Xico Sá

Modos de macho, modinhas de fêmea & outros chabadabadás

 

O corvo, pai Santana e o destino do Corinthians

 

Nem um outro jeitinho tira o caneco do Corinthians. Nem a malandragem brasuca. Nada, never, nécaras.

Somente o sobrenatural tira o doce da boca da criança alvinegra.

Como alertei desde o dia de Finados e deixei patente no caderno Esporte da Folha, só uma grande entidade, agora mais poderosa no além, pode tirar o Brasileirão do Corinthians.

 Se você, leitor de todas as cores, clases e camisas, pensou em Pai Santana, acertou na milhar, foi direto ao ponto e ao espectro que ronda toda a zona leste de SP, ZL, o centro do universo na Copa 2014.

Repito agora o pressentimento que deixei registrado em cartório:

Somente o eterno massagista e homem de fé do Vasco da Gama, cuja matéria foi sepultada esta semana, é capaz de tal façanha.

Tão-somente o mitológico –chega dessa mania de rotular a grandeza humana como apenas folclórica!- Pai Santana. Só ele. Ninguém mais. Nem os homens de preto que hoje apitam de amarelo-ovo ou verde new-wave.

Só Pai Santana tira o caneco do Corinthians. É falar no nome do  vascaíno para o meu estimado corvo Edgar se arrepiar todinho aqui no poleiro. Que foi, que passa, lazarento, desembucha, peste bubônica!

No que ele grasna, agudo, com aquela mesma voz da mal-assombrada ave, na janela, do filme homônimo do gênio Roger Corman:

“Ambos tropeçarão neste fim de semana, tanto o Vasco quanto o Timão, por mais incrível que isso pareça!”.

No mais, Edgar bota pilha, põe suspense e também entrega aos poderes do Pai Santana a sorte de um dos piores e melhores certames de todos os tempos. Explico.

Pior porque realmente ninguém está jogando lá essa bola toda. Abram-se parêntesis, colchetes e alas para a exceção de praxe, do Peixe, da praia, da prancha: o Neymar não vale nessa parada.

Melhor porque também é bonito quando os iguais se pegam na arena, como se num justíssimo ringue, como os honestíssimos caubóis ao meio dia no deserto, no faroeste sem água da existência.

É bonito, e legítimo, o embate, de qualquer jeito. Mas calma, amigo corintiano, lembre-se que você tem ao seu lado o guerreiro São Jorge, a quem o mitológico vascaíno muito venerou, venera, respeitou, respeita.

Quem vai levar a glória? Só sei que nada sei, como diria o filósofo greco-paraense doutor Sócrates. Só sei que, por causa da igualdade generalizada do Brasileirão, a bola está com quem já partiu desta para uma melhor.

Segue el juego, sopra o Juan, Rrrruan, chapa da picanha argentina aqui da esquina da vila Matilde, parente do Tevez. Segue el juego lá por cima.

Pai Santana com a bola. Cumprimenta São Jorge, tira uma onda, o guerreiro acena de cima do cavalo qual um mano “vida loka” de São Paulo: “Aí, firmão, ô da Colina!?”

Escrito por Xico Sá às 14h35

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Tipos de homem: o "maníaco do trechinho"

 

Nesta categoria, visto a carapuça numa boa. Muitas vezes me pego, inclusive aqui nesta crônica diária, como um autêntico "maníaco do trechinho”.

Trata-se da criatura que sapeca uma citação por minuto nas oiças alheias. Vacilou e ele tasca um “como diria Nelson Rodrigues nem todas mulheres gostam de apanhar, só as normais”.

Como diria Fernando Pessoa, tudo vale a pena blábláblá...

O poeta português, aliás, é a grande doença do citador obsessivo. Sempre tem alguém à mesa com um trechinho do gajo para ilustrar qualquer assunto.

Você está falando a maior e mais rasa banalidade do universo e lá vem o maníaco com um papo “Eu profundo & Outros Eus”.

Pior é que a fartura é grande. Só de heterônimos Pessoa tinha uns trezentos. É verso para mais de metro.

Outra que reina nessa mesma pegada é Clarice Lispector.  Entre as mulheres principalmente. A “maníaca do trechinho” também não perdoa, dispara a sua sensível metranca de citações.

Da mesma prateleira de Clarice, Caio Fernando Abreu é outro sacado a cada segundo.

Haja epifanias nas redes sociais, como lembraram recentemente os colegas Alexandra Moraes e Roberto Kaz em texto na Ilustrada.

Mas o “maníaco do trechinho” , tipo surgido em uma conversa –repleta de citações- com Rita Wainer, ataca em todos os meios e ocasiões.

Claro que é mais doloroso na hora da conquista. Tenta ganhar a possível futura pessoa amada pelos ouvidos.

Alguns pegam pesado: atacam de Heidegger ou Jean-Paul Sartre como se tivessem falando de Wando e Reginaldo Rossi.

Óbvio que às vezes o cara acerta e cozinha, ao ponto, o juízo da garota. Frase de tiro certeiro. Baba, baby. Baba de moça diante do cortês don Juan e o seu embornal de fraseados e chilreios.

Falar nisso, chefões do G-20, tenho uma proposta para salvação da economia grega. Que o governo daquele país cobre um imposto internacional sobre cada citação dos seus filósofos.

Sacou um Sócrates, morre com um troco; Platão, idem; Aristóteles nem se fala. Eu morreria pobre de tanto mandar moedas para o Epicuro, o meu pessimista sorridente preferido.

E você, amiga, já foi muito importunada por um “maníaco do trechinho”?  Conta pra gente, vai, relaxa porque hoje é sexta.

Escrito por Xico Sá às 11h59

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Mais estranho que a ficção III: O analfa político

Deveria volver aos 17 e ser um comuna à moda Brecht (bem aí na foto) por excelência. É o que a bola da realidade pede.

Como hoje é quinta, porém, a clássica quinta dos infernos, é dia de mais um episódio da série “Mais estranho que a ficção”, justíssima homenagem semanal ao mr. Chuck Palahniuk e o seu livraço homônimo de crônicas.

Palahniuk, para quem não lembra, é o cara que escreveu “Clube da Luta”, livro porreta filme idem. Sem mais lengalenga, direto no miocárdio, vamos nessa, sempre tentando falar aos corações aflitos:

I- O Brasil, SOS, o Brasil, SUS, o Brasil... é o único país do mundo onde a pequena burguesia, também conhecida como burguesia-gabiru, carece politizar o câncer de um ex-presidente para discutir saúde pública.

II- O pior analfabeto político, título de poema do velho Brecht, é aquele capaz de politizar a multiplicação desordenada das células.

III- Não é preciso ler Norberto Bobbio (* Turim, 18 de outubro de 1909 + Turim, 9 de janeiro de 2004) para saber que não há doença grave de direita nem de esquerda.

Doença leve, óbvio, é de centro, como resfriado e ressaca moral de colunista político ou comentarista de redes sociais.

IV- Meu particularíssimo respeito às doenças graves devo tão-somente à educação e solenidade adquirida na infância greco-cratense. Até a palavra câncer era proibida. Falava-se “aquela doença” e outros paliativos lacanianos.

V- Mas já que resolveram botar a mãe e a ideologia no meio, politizemos de vez a dengue, a varíola, a febre amarela, a caxumba (na minha terra é papeira), a febre do rato, a peste bubônica, o istampô-calango e outras febres da selva.

VI- Real-politik! Donde o mosquito da dengue, por exemplo, é municipal; a gritaria é estadual e o remédio da Sucam é federal.

VII- Vamos politizar, com todo panfleto & fúria, as mortes no trânsito, a poluição atmosférica, o colesterol.

VIII- Sou repórter do tempo em que câncer e suicídio não eram notícia, seus mal-educados. Eram respeito e silêncio.

IX- Mas sobretudo sou do tempo de hoje, entonce, bora ao bom-combate. Viva o contraditório, o esperneio geral da nação, esculhambem, mas, pô, vocês não tiveram pais ou simplesmente ainda não fizeram o primeiro exame de próstata?

X- Que vossos diagnósticos nunca sejam positivos, amém.

Escrito por Xico Sá às 23h23

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Breve alerta à menina nº 7 bilhões sobre os homens

E na viagem de número 7 bilhões da cegonha, mais uma menina. Alvíssaras, meus camaradas, o futuro é mulher e tem salvação o planeta.

Pequena Danica, benvinda ao reino da Carençolândia, que a terra lhe seja azul e o mais leve possível.

Que ótimo ser uma mocinha a criatura tão emblemática.

 

Linda demais com a sua touca vermelha, um olhinho aberto, outro fechado, seduzindo a todos que chegaram antes.

Benvinda ao reino da Carençolândia, pequena filipina.

Deixa eu explicar para você, criaturinha, o que quero dizer com essa pequena fábula. Aproveito e repasso o texto para os que se acham mais vivos.

É o seguinte: bravas fêmeas expulsas do paraíso por um deus misógino fundaram um reino nada encantado.

Deram a este Pueblo, pequena Danica, o nome de Carençolândia.

Embora tenha sido criado pelas mulheres no tempo em que só existia o fogo e o verbo, agora os machos é que assumiram a legítima condição de cidadãos carençolandeses.

Como estão carentes.

Uns macunaemos, Danica, como digo: preguiçosos como o Macunaíma e chorões como os meninos da legião Emo.

Cuidado, frágeis!, eles estão perdidos, sejam metrossexuais, übersexuais ou brechossexuais -aqueles que só usam roupas com encosto de brechó.

Fracos, pequena Danica, não agüentam o tranco das mulheres mais destemidas.

Arrotam macheza nos botecos, mas logo que põem as patas em casa uivam para a lua minguante e sonham com uma chuva de coleiras.

Bem-vindos ao reino da Carençolândia, esse golfo inevitável da existência.

Sim, na Carençolândia ninguém vem a passeio e o turismo é proibido. A Carençolândia é uma espécie de Mali, de Níger, de Burkina Fasso, de Guiné Bissau, de Chade... d´alma.

Desculpa o gracejo do tio dinossáurico que veio mundo quando a terra possuía apenas a metade dos habitantes de hoje.

É que não poderia deixar de alertar, pequena filipina, sobre a nossa frágil condição masculina. Meu desejo é que cresça forte, saudável e já sabendo da buraqueira na nossa camada de testosterona.

Um beijo pra você e pra toda a família.

Escrito por Xico Sá às 17h39

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A perigosa Quadrilha das redes sociais

 

Com esta singela, moderninha e banalíssima paródia de "Quadrilha", o blog se junta às celebrações do “Dia D, Dia de Drummond”, o aniversário do poeta Carlos.

*

João seguia Teresa que cutucava Raimundo

que curtia Maria que compartilhava Joaquim que bloqueava Lili

que não adicionava ninguém.

João largou de ser nerd, Teresa virou budista,

Raimundo morreu na mão, Maria foi pra Catalunya...

Joaquim cutucou de volta e Lili firmou “relacionamento sério” com J. Pinto Fernandes

que nunca tinha entrado sequer no velho Orkut.

Escrito por Xico Sá às 12h56

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Sob anonimato, brasileiro não é solidário no câncer

É, tio Nelson, o brasileiro, quando protegido pelo anonimato, não é solidário nem no câncer.

E não estamos batucando na tecla e no lengalenga do politicamente correto. Corta essa.

O brasileiro não é solidário nem no câncer em muitas ocasiões.

É o que vemos nos comentários de blogs e redes sociais agora em relação à doença do ex-presidente Lula.

Nas ruas, nas famílias e na missa de corpo presente, ainda vale a comoção, a compaixão, piedade e outros sentimentos.  

Sob o capa de um anônimo e furioso Batman, o ataque dos comentaristas é fulminante, a doença vira metáfora para o desabafo e a ira política dos fundamentalistas que enfrentam diuturnamente o lulismo-petista.

“Minha suspeita é que a interatividade democrática da internet é, de um lado um avanço do jornalismo e, de outro, uma porta direta com o esgoto de ressentimento e da ignorância”, escreveu Gilberto Dimenstein, espantado com as manifestações recebidas na caixa de comentários da sua coluna aqui na Folha.com.

Vasculhando as caixas postais de vários blogs e colunas que trataram sobre o assunto, observamos que não é um caso isolado. É tendência. Tem, mas está faltando a referida solidariedade.  

Agora vemos o personagem Edgar, da peça “Bonitinha mas ordinária”, do tio Nelson Rodrigues, salivando, obsessivo, atribuindo a sentença ao Otto Lara Resende: ”O mineiro só é solidário no câncer.”

O mineiro aqui entra como parte pelo todo, claro, mas deixemos o próprio canalha Edgar com o verbo, de novo:

 “Mas olha a sutileza, não é bem o mineiro, ou não é só o mineiro. É o homem, o ser humano. Eu, o senhor ou qualquer um, só é solidário no câncer. Compreendeu?”

É, tio Nelson, este último reduto da solidariedade está indo para o saco. Pelo menos no baile de mascarados da internet.

Escrito por Xico Sá às 12h46

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PERFIL

Xico Sá Xico Sá, 48, escritor e jornalista, colunista da Folha, é autor de “Chabadabadá – As Aventuras do Macho Perdido e da Fêmea que se Acha” e + 10 livros. Na TV, participa dos programas “Cartão Verde” (Cultura) e “Saia Justa” (GNT).


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