só ama a causa. Seja qual for, não importa. Seu indie de passeata”, ela acusa. "Amar a humanidade é genérico e fácil, quero ver amar uma mulher de verdade".

Fila do cinema no feriadão, shopping Frei Caneca, SP, pré-estreia de “Os Amores Imaginários”.

“Não é bem assim, vê onde estamos, no cinema!”, diz o moço, estilo indie-sujinho-de-propósito-estiloso.

“Se eu eu não surto, nem isso. Você só quer saber de ocupar, vê a cara, está com a cabeça longe”, a menina segue com a sua, aparentemente, razoável queixa.

“Larguei tudo pra aproveitar o sábado contigo”, rebate o moço, cara de gente fina.

“Você tá aéreo, lesado, com a cabeça no Ocupa Sampa, você está para lá da ocupação de Wall Street”, a garota não perdoa, mata. “Você só falta gritar palavra de ordem quando a gente, ra-ra-men-te!, transa”.

“Não exagera, Gi”, ele a puxa para um beijinho terno, não muito sexy.

“Você ocupa reitoria, você enfrenta os brutamontes da PM, você põe a cara nas marchas”, ela prossegue. “Acho mó válido, viva la revolución, mas, porra, vê se me ama, vê se me come direito”.

“Você já me conheceu na luta, no churrasco da estação Higienópolis, não é justa agora essa queixa”, diz o namorado. “Aliás você é que anda muito alienada, acho que anda lendo o que escrevem esses babacas da imprensa burguesa”.

“Repara se sou aquela tua ex, a tucaninha de nariz arrebitado”, contra-ataca a garota. “Não tenho nada contra suas atividades, mas me ocupa também, Fê, é só isso que te peço”.

“De certa forma o vácuo deixado com a decepção com os petistas nos faz repensar a luta com uma pegada mais apartidária e anarquista”, ele ataca, como se num delírio.

“Hello, se liga, não estou falando, sua cabeça tá lá no Ocupa SP, lá no viaduto do Chá, em Wall Street, pra lá de Marrakech, na Primavera Árabe, no inferno”, ela desabafa.

E chora.

“Calma, amor, é TPM, não é?”, consola, da pior maneira, o cara.

“TPM da sua mãezinha, aquela comunista da Prada”, ela pega pesado.

“Os comunas italianos são os mais elegantes do mundo”, ele diz, com bom humor e charme.

Ela sorri: “Seu besta”.

“Minha ocupaçãozinha mais guapa”, ele diz antes de beijá-la.

"Hay que ocupar, pero sem perder o amorzinho gostoso jamais", ela também tira onda.

Faz escuro. Começa o filme. É sobre um triângulo amoroso obsessivo. Depois eu conto.

Escrito por Xico Sá às 02h07

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PERFIL

Xico Sá Xico Sá, 48, escritor e jornalista, colunista da Folha, é autor de “Chabadabadá – As Aventuras do Macho Perdido e da Fêmea que se Acha” e + 10 livros. Na TV, participa dos programas “Cartão Verde” (Cultura) e “Saia Justa” (GNT).


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