Xico Sá

Modos de macho, modinhas de fêmea & outros chabadabadás

 

Não existe GPS para o amor em SP

 

Nem precisamos ir ao mar para ver o nosso amor morrer na praia naquele derradeiro feriadão do ano.

Nosso amor morreu na doutor Arnaldo, depois da sala de velórios, na frente das bancas de flores, rosas vermelhas que sustentam amores falidos, girassóis, gerânios, belos arranjos que fazem milagres e  livram os maridos culpados no engarrafamento.

Nosso amor morreu na correria para fugir de SP, babilônicos corações de fumaça a 10 km por hora, como os tílburis que conduziam os Bentinhos e Capitus no século XIX do outro lado da via Dutra.

Nosso amor tinha pressa, largou o automóvel e saiu caminhando, melancólico, entre motoboys e miragens, crepúsculo cubatanesco a escorrer do nariz, nosso amor era um boi na frente dos carros.

Nosso amor era um atropelo e a gente mal tinha tempo para fazer-lhe um dengo, um cafuné, uma cócega, um bilu-bilu, nosso amor era um tomagushi, um bichinho virtual criado e nascido como uma planta em uma janela do Minhocão em SP. 

Minutos antes, nosso amor foi visto saindo do Paraíso e saltando na Consolação, a linha do último metrô de todos os amores expressos.

Aí nosso amor, puto da vida, bebeu, cheirou cola, acendeu o cachimbo na Cracolândia, perdeu os óculos, fez besteira na rua Augusta e quando alcançou o vale do Anhangabaú já nadava na correnteza em cima de um sofá velho cujo estofado denunciava lágrimas e esperas de outros casais.

Nosso amor não conseguiu dormir direito nesse dia, zumbizou geral o malaco, perdeu-se como Esperanza, a linda boliviana de Cochabamba, Penélope que tece o interminável manto e nada espera nas fabriquetas de trabalho escravo do Bom Retiro.

Não existe GPS para o amor em SP, ele vai se perder de qualquer jeito.

Na Boca do Lixo, no varejão Ceasa das desavenças, no Beco do Batman -o pequeno labirinto na foto acima-, na São João com a Ipiranga, na eternidade leste da avenida Sapopemba ou na linha sul da Estrada das Lágrimas.

Escrito por Xico Sá às 14h13

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Charlize Theron e os 11 + elegantes do futebol

 

Vamos aproveitar o "Dia do Fico" do menino Neymar, data histórica para o futebol-arte deste PatroPizza, e falar de elegância.  

Fazer lista é fácil, difícil é sentir o drama das “injustiças” cometidas. E lista de apenas 11, Nossa Senhora do Ludopédio, é um martírio.

Marcelo Mendez, escriba do blog Canela de Ferro, montou recentemente o time dos maiores “bandidos” dentro e fora de campo.

Agora, também a pedidos, é a vez do cronista do Pastilhas Coloridas nos trazer os jogadores mais elegantes de todos os tempos:

Ademir Da Guia: A classe em pessoa. Um gentleman de chuteiras, um dândi. Primeiro violino da orquestra sinfônica do Palmeiras dos anos 60, homenageado por grandes como João Cabral de Melo Neto.

Ailton Lira: Camisa 8 com louvor do Santos do final dos anos 70, homem de lançamentos precisos e batida na bola com grande precisão. O mundo parava, quando Lira batia uma falta.

Nilton Santos: No timaço do Botafogo dos anos 50, Nilton se eternizou como “A Enciclopédia”. Foi tão chique que podia jogar futebol de smocking.

Pagão: Cerebral. Um camisa 9 que jogava bola com uma beleza retumbante. Pagão foi o melhor jogador de xadrez de chuteiras de todos os tempos!

Heleno de Freitas: “Nunca Houve Um Homem Como Heleno”, diz a sua biografia. Heleno foi impecável. Jogador fantastico em campo, assiduo frequentador da noite carioca dos anos 40, homem bonito, sempre bem trajado e bem acompanhado. Único. (Perdão, botafoguenses, mas o cara aparece aí acima jogando charme e milongas pelo Boca).

Zidane: Um lorde em campo. Zidane não pisava o mesmo chão dos reles mortais ludopédicos. Flutuava entre o meio campo e a sagração dos semi-deuses. Zidane é a elegância em si.

Mauro Ramos: No final dos anos 50, o São Paulo tinha um zagueiro com uma classe, uma classe, uma beleza, uma elegância tamanha, que ganhou dos torcedores a alcunha de “Marta Rocha”. Jogou bola da mesma forma que Proust escreveu livros.

Franz Beckenbauer: Além de criar uma posição em campo para jogar seu futebol, Beckenbauer era chamado por seus companheiros de “Kaiser”. Não precisa falar mais muita coisa pra justifica-lo aqui.

Didi: Nelson Rodrigues o eternizou em uma crônica como “O Principe Etiope”. Didi tinha nos pés a habilidade que Givanchi tinha nas mãos. Andava em campo com a altivez dos grandes, tocava na bola como se a mesma fosse a cintura da Charlize Theron.

Bauer: Grande camisa 5 do São Paulo, Bauer praticamente criou a função do volante moderno. Conhecido como “O Monstro do Maracanã”, após uma partidaça da copa de 50. Errava um passe de 8 em 8 meses.

Danilo Alvin: No grande Vasco dos anos 40 e 50, havia por lá um jogador que ficou conhecido como “O Principe”. Danilo Alvin foi um meio campo de fina estirpe e futebol imortal!

 

É, amigo, listar é o 13º trabalho de Hércules. Cadê o Falcão, o Sócrates e tantos outros impecáveis na estica em campo?

Listar, meus jovens, desde o livro "Alta Fidelidade", do Nick Hornby, se tornou o 13º trabalho de Hércules. O basco-paulista-nordestino Mendez fez a sua parte.

Chegou a hora de você fazer justiça com as próprias mãos e deixar aí nos comentários os seus prediletos. Confiro já os seus eleitos.

Escrito por Xico Sá às 00h05

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João Gilberto está mais resfriado do que o Sinatra

João Gilberto está resfriado.

João Gilberto está resfriado e o país da bossa nova, ó insensatez, só dá ouvidos ao possível divórcio de uma dupla sertaneja.

João Gilberto está sem voz e só cantaria, a contento, aquela do pato, Quém! Quém!

João Gilberto sem voz é mulata sem bunda, samba sem crioulo, Santos sem Neymar, botequim sem moela, bossa nova sem os joelhos da Nara, Vinícius sem o cachorro engarrafado na coleira...  

...Claudinho sem Buchecha, berraria o espírito de porco, lá do fundo do bar Jobi, boteco fino do Leblon, só para avacalhar de vez com a minha parodiazinha do texto que o Gay Talese escreveu sobre a gripe do Sinatra.

Só sei que João Gilberto está também com sinusite, assegurou o médico, mais grave ainda.

O pai da bossa estaria sentido pelo encalhe de ingressos para os seus concertos na turnê, com datas adiadas, dos 80 anos. Duvido que este homem somatize seus desafinados pulmões.

João Gilberto está sem voz e a juventude do rock só ouve o “indie-fofo” dos festivais, como bem disse o camarada André Barcinski, meu vizinho aqui de blog.

João Gilberto sem voz é Juazeiro, sua terra natal, sem a extraordinária maconha (dizem!) das ilhotas do rio São Francisco. Só o poeta Galvão (gênio de “Ovos Brasil” etc) me confirmaria a tal informação.  

João Gilberto está resfriado, sozinho com o seu gato cujo batismo é ótimo: “Gato”.

João Gilberto sem voz é quase o seu contrário, de tão barulhento que fica o seu silêncio, é quase um dublador profissional de Francisco Alves ou Vicente Celestino. Só que bem melhor.

João Gilberto está resfriado -só que bem mais e melhor que o Sinatra.

Escrito por Xico Sá às 03h22

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Baseado no patético final da invasão da USP

Fiz tanta invasão na reitoria da UFPE, nos anos 80, ainda no final da ditadura, que me declaro um especialista nesse tipo de protesto e desobediência.

As causas variavam. Da “grande luta” por liberdade e pelo fim do regime militar à falta do pão-com-ovo no no bandejão. Morador da CEU (Casa do Estudante Universitário) dependia 100% da xepa.

As invasões contavam com o apoio da maioria dos estudantes e com solidariedade de parte da população do Recife.

Não foi o caso, em nenhum sentido, da invasão da USP, que hoje chegou ao fim de forma patética e espetacular. O espetacular fica por conta do exagero da PM, que parecia treinar, aos olhos do patrono Duque de Caxias, para uma nova Guerra do Paraguay.

As prisões dos rapazes e das moças também foram para lá de abusivas, inócuas e desnecessárias.

Sim, uma invasão a um prédio público pode ser sim uma forma de luta estratégica por avanços para a educação ou para a reforma urbana, caso dos sem-tetos,  por exemplo.

Da forma que foi feita na USP beira a maluquice –mesmo considerando o anarquismo e a maluquice traços muitas vezes saudáveis da juventude, vide Maio de 1968 em Paris.

Não foi o caso de agora. Não havia sequer a histórica e necessária bandeira do anarquismo no movimento. Foi tudo feito com muita chatice e ressentimento infanto-juvenil.

Isolados, votos vencidos na assembleia que havia decidido pela desocupação de outro prédio do campus, o grupo parecia disposto a um ataque suicida e antipático à grande maioria.

Para quem não desejava meia dúzia de PMs na cidade universitária, acabou atraindo e dando justificativas legais para a entrada –fica o precedente!- da tropa de choque. Que imagem melancólica!

Estudantes, mirem-se no exemplo dos chilenos. Lá sim, estão fazendo a coisa certa. O ensino público e gratuito agradece.

Como me sopra aqui um amigo, o método do pequeno grupo universitário só serviu para atrasar, em uma década, a campanha pela descriminalização da maconha – um inocente baseado, lembre-se, deu início ao motim.

Calma, amigo, relax, repare na ironia da história: nada que FHC, político de origem uspiana e defensor explícito da "causa", não possa, de cara, reverter.

A luta continua, companheiro. Nesta quarta  à noite, no shopping Higienópolis, o ex-presidente autografará o DVD “Quebrando o Tabu", documentário de Fernando Grostein, no qual o tucano é personagem e depoe pela regulamentação da Cannabys.

Mas cuidado, moçada, é proibido fumar, inclusive durante o evento. Comportem-se.

PARA SABER MAIS: óbvio que a questão é mais complexa e não se limita ao baseado que acendeu a polêmica e foi devidamente tragado pelo cronista. Recomendo a leitura desse texto do blog da professora Raquel Rolnik. 

Escrito por Xico Sá às 17h23

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As viúvas de Gutenberg discutem a relação

 

As viúvas de Gutenberg de TPM promovem aquela D.R.I. -Discussão de Relação com Internautas.

Nada como um post atrás do outro para as viúvas de Gutenberg, categoria na qual me incluo com uma ponta de orgulho, aprenderem mais um bocadinho sobre a relação com os leitores das redes sociais e blogosfera.

Vez por outra a relação azeda mesmo.

Como vimos agora no episódio da doença do Lula. A corrente puxada, entre outros anônimos e célebres, pela Luana Piovani, bombou na velocidade da luz: Lula lá... no SUS.

Não faltou, entre as viúvas -incluindo este cronicamente inviável que vos fala-, quem não se manifestasse contra a legião que comemorava o diagnóstico do ex-presidente.

O horror, o horror!

Recorri ao tio Nelson Rodrigues, que nos socorre no perigo da hora, e sentei a pua decretando o fim da solidariedade no câncer.

Escrevo para site ou blog desde o princípio da internet no Brasil, ali por volta do medieval 1995. Este caso Lula, óbvio, não foi o meu primeiro susto e desconforto com parte dos leitores.

Antes do episódio, a maior D.R.I. que havia tido foi de safra 2007, quando critiquei a pancadaria e irresponsabilidade policial durante um show dos Racionais MC´s na praça da Sé, SP.

O texto saiu no finado site “NoMínimo”.

Durante esse tempo todo, aprendi duas ou três coisas, muito óbvias, porém fundamentais:

- O “jus esperneandi”, o famoso direito de espernear, é legítimo sob quaisquer circunstâncias. Mesmo que no esgoto. 

- O poder de contestação do leitor é imediato e sem intermediários. Foi-se o tempo em que o jornal recebia apenas aquelas demoradas missivas vindas de bravos e fiscalizadores aposentados do interior.

- Ok, também chegavam aos guntenberguianos repórteres de Política cartas manchadas de fezes. Protestos de assumidos leitores "de direita" contra o "petismo" dos jornalistas. Só rindo agora nessa interminável fase anal do esperneio.

- O leitor de internet não tem, na maioria das vezes, a menor noção da trajetória das viúvas de Gutenberg. E isso pode ser ótimo. Não há, no novo leitor, a solenidade em relação às assinaturas, às "grifes" jornalísticas, como sempre foi comum nos jornais impressos.

- O leitor que não lê também é uma realidade. O cara te esculacha nos comentários porque algum amigo ou membro da sua torcida organizada recomendou ou promoveu uma corrente contra algum outro post ou tua opinião sobre o time dele. Vale tudo.

- Seja em questões político-partidárias ou de clubes de futebol, por exemplo, a caixa de comentários ou as redes sociais parecem o metrô Barra Funda em dia de clássico no Pacaembu. A moçada se encontra lá para sair na porrada.

- É legítimo o direito do jornalista a se apegar em polêmicas, inclusive as mais óbvias, para tornar atrativo o seu blog ou a sua coluna. Ótimo. Desde que aguentemos o tranco.

- Na internet, o terceiro turno da eleição dura até o próximo pleito. Para muitos leitores, o mundo é um ovo e se divide entre “tucanalhas” x “petralhas”. Os internautas do gênero sempre acham que defendemos um desses lados. 

- Tem leitor que ama te odiar, amigo blogueiro. Não vai ter jeito. É aquele que te chama para a briga nos comentários, até te pauta um assunto somente para cair de pau depois. É um tipo carente, aprendo muito com essa gente.

 Pois bem, se discutir com a pessoa amada não é nada fácil, imagina essa interminável D.R.I. na festa estranha com gente esquisita que é o território livre da internet.

Agora é com vocês, meus amigos, meus inimigos, como dizia o Matinas Suzuki Jr. na sua gutenberguianíssima coluna.

Escrito por Xico Sá às 13h46

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A solidão domingueira e a mãozinha coça-costas

Qual o pior momento da solidão?

Digo, qual o momento em que você, mais sente falta de alguém para fazer companhia?

Sei que é sacanagem, além da óbvia pieguice, a tenebrosa pergunta.

Ainda mais em um domingo, meu prezado, justo no pior dia para aguentar o tranco e o tal mal-estar da civilização e da ressaca.

De fato, não é de bom-tom a pergunta, mas a imagem que acabo de ver, aqui da minha luneta à moda “Janela Indiscreta” , doeu demais da conta.

Nuestra madre poderosíssima, rogai por nós que recorremos a vós!

Doeu testemunhar tal cena.

Uma estupenda afilhada de Balzac, um colosso, ali nos seus 38, 40, tenta coçar a costas, bem no meio das costas mesmo, e não consegue. Reparo claramente que não consegue.

Ela agora parece irritada.

Pode ser uma carência banal esta que relato, mas não acho.

É doloroso.

Penso em tentar localizar aquela janela nas imediações da Paulista e me oferecer para coçar aquelas lindas costas. Nada mais que isso, embora com aquela eu casasse de papel passado hoje mesmo.

Não ter alguém para o simples ato de coçar o meio das costas, naquele ponto do mapa em que a mão não alcança, pode ser uma falta grave.

Mais até do que para fazer sexo. Aí é jogo fácil. Quero ver é alguém para estar ali justamente na hora da banalíssima coceira.

Você há de dizer, amiga independente, aproveita que é domingo, vai até à feira do bairro japonês da Liberdade e compra uma daquelas mãozinhas coça-costas de madeira.

Ótima solução, mas nada me tira da cabeça que esta é a pior hora para estar sozinho.

Mais do que a falta de companhia para o almoço domingueiro. Isso é nada. Manda a lasanha (semi-pronta) do desprezo no forno e estamos conversados –daqui a pouco vem a rodada de futebol e você abstrai a desgraça.

Manda o miojo da indiferença no fogão e não amola!

Te joga na berinjela com carne de soja, amiga vegetariana, e está lindo, nenhum bicho sofrerá no açougue humano.

O almoço da dama ou do cavalheiro solitário é nada.

Há quem diga que o pior momento de solidão é quando você adoece e não tem alguém ali para fazer um chá, uma sopinha, ninguém ali para fazer a Ana Neri -a heroína matriarca da enfermagem brasileira.

É pensando nisso que a minha mãe sempre me adverte nos intervalos de solteirice: “Case, meu filho, imagina ter uma dor de madrugada e ninguém por perto?!”

Sábia dona Maria do Socorro.

Na hora de pôr aquele emplasto Sabiá contra um torcicolo também é um saco. Impossível mesmo. Pedir para alguém do prédio é pior ainda. Imagina aquela cara de piedade cristã do vizinho!

E você, amigo(a), em que momento a solidão mais atormenta? 

Escrito por Xico Sá às 15h59

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PERFIL

Xico Sá Xico Sá, 48, escritor e jornalista, colunista da Folha, é autor de “Chabadabadá – As Aventuras do Macho Perdido e da Fêmea que se Acha” e + 10 livros. Na TV, participa dos programas “Cartão Verde” (Cultura) e “Saia Justa” (GNT).


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