Xico Sá

Modos de macho, modinhas de fêmea & outros chabadabadás

 

Com vocês, a mulher da mostra de cinema

Da série "meus tipos inesquecíveis de SP". 

Como são lindas, elegantes e serenas as mulheres das filas da Mostra Internacional de Cinema de SP.

Seja uma rapariga em flor com os seus oclhinhos perspicazes e uma fome de viver tudo ao mesmo tempo agora.

Seja uma gostosa afilhada de Balzac com sua inteligência amadurecida em uma milhagem de uns dez anos de Cinemateca.

Todas, aos meus olhos, viram umas Annas Karinas –a bela bem na foto aí acima.

A mulher da mostra tem um requinte que não se vê por ai com facilidade. Sou um tarado confesso, doente, neurótico e obsessivo pela fêmea cinéfila.

As sobrancelhas de uma moça da mostra já nos dizem tudo, os olhos com um leve filtro de um castanho melancólico e aqueles lindos lábios, caro Marçal Aquino, que nos darão, depois de uns mil filmes juntos, as piores notícias.

Terá valido a pena. Amei uma mulher de mostra, Daniela, e bem sei. Nesse tempo, anos 90, o amor de mostra começava sempre com a lentidão de uma fita iraniana. O nosso começou com “O Balão Branco”, no Cine Arouche. Seguido de pasta e vinho no centenário restaurante Carlino.

Faço qualquer sacrifício por uma mulher de mostra. Sou capaz de ver ao seu lado mais filmes cabeças que o amigo Marcos Dávila, vulgo Peri Pane, que está escrevendo, na Folha,  o seu “Diário da caverna”, sobre a tara de morar no escurinho do cinema.

Fico sem comer pipoca durante os filmes. É, a mulher de mostra, concentradíssima, não curte o barulho de pipoca durante o seu sagrado momento. Faço o seu gosto, se faço!

Guardo toda a tara para depois da sessão, mesmo sendo aqueles filmes que duram umas quatro horas. É, a mulher de mostra, ritualística, não gosta de ser atrapalhada por muitos dengos durante a exibição.

É, prezado, agora vale aquele velho e infame trocadilho oitentista: é Wim Wenders e aprendenders.

Falar no mais cult de todos os cults de todas as mulheres de mostra, vai passar nos próximos dias o filme novo dele, “Mundo Invisível”.

Agora com licença que eu vou ali no Cine Sesc em busca, quem sabe a sorte, da minha musa da mostra.

Esta crônica é dedicada a Leon Cakoff, criador e idealizador deste respeitável, palmas, evento!

Escrito por Xico Sá às 19h25

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Hai-Kai da noite vazia paulistana

Nem analógicos,nem digitais

não há boêmio que ajuste

os relógios dos sabiás!

Escrito por Xico Sá às 14h44

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A semi-virgem e a falta de amor a João Gilberto em SP

 

 

Bossa Nueva, baby, como dizia o Elvis na sua fase mexicana.

Ladies & Gentlemen, damas & cavalheiros, nesta quinta dos infernos é dia de “Mais estranho do que a ficção” aqui no blog, uma justa homenagem mensal que prestamos ao mr. Chuck Palahniuk e o seu livraço homônimo de crônicas. Aquele mesmo cara que escreveu "Clube da Luta", que deu em filme-verdade, enfim, um escriba de responsa.

Vamos aos bizarros tópicos, embora sempre baseados religiosamente em fatos reais:

1- Quem gosta de bossa nova é intelectual do andar de cima, como teria dito o  Elio Gaspari. Errado. Os ingressos para o qüen-quen de João Gilberto em SP estão boiando nas bilheterias. Custa um barão na fila do gargarejo, é mole?

2- Mal saímos do papai-mamãe e a revista “Nova” sempre nos vem com uma posição vanguardista capaz de dar cãibra até na Daiane dos Santos. Corra, Lola, corra.

3- A nova classe C pode até viajar de avião, quero ver é conseguir dar um lanche à família nos aeroportos, onde os preços continuam no tempo da Panair, quando só os ricos –“eu sou ryyyca!”- voavam nos pássaros metálicos.

4- Troca-troca de ministro é pelo método camarão: corta-se fora a cabeça e engole-se o resto, esteja bom ou não. O mesmo partido do titular alvejado nunca perde a vez nas novas indicações.  

5-  Não bato palmas, mas me rendo. O maior fenômeno político do país é o Kassab, esta espécie de Jânio Quadros sem álcool, que proibe até o hot-dog nas ruas de SP, faz uma gestão nota 1,5 e atrai para o seu partido uma manada de eleitos por outras siglas. Posição: nem contra, nem a favor, muito pelo contrário.

6- Agora erotizemos um pouco, como de praxe aqui neste blog da luz vermelha. A ligeiramente grávida, como na música d´O Espírito da Coisa, pode não existir, mas a semi-virgem  é uma realidade.

Achei que o apelo das garotas tinha datado. Mas que nada. Segue firme como fetiche e atrativo nos classificados eróticos de jornais, sites e nos anúncios dos orelhões do centro de SP.

Agora é com vocês, meus amigos, o que anda mais estranho que a ficção neste Patropi, neste abençoado Patropizza?   

Escrito por Xico Sá às 02h23

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As "mexericas" e os Anais da Câmara

De um personagem da luxúria da Oscar Freire, nos Jardins paulistanos, mudamos o foco agora para um tipo brasiliense por excelência.  

A profissional do dia, aqui no blog dedicado à mais pura crônica de costumes, é conhecida, vulgarmente, como “mexerica”.   

Não se trata de uma dessas mulheres do mundo hortifrúti que abastecem os programas de tevê. 

Sem essa de subcelebridade.

Trata-se de um tipo, digamos assim, de prática mais republicana, ligado diretamente aos destinos do país e aos anais da Câmara.

Sua excelência a “mexerica”, nos informa a infiltrada correspondente Maria Piedad, é aquela mocinha meiga, bonita, cheirosíssima, rapariga ainda em flor, contratada por alguns deputados para a prestação de serviços especiais, como o sexo, por que não?, entre outras atribuições parlamentares.

As prestativas garotas não são obrigadas a cumprir o expediente diurno de gabinete e plenário, mas sempre chegam esbaforidas, ufa, que correria, quando sabem, às pressas, que as sessões irão além das 19h.

Nessas ocasiões comparecem de emergência para bater o “ponto” que dá direito, por ser trabalho noturno, ao pagamento de uma hora extra. Assim recheiam com uma grana a mais as suas gigantes bolsas de grife.

“Elas chegam arrastando as sandálias rasteirinhas e de cabelos (quase sempre) molhados”, relata a nossa testemunha ocular no Congresso, Maria Piedad. “Significa que estavam em casa se preparando para uma bela noitada, não para uma votação na Câmara.”

Enfim, por baixo dos panos ou dos lençóis, conclui a nossa informante, o Congresso instituiu o auxílio-sexual. Sabe como é a solidão de Brasília para os nobres parlamentares a milhas e milhas das suas bases!

Só resta a estes representantes do povo que recorrem às “mexericas” aproveitar as horas livres e pôr na “ordem do dia” suas fantasias de foro íntimo. 

As "mexericas" -é por esta cítrica e doce alcunha que são conhecidas abertamente no Congresso- são apenas uma rima pobre do Tiririca. Nenhuma ligação a mais, é bom que se frise, com o deputado eleito por São Paulo. 

Maria Piedad volta a qualquer momento com a crônica dos vícios públicos e das virtudes privadas da Corte. Gracias, Maria, e até o próximo relato.

Escrito por Xico Sá às 03h29

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Duas ou três coisas que eu sei sobre Dora

 

Um humaníssimo personagem paulistano que me chama sempre a atenção, e não só como personagem, é a vendedora de loja que, atraída por algum luxo ou vida melhor, vira garota de programa por uma temporada.

Legítimo e digno como qualquer outro ofício na metrópole. Direitos irrevogáveis e particularíssimos, meu nobre amigo Rousseau.

A história de Dora, nossa complicada e perfeitinha da semana, imita essa trajetória. Mas de uma forma bem mais sutil e sofisticada.

Uma linda. Não tem sequer a afetação que costuma impregnar essas gostosinhas que, por ventura ou sorte, caem neste ramo.

Taí um charme à parte na moça, uma aparente ingenuidade, aquele olhar  um tanto perdido de quem ainda não sacou a falta de amor em SP –play again até furar o disco, Criolo.

Recém-formada em arquitetura em Curitiba, Dora muda aqui para a Babilônia cheia das bueníssimas intenções, divide apê com um outras meninas, aquela zona e precariedade que a gente bem conhece.

É como se desse um tempo longe dos olhos provincianos e familiares. Seus planos são muito bons: depois, sei lá, investe com tudo na profissão que estudou.

Conheço várias meninas parecidas com Dora, mas não igual.

Dora-Dora se envolve com Beto, um jovem e charmoso empresário  cheio de grana que vive entre São Paulo e Brasília. Acha que pode ser amor ou algo assim. Em outras palavras, mina muito romântica, justíssimo, ela sonha, direito irrevogável, colega.

Quando cai na real –Beto a instala num loft na Oscar Freire, 279, como profissional pecaminosa de luxo- vem um certo susto, mas Dora fica mais linda ainda. Olhos borrados pela maquiagem negra de vingança, tesão e maldade.

O sexo impregna as flores, que ela sempre cultiva com zelo –amaria ser florista profissa!- e reacende no bairro dos Jardins.

Dora é a carioca Livia de Bueno, Beto é o gaúcho Julio Andrade.  Maria Ribeiro, nuestra madre!, também dá uma pinta como atriz convidada –esta já uma garota sem susto no ofício, rainha da objetividade.

“Oscar Freire 279” é uma crônica da luxúria paulistana, às vezes explícita, às vezes subterrânea, que acontece com ou sem migrante de classe média, com ou sem Dora.

Tenho seguido esta garota todas as segundas, 23h, na primeira série dramática do canal Multishow. Hoje tem. A direção é de Marcia Faria, roteiro de Antonia Pellegrino, realização Prodigo.

Com licença que vou colar na Dora. Nada como uma gostosa culpada!

Escrito por Xico Sá às 23h36

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Cidadão Instigado recebe Raimundo Fagner

Por trás da veneziana a cigana me falou: vai lá, meu rapaz, sinto cheiro de uma noite inesquecível. Desobedecer a Soledad, jamais, juízo yo lo tengo e uso quando é preciso. 

Ainda mais em mais uma sexta-feira, 21/10, marcada por uma profecia de fim do mundo. Assim falou um pirado profeta americano. Coisas da vida, me sopra aqui o guru Kurt Vonnegut.

Um astro vagabundo reforçou a bagaça mística: cheiro de noite histórica no Sesc Pompeia, meu amigo, Cidadão Instigado recebe Raimundo Fagner para eternas ondas de timbres e guitarras.

Meu corpo minha embalagem todo gasto na viagem. Parecia que o Pessoal do Ceará estava de volta, como no clássico e raro vinilzão de 1973.

Catatau, Rian, Regis, Dustan e Clayton, este o coletivo instigante, abriu os trabalhos. Rachando a taboca da existência.

Raimundo Fagner adentra o gramado. Manda velhas e novas.

Montado no cavalo ferro no Planalto Central do país, meu amor é cebola cortada, meu bem, que logo me faz chorar, cebola roxa, noite impagável.

Os rapazes do Cidadão rasgam acordes puxados na manteiga do spleen, na manteiga do blues, na manteiga do banzo do exílio espontâneo.

Aí vem “Jura Secreta”.

A cantora Bárbara Eugênia, que dividia os mesmos mosaicos dois pra lá dois pra cá da pista, confessa arrepios do lado esquerdo. Via-crucis do corpo, querida Clarice Lispector.

Bárbara com sua beleza emoldurada por uma gola vermelha nouvelle vague. Havia um filtro rapidamente melancólico nos seus olhos.

“Noturno”.

E naquele de canções desesperadas, irrompe “Cartaz”, com arranjo guitarristicamente “picadim” e cidadanoso. Se você vem comigo eu não choro mais.

Alçado às pistas chacoalhantes de todo país graças à festa “Sem Loção”, from Recife, “Cartaz” é hit de qualquer festa moderna de hoje em dia. No Sesc Pompeia não foi diferente.

Só senti falta daquela do tiro no cara da cantina do Bob Dylan. Teria sido um faroeste sentimental perfeito.

Deixa quieto. Porque teve Revelação, porque teve a que me fez beber como homem na vida: Asa Partida.

Quem me levará sou eu, embora no meu caso não passe de autoengano, também rolou na buena.

Agora um grande momento em meio a tantos grandes instantes: Borbuja de Amor, de Juan Luíz Guerra, em versão brasileira do poeta Ferreira Gullar.

“Tengo un corazón,/Mutilado de esperanza y de razón/Tengo un corazón/Que madruga adonde quiera...”

Aproveitei para treinar um pouco meu portunhol selvagem.

Uma chica que amo, dois, três mosaicos depois, bailava romanticamente com um cordial inimigo. Acontece.

Sentia o perfume do seu pecado.

Um concierto inesquecível. Gracias LP Produções, pelo grande encontro, e que dê ao Brasil inteiro essa chance de chorar com essa paixão roxa como cebola cortada na noite de orvalho.

A cigana nunca erra. O astro vagabundo muito menos. Do primeiro show de Fagner no Cariri, quando já experimentava a ideia inicial de uma dor amorosa –na mais que apropriada quadra João Cornélio – até o diálogo com o Cidadão Instigado.

Não quero ver o fim do mundo, falso profeta americano, vou dormir no jardim das minhas inventadas delícias.

Escrito por Xico Sá às 23h56

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PERFIL

Xico Sá Xico Sá, 48, escritor e jornalista, colunista da Folha, é autor de “Chabadabadá – As Aventuras do Macho Perdido e da Fêmea que se Acha” e + 10 livros. Na TV, participa dos programas “Cartão Verde” (Cultura) e “Saia Justa” (GNT).


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