Xico Sá

Modos de macho, modinhas de fêmea & outros chabadabadás

 

Crônica do amor de muito

(Livremente inspirado nas músicas “Amor de muito” e “Risoflora”, de Chico Science & Naçao Zumbi) 

O marinheiro voltou com um molambo de fracasso como vela.

A maresia corroeu seus desejos mais antigos.

A ferrugem da espera nos olhos da mulher feita.

E agora?

O que sobrou para dizer um ao outro?

Só areia e lonjura.

Nem a tentações e vagabundagens foram submetidos, o que daria algum suspense na história.  Foi uma ausência engolida a seco. E pronto.

Se olharam, se olharam.

Cada qual com seus “lá dentros” pedrados de arrecifes.

Ela ainda tentou achar no corpo dele um cravo que só ela –e mais nenhuma rapariga- conseguia espremer em suas tardes de calma e ternura.

Ele não se moveu do canto e parecia afundar em suas movedices de criança.

Aí uma brisa intriguenta bafejou nos seus cangotes uma pergunta:

- Por amor, ou por besteira?

Ele só quer escutar o que ela quer dizer.

Ele tem uma tatuagem de Corto Maltese no lado esquerdo do peito.

“Balada do mar salgado”, ela decifra.

Seu coraçãozinho de maria-farinha à milanesa não sentia amor nem cócegas, de tanto aperto.

Ele pensou “dois perdidos no paraíso”, mas nada disse, de tão besta e óbvio que seria quebrar o silêncio com uma loa tão morna.

Será que havia jeito?

Ele pensou em outra coisa: “Eu sou um caranguejo e estou de andada. Só por sua causa.”

Já era algo, mas ela não sabia mais ler os seus pensamentos.

Ele pensou melhor:  “Quem sabe molhando as ideias com uma cerveja”.

Não havia um mascate da espumosa a léguas.

Teria magoado a moça ao ponto?

Lembrou que havia um samba de regeneração batucando na cabeça. Ai tem coisa, suspeitara.

Havia feito sim uma promessa.

DE MUDAR DE VIDA.

Mas como todo homem: memória gasta pela ferrugem do desleixo.

Flores apenas para enfeitar o pós-barraco.

Movediço na frouxa areia da sabotagem.

Chega.

Tramela nos ares, som forte de batida de porta.

Aí ela disse para o vento: “Por que ele está aqui mesmo?”

Deu vontade (nela) de escrever no balãozinho tatuado do Corto Maltese: “Eu sou um marinheiro fuleiro!”

O mar devolvia à praia esculturas do acaso, como em uma antiga exposição do artista Paulo Brusky. Ela gostava.

A tarde mais longa do século.

Quem sabe a breguice de um belo pôr-do-sol nos tire dessa, ela em raro tic-tac de esperança.

Romântica.

A menina que esperava o seu homem chegar havia perdido as graças do mar.

Cadê o amor que estava aqui na areia? O tubarão comeu.

Ele afundava com seus pés-de-pato movediço. Ela ainda tentou dizer coisas. Mas ele não estava mais à sua altura, havia sucumbido.

Escrito por Xico Sá às 17h13

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Uma noite com Lea T., a mais linda mulher do VMB

Ô Lea T., eu vim aqui só pra te ver.

E eis que ela surge, a noite está ganha, nem careço mais esperar a boca livre da festa do VMB.

Orgulhosamente, depois desse alumbramento, eu mesmo pago os meus paraguaios duplos, copo longo, muito gelo, faz favor.

Ela dá pinta na pista. Chego mais perto. Só para sentir o seu perfume.

“Calma, traz um copo d´água com açúcar pro rapaz”. Escuto o eco do amigo Catatau tentando serenar meus nervos de aço.

A mulher mais linda e feminina da festa da MTV, acredite, hombre.

Passadas elegantes como o pai Cerezo em campo, me sopra outro camarada, acho que o Otto, viking do agreste.

Chego bem mais perto agora, contrariando todas as recomendações do meu querido cardiologista.

Tremo como vara verde de marmeleiro.

Oi Lea, sou seu fã, admirador, devoto, escravo, faço qualquer coisa. Era o balãozinho entregador, viver é HQ, sobre a minha cabeçorra.

Faço a declaração, missa de corpo presente, mas com graça, canalha do bem, correto, lírico, sem ser nada pegajoso. Ainda. Temos todo tempo do mundo. Nada que três uísques não sejam capazes de devolver o monstro a esse corpinho do Crato.

Ela correspondeu o sorriso. Beijinho no rosto. Joguei baixo e perguntei se tinha lido uma crônica que fiz para ela no caderno de Esporte da Folha. Pobre cronista, acreditando que vive nos anos 60 e que é capaz de ganhar uma mulher com palavras que logo mais irão embrulhar o peixe na feira. 

“Ah, foi você?!, fofo”, respondeu, com o poder de um raio paralisante qualquer.

Estátua.

Congelei.

“Obrigada, foi lindo”, disse ela, com feição de que nem lembra do que estou falando, mas como boa moça de origem mineira, agradece. Elegância demais da conta.

Aliás que mistério essas mulheres de Minas, né, Sabrina Abreu? Só uns versos de Cecília Meireles para explicar as mineiras:

“De seu calmo esconderijo, o ouro vem, dócil e ingênuo;/ torna-se pó, folha, barra, prestígio, poder, engenho.../É tão claro! - e turva tudo: honra, amor e pensamento."  

Ah, Lea T., gracias por tudo. Quem disse que consegui olhar outra fêmea nesta noite.

Por mais que tentações existissem, preferi voltar para casa, ainda com teu perfume na barba rala. Pode não existir amor em SP, sábio Criolo, mas tá sobrando aqui em casa para esta mina d´ouro 18 quilates.

Respeitosamente, Lea, embora com muito desejo inconfesso, Francisco Reginaldo de Sá, seu criado e amigo.

Escrito por Xico Sá às 01h09

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Os 11 maiores "bandidos" do futebol mundial

A pedido do dono deste eclético botequim, o especialista Marcelo Mendez, titular do blog “Canela de Ferro”, colunista rock´n´roll do "Pastilhas Coloridas"  e do jornal "ABCD Maior",  viaja na lista dos 11 maiores "bandidos" do futebol. 

O critério é o conjunto da obra, que inclui contestação, jogo bruto, vida maluca, o barulho das polêmicas e a história universal de infâmias.

Perto desse esquadrão, muita gente que se acha hoje bad-boy não passa de uma pobre noviça rebelde:

Almir – Craque de bola, baita jogador do Vasco, America, Flamengo, protagonista da maior briga da história do maracanã num Flamengo x Bangu em 1966. Perto dele, Edmundo é coroinha!

Serginho Chulapa – Maior artilheiro da hisrtória do São Paulo, atacante do Santos e "matador". Dentro e fora do campo se preciso fosse... 

Merica – Uma vez perguntaram ao Serginho Chulapa se teve algum jogador que já o fez afinar. Ele respondeu: Merica. Não precisa falar mais nada. 

Chicão – Volantão classico, jogador do São Paulo dos anos 70, Chicão ficou conhecido como “O monstro de Rosário”, ao parar a seleção Argentina no tapa, durante a Copa do Mundo de 1978. 

George Best - Histórico atacante do Manchester United dos anos 60, Best era grande apreciador da noite e dos uisques. Sua frase celebre: “Gastei meu dinheiro com mulheres e bebidas. O resto desperdicei."

Beijoca – Grande Camisa 9 do Bahia do final dos anos 70, ficou eternizado pelos seus dotes cachacísticos e sua grande habilidade de trocar porradas!

Paul Gascoine – Foi um meia inglês habilidoso no começo dos anos 90, bom de dribles e de copo principalmente! 

Pinherense – Nos anos 80, jogar no interior era duro por varios motivos. Um deles sem dúvida era enfrentar o caneludo camisa 3 do Taubaté, América de Rio Preto e outros.

Eric Cantona – Um Bicho! Cantona é pop! Jogou no Manchester United no final dos anos 90, artilheiraço, fazedor de gols que entraram pra história, sem esquecer de invadir a arquibancada pra bater na torcida do Cristal Palace em 1998! 

Doval - Milongueiro! Jogou no charmoso Rio de Janeiro nos anos 70 pela dupla Fla-Flu. Há quem diga que o argentino jogou muito mais na noite de Ipanema do que mesmo no Maracanã!

Rildo – No grande Santos de Pelé, nos anos 60, tinha sim craques como Pepe, Coutinho, Pagão entre outros. Mas do meio pra trás, quem segurava na bota era o vigoroso lateral esquerdo santista. Só batia da “medalhinha pra cima” de maneira deveras cristã... 

Agora é a sua vez, amigo, sentiu falta de algum bandoleiro na lista? Sinta-se à vontade, agora nos comentários, para fazer justiça aos seus preferidos.

Escrito por Xico Sá às 22h56

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Como se faz um escândalo -com ONG ou sem calcinha

Como até a Velhinha de Taubaté, personagem do L.F. Veríssimo no livro acima,  está farta de saber, quase nunca é por amor à pátria que a corrupção vem à tona no Patropi, digo, Patropizza.

Os excrementos são atirados nos ventiladores quando alguém passa a perna em alguém, afinal de contas, como disse o Graciliano Ramos -para falar mal do football que tentava vigorar no Brasil-, o grande esporte nacional é a rasteira.

Repare no rolo do ministro dos Esportes, sr. Orlando Silva, acusado de malfeitos com recursos públicos repassados a ONGs.  O delator João Dias, um rico policial brasiliense, era mui amigo, no ramo comuno-onguista, do titular da Pasta.

O socialismo para milionários, como diria o meu querido colega Bernard Shaw, fez água. Alguém mais ambicioso passou a querer mais do que suas humildes necessidades. Opa, nessa hora começa a treta. 

Costuma funcionar assim a engrenagem. Mire-se no Collorgate, um dos mais completos escândalos em termos dramáticos, algo que poderia muito bem ser assinado por Nelson Rodrigues.

Por que Pedro Collor, irmão do então mandatário, entregou o esquema PC Farias, em entrevista cavada profissionalmente pelo repórter Luis Costa Pinto?

Pedro, o bíblico, se negou três vezes a receber apenas migalhas provincianas de repartições federais em Alagoas. Sobras e restos não o interessavam.

Ele queria ser tratado pelo menos como o irmão Leopoldo, a quem cabia, como no tempo das capitanias hereditárias, dividir os ganhos no estado de São Paulo com o empresário Egberto Baptista e outros personagens que fizeram apenas ponta neste filme.

Não contemplado, Pedro, o marido da bela Tereza, virou o Caim, tocou fogo na República e daí por diante sabemos bem o fim do terceiro ato. Desce o pano.

Sempre assim. Vide também o episódio Mensalão na gestão Lula. O cívico-dedurismo de Roberto Jefferson é quem entrega. Como também os Ronivons Santiagos na compra da emenda para a reeleição de FHC -mérito jornalístico do repórter Fernando Rodrigues. No caso Sivam, sob o mesmo regime tucano, repeteco: empresários que dançaram nas licitações vazaram a negociata.

Outro perigo é o sexo. Se no jornalismo investigativo americano o mandamento sagrado para o repórter é “siga o caminho do dinheiro” que você descobrirá o escândalo, aqui pode ser também “siga a amante”.

O caso Palocci teve um capítulo que envolvia belas garotas de programa. Mas teve gente que levou mais a sério a parada.

Como o deputado Leonel Júlio (MDB), presidente da Assembléia Legislativa de SP, que perdeu o mandato, em 1976, por renovar, com dinheiro público, todo o guarda-roupa erótico da sua amante. Comprou o que havia de mais fetichista na época. Foi o famoso “escândalo das calcinhas”, o mais caliente da história. 

Foi o único caso que deu em alguma coisa na Assembléia paulista. De lá para cá virou um cemitério de CPI´s, nada erótico. Só nas gestões de Alckmin conseguiram derrubar 70 tentativas de investigações. Sem contar com o já esquecido, em uma semana, camelódromo de saldão de emendas.

Outro perigo para o poder são as ex-mulheres. Trataremos do assunto mais adiante.

Escrito por Xico Sá às 17h15

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Fragmentos do discurso do pé-na-bunda

Quando escuto aquele papo tipo “estou confusa”, levo logo às mãos às têmporas. É galha irrompendo, ainda que sutilmente, na fronte do artista.

É como aquela outra história que repito como mantra: quando a mulher se põe mística e fala de retorno de Saturno, vixe, é uma congada na bunda na certa, um pé na nossa padoca.

A leitura desses sinais da fala feminina não nos poupa da tragédia. Doerá do mesmo jeito e só a lama cura. Deixa quieto.

“Preciso do meu espaço” é outra forma de nos mandar para outras galáxias. É o pé na bunda ao velho estilo Nasa. Só nos restará fazer o Dr. Smith (aí na fotinha para os mais jovens), personagem daquele seriado espacial das antigas, e reverberar o seu bordão: “Ó dor, ó dor!”.

Fora a tal a oposição em Saturno, a única oposição verdadeira neste país, as outras desculpas eram falas clássicas do mundo de Malboro. Tinha também o tradicional “você merece um alguém melhor do que eu”.

Tudo onda, lorota, agá para cair fora da forma menos dolorosa possível. Às vezes até por SMS, email ou nos deletando do "face".

Devolver o Neruda que é bom, velho Chico, necas.

O que acho sensacional, na qualidade de vítima e de cronista de costumes, é como a fêmea, no seu irrefreável e legítimo avanço, incorporou as desculpas do velho discurso masculino para nos mandar embora.

Em compensação, não vejo mais os meus pares saindo para comprar um cigarro na esquina e desaparecendo da vida das moças. Outro clássico.

Não fumamos mais o covarde king size do abandono. Nós é que tragamos a nicotina do desprezo.

Sem direito a cigarro pós-coito. O mais metafísico dos cigarros de um animal satisfeito. Porque é bonita a nossa tristeza depois do gozo. Todo mamífero entristece segundos além do orgasmo. Só um bicho, e de outra natureza, canta depois que goza. O galo.

Mas falávamos da apropriação indébita do nosso discurso pela mulher moderna.

“Preciso cuidar mais da minha carreira, focar mais no trabalho”. Taí outra frase que nos levaram. Ouvi outro dia num episódio do Mad Man. Agora está com elas.

Bravas fêmeas, vos processarei por plágio.

É, amigo, o velho “estou confuso” não é mais exclusividade nossa. Isso me faz lembrar o Didi Mocó, zarolho em suas trapalhadas, repetindo “estou cafuso, estou cafuso!”

 “Cafuso” é pouco. O macho está mesmo perdido, no mato sem cachorro ou GPS, diante da fêmea.

Com licença, vou chorar ali as pitangas e já volto.  

Escrito por Xico Sá às 16h37

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Só quem tem amante na firma adora a segunda-feira

Bom dia, Garfields de plantão. A rede da blasfêmia está formada. A segunda-feira é o dia perfeito para soltar aqueles cães danados que tocam o terror na consciência. Com horário de verão, nossa, a felicidade está completa.

Ah, mas, não sei se você sabe, tem uma gente estranha que ama a segunda-feira: o homem ou a mulher que tem amante na firma ou na repartição. Só eles.

Eles amam este dia como os seus próprios objetos e alvos do desejo. Segunda é o dia sagrado dos amantes de escritórios, redações, bancos, editoras, almoxarifados, restaurantes, varejões Ceasas, tomate e maravilha como na canção do Arnaldo Baptista...

Depois de esperarem o sábado e o domingo, resignados ou aos coices internos no juízo, os amantes de repartições ou firmas voltam assobiando aos seus postos, mesmo nas funções mais duras e escravas, mesmo que a burocracia lhes reservem apenas o lirismo comedido antes do almoço no quilo.

As criaturas que têm amantes nas empresas seriam uma incógnita para o velho Karl Marx , cada dia mais atual com a quebradeira dos mercados: seriam a quintessência da mais-valia, uma vez que retornam felizes à labuta e assim produzem mais ainda de forma lindamente alienada?

Ou dariam prejuízo, por causa da naturalíssima distração amorosa e os beijos e amassos na escada?

Esse amor, seja que diabo for, não deixa de ser lindo, pois quebra de alguma maneira a corrente burra do trabalho e dos dias, como diria o velho Hesíodo.

Alguém se dirige ao matadouro pensando em algo mais digno do simplesmente deixar mais rica a corporação fdp. 

Porque um beijo na boca na escada, por mais que seja na firma, local do do antitesão por excelência, vale mais do que a mais rentável das ações de um homem de negócios.

Mas não vamos politizar o beijo, amigo, muito menos o desejo inadiável do amasso.

Tem aquele velho mandamento, não se esqueça: onde se ganha o pão não se come a carne. Como vemos aí na foto da decoração do Z Carniceria, bar da rua Augusta.

Ter, tem. Mas rasgue o primeiro holerite ou contracheque aquele que nunca desobedeceu essa moral bíbilica! 

Com ou sem amante, que a segundona lhe seja leve.

Escrito por Xico Sá às 02h52

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Ver mensagens anteriores

PERFIL

Xico Sá Xico Sá, 48, escritor e jornalista, colunista da Folha, é autor de “Chabadabadá – As Aventuras do Macho Perdido e da Fêmea que se Acha” e + 10 livros. Na TV, participa dos programas “Cartão Verde” (Cultura) e “Saia Justa” (GNT).


Twitter Twitter RSS

BUSCA NO BLOG


ARQUIVO


Ver mensagens anteriores
 

Copyright Folha.com. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página
em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita da Folha.com.