Xico Sá

Modos de macho, modinhas de fêmea & outros chabadabadás

 

Ninguém faz amor como uma mulher culpada

Tem coisa melhor no mundo que amor de mulher culpada?

Sim, porque como dizia o tio Nelson, até a virtude prevarica, então aproveitemos o doce amor da mulher culpada, a recompensadora, a justa, a mais honesta de todas as fêmeas do mundo.

A criatura que deseja, sobre todas as coisas, nos agradar como nunca, como se fosse a primeira vez.

Há algo como uma nova e estranha virgindade na mulher carregada de culpa.

Toda perdão do mundo às moças com olhos de arrependimento.

Nada mais digno do que uma mulher que erra e, silenciosamente, nos faz o mais generoso dos agrados na alcova.

Nada de esbravejar no encontro com a mulher culpada.

Sentindo-se pecadora, ela se torna automaticamente mais virtuosa. O delito a faz mais pura.

A culpa já é castigo suficiente para o crime.

Pelo capricho generoso da mulher que erra e volta para os nossos braços.

Detectamos ao longe uma fêmea com a forte e indisfarçável fragrância da culpa.

Não diga nada nessa hora. Você pode fazer uma besteira monumental, amigo, além de perder a melhor das recompensas, o melhor do sexo, o melhor da cama e mesa.

Não é que a mulher culpada se torne por uns dias uma submissa. Não é que adote um amelismo improvável para os dias de hoje.

Ela simplesmente nunca mais será a mesma.

Não estamos tratando, colega, do folclórico corno manso. Há mais sofisticação no sentimento de culpa do que uma mera pulada de cerca.

Nada melhora mais a cria das nossas costelas do que a culpa. A bíblica culpa no juízo.

Se Deus não está morto, há de continuar existindo a mulher culpada. Por mais que o poder feminino comande plataformas de petróleo, governe nações, discurse na ONU...

Já viram como ficam maldosamente mais bonitos os olhos negros tingidos de culpa? 

Que não nos relate nada a mulher culpada. Que guarde aquele suposto pecado para torná-la mais sexy e desejável.

Que nada nos conte. Que o marido não seja o último a saber. Que o marido não saiba nunca. Ninguém faz amor como uma mulher culpada.

Escrito por Xico Sá às 20h16

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Um olho no couvert, outro no ladrão

 

Essa gente que janta fora, um hábito paulistano por excelência, vai esquecer um pouco a onda de assaltos aos restaurantes finos, e, a partir de hoje, ficar de olho grande na lei do Couvert.

Melhor: um olho no ladrão, o outro na cestinha de pão com manteiga, digo, margarina com gosto de plástico.

Passa a vigorar a lei que proíbe o estabelecimento de empurrar, goela abaixo do cliente, sem aviso prévio, o antepasto da engorda.

É, meu jovem, levar a pequena ou a patroa para comer fora é cada vez mais um ato heroico, de provação mesmo, em São Paulo.

Todo cuidado é pouco, pombinhos. Você está ali, último romântico, a soltar umas pérolas no ouvido da moça, e, pasme, o amigo do alheio chega para estragar a noite do meu bem.

Em vez da luz da vela, um cano fumegante no cangote.

Coisas da vida, como nos sopra aqui na mesa branca o amigo Kurt Vonnegut.

A lei do Couvert, no entanto, vai fazer todo mundo esquecer que é roubado não somente na entrada. Será o assunto da noite.

Vamos fazer uma napoleônica Waterloo contra a cestinha de pão dormido. E naturalmente esquecer que o truque, a pegadinha do restaurante, está naquele molhinho agridoce que mulher adora. Como as fêmeas curtem um agridoce. Linda.

Cardápio com tal ave aquática da família dos anatídeos, aliás, não passa de uma bela homenagem ao cliente. Sim, estão nos chamando de patos.

Chama o ladrão, sai mais em conta.

O que fazer, caro Lênin?

É um olho na cestinha de pão seco, outro no ladrão e o terceiro olho no caô do chéf de grife.

Só não pode é deixar de agradar a moça.

Lembre-se que nós, empedernidos e incorrigíveis jurubebas-men, apreciamos a repetição dos lugares, das mesmas bebidas, mesmos petiscos, mesmos garçons. Amamos quando nos perguntam, solenemente, “o de sempre, amigo?”.

É um conforto para a alma envelhecida em barris de bálsamo.

Elas não. Detestam. Gostam de novidades e molhinhos diferentes.

Façamos o gosto das moças porque nada mais interessa. Só assim podemos ser o único e admissível “de sempre” da vida delas.

Na ilustração do post, dica de filmaço para ver a dois depois da saga do jantar fora.  

Escrito por Xico Sá às 10h51

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O que você me pede chorando...

 ...que eu não lhe faço sorrindo?!

Pedido de ex não se discute, cumpre-se. Ela pediu que publicasse aqui, e agora, um velho texto feito para ela. Aíí está, princesa:

Uma das maiores virtudes de uma fêmea é arte de pedir.

Como elas pedem gostoso.

Como elas são boas nisso.

Resistir, quem há de?

Um simples “posso pegar essa cadeira, moço?” vira um épico, como a cena que serviu de espoleta para esta crônica.

É o jeito de pedir, o ritmo safado da interrogação, a certeza de um “sim” estampado na covinha do sorriso.

Quantos segredos se escondem na covinha de uma mulher.

Pede que eu dou.

Pede todas as jóias da Tiffany´s, minha bonequinha de luxo!

Estou pedindo: pede!

Eu imploro, eu lhe peço todos os seus pedidos mais difíceis.

Pede a bolsa de cerejas da Louis Vuiton, pede o Iguatemy inteiro, pede Nova York.

Pede que eu compro nem que seja uma pirata no Promocenter ou no camelô da Dantas Barreto.

Não me pede nada simples, faz favor.

Já que vai pedir, que peça alto. Você merece.

Como é lindo uma mulher pedindo o impossível, o que não está ao alcance, o que não está dentro das nossas posses.

Podemos não ter onde cair morto, mas damos um jeito, um truque, um cheque sem fundos.

Até aqueles pedidos silenciosos, quando amarra a fitinha do Senhor do Bonfim ou de Nossa Senhora do Carmo no braço, são lindamente barulhentos.

Homem que é homem vira o gênio da lâmpada diante de uma mulher que pede o impossível.

Ah, quero o batom vermelho dos teus pedidos mais obscenos.

 Quero o gloss renovado de todas as vezes que me pede para fazer um pedido, assim, quase sussurrando no ouvido: “Amor, posso te pedir uma coisa? Posso mesmo?”

Um castelo na Inglaterra?

Sim, eu dou na hora.

Que o Íbis seja campeão este ano?

Sim, eu opero o milagre.

Como no pára-choque, o que você pede chorando que não faço sorrindo?!

Um papel de estrela no novo filme de Almodóvar ou do Woody Allen?

Deixa comigo que já tomo um drinque com eles e adiós.

Pede, benzinho, pede tudo.

Que eu largue a orgia, pare de beber e me regenere???

Pede, minha nega, que o amor tudo pode, por ti cumpro as promessas de todos sambas de renerados.

Que eu suba na pedreira Paulo Leminski e declame os mais lindos poemas de amor verdadeiro?

Só se for agora, estou indo.

Os melhores cremes da Lancôme? Vou a Paris agora, nem que seja a nado.

Eu lhe peço, me pede.

Não pede mimos baratos...

Pede ATENÇÃO!!!, essa mercadoria tão cara nos dias que correm.

Escrito por Xico Sá às 12h21

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Uma noite com Oscar Maroni no Bahamas

A fofolete aí acima, amigo, é aquela mesma que você está pensando. Yes, do filme Boogie Nights, do Paul T. Anderson. Uma loucura essa livre associação de ideias na hora de ilustrar o post.

Vamos em frente. Vejo agora essa condenação na Justiça do empresário Oscar Maroni, 60, o Larry Flynt brasileiro, e penso, putz, quase fui “sócio” do cara!

Por pouco, muito pouco, pouco mesmo, não fechamos o negócio. Pura falta de ousadia do então repórter investigativo -grande coisa!- que acabara de se desligar da Folha.

Assim se passaram 11 anos daquela reunião inesquecível no Bahamas, o maior parque de diversão para adultos em SP, boate de Maroni.

Mesmo antes de aceitar a proposta de novo emprego, o mr. Flynt tropical já me apresentava às garotas que frequentam a casa como se fossem minhas novas colegas de trabalho.

“Benvindo ao paraíso, meu caro”, fazia as honras.

Naquele hora entendi perfeitamente o que costumam chamar por ai, com ou sem CLT, de “salário-ambiente”.

Um gentleman, o Maroni na ocasião, mesmo. Fino trato.

A minha missão seria editar e dar furos, de reportagem, na concorrência. O homem do Bahamas acabara de adquirir os direitos de publicação no Brasil das revistas gringas Penthouse e Hustler.

O esquema era profissa. Maroni havia contratado a agência de publicidade DPZ para elaborar um plano de comunicação para o seu negócio.

A ideia era modesta: transformar o Bahamas, que teria hotel erótico temático etc, no maior complexo de entretenimento para homens do planeta.

Como se sabe, o Larry Flynt da famosa casa das meninas foi condenado, em primeira instância, por explorar mulheres e favorecer a prostituição. Pena de 11 anos. Sobrou para o cara, mas não entremos no mérito.

Na sentença, o juiz afirma que Moroni gosta muito de aparecer na mídia, como se fosse um crime de lesa-pátria.

Um amigo, que se autodenomina, ironicamente, “um consultor irresponsável”, me confessa agora, arrependido:

“Passei a primeira nota sobre ele para as colunas sociais”.

Mas foi agora durante a gestão do prefeito Kassab que o Larry de Moema mais apareceu. Os fiscais da moral e dos bons costumes quase toda semana fechavam o Bahamas.

Nisso, porém, ninguém pode acusar o Kassab de perseguidor da sacanagem de luxo. A sua equipe interditou também tudo que é inferninho em SP.

Da Tia Olga, que já foi templo dos jovens da classe média e hoje serve ao proletariado da Consolação, às casas dos playboys e grã-finos senhores da praça.

Incrível como a mais antiga profissão do mundo, hoje repaginada nas feições das surfistinhas da vida, continua sendo motivo de espanto. Que passa, amigo(a)? 

Escrito por Xico Sá às 10h43

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A favor das cheinhas e contra inibidores de apetite

Não é muito do meu agrado que o governo, qualquer governo, se intrometa no apetite de ninguém.

Que nos deixe degustar em paz a nossa moela com cerveja.

Essa decisão oficial da Anvisa de proibir alguns inibidores de apetite, porém, me agrada deveras. Por uma razão particularíssima e heterodoxa que irei explicando aos bocados.

Chega dessa obsessão pela magreza.

É o que digo e repito, como um mantra, cronicamente sem frescura: homem que é homem não sabe a diferença entre estria e celulite.

Aqui no boteco, em assembleia permanente como no governo de Mao Tsé-Tung, é o pensamento que impera na maioria dos marmanjos.

Coma, Lola, coma.

Cadê a macieza das moças? A vida já é muito osso.

Pela revolução permanente da mulher-comfort! Eis a bandeira do bom-combate.

Em outras palavras, Roberto e Erasmo Carlos disseram o mesmo: “Gosto de me encostar/ Nesse seu decote quando te abraço/ De ter onde pegar/ Nessa maciez enquanto te amasso.’’

Falando sério. Não é apenas populismo renascentista de botequim. É bom ter onde pegar mesmo.

A vida, amigo, é Matilde Mastrangi; a vida não é Gisele Bundchen.

Nós, educados sentimentalmente com a nudez das musas reais do cinema brasileiro, agradecemos.  

Escrito por Xico Sá às 14h55

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Com vocês, a mulher-Nostradamus

Sim, com vocês, por incrível que pareça, a mulher-Nostradamus. Ela existe. Apocalíptica, sempre acha que nada vai dar certo em relação aos homens. 

É o fim do mundo. É anti-Pollyana por excelência.

Mesmo quando todas as condições históricas estão dadas para o enlace. Ou pelo menos para um sexo decente.

“Sei não, está bom demais para ser verdade”, ela pensa.

Sim, posso ler daqui os seus pensamentos.

 “Não, não vou cair mais nessa, sei o tamanho de tombos do gênero,” prossegue nas suas reflexões, nervosa, nervosíssima.

Daqui a uma hora se encontrarão mais uma vez.

Ele a convidou para jantar fora. Quanto tempo alguém não a tratava com tanta distinção e classe!

Ela se sente valorizada, mas está com medo, pode ser apenas mais um truque. “Que que eu faço, Diós mio?”, bate o desespero enquanto escolhe a roupa –outro drama.

“Ele só quer sexo. Vai ficar comigo e na manhã seguinte esse telefone emudecerá de vez”, segue o pensamento nostradâmico.

Projeta o futuro no pior cenário. Sim, não à toa, baseia-se no repertório deixado por outros canalhas.

Então a amiga, a amiga mais cética, porque ela está querendo ouvir algo desencorajador mesmo.

A amiga recomenda muito pé atrás. A amiga já levou muitos tombos e, de alguma forma, é humaníssimo, sente uma certa ponta de inveja.

Falta meia hora para o novo encontro. A mulher-Nostradamus confere o cabelo e acha péssimo. Está desesperada como uma daquelas mulheres dos filmes de  Almodóvar.

 “Por que esse cara vem logo para o meu lado”?”, bate de vez a paranoia delirante.

O carro dele para na frente da casa dela. Há tempos não ouvia aquela buzina que parece tocar a mais romântica do Stevie Wonder, algo como “You Are the Sunshine of My Life”.

 A buzina chama para a vida lá fora.

“Não pode ser verdade”. Em vez de ir às nuvens, ela insiste na desconfiança enquanto aperta o T de térreo.

Entradas, drinques, o jantar está ótimo, a conversa incrível.

“Só pode ser truque”, aciona de novo todos os botões do painel da desconfiança feminina. “Não fico com ele hoje de jeito nenhum, nem me venha com esse papinho de don Juan de araque”.

Com licença, vai ao banheiro. Não resiste e resolve consultar de novo a amiga, pelo celular. Está em pânico. A amiga recomenda mais pé atrás ainda.

 “Demorei muito?”, ela pergunta.  Sim, só de telefonema foram dez minutos. Mas ele, todo afável: “Imagina, demorou quase nada”.

Sobremesa, café, a conta.

No carro, ela nota -como aprendeu com o livro “O corpo fala”- que ele a deseja, como nunca.

Em vez de corresponder, se esquiva mais ainda: “Não caio nem morta nos braços desse truqueiro”.

Era uma vez mais uma chance jogada fora da mulher-apocalíptica.

Escrito por Xico Sá às 21h02

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O AmorLeaks está no ar. Todo cuidado é pouco

É tempo de Amor-Leaks ou Amorleaks,  SexLeaks, SacanagemLeaks, RoloLeaks, PornoLeaks, Pombinhos-Leaks, Adão&EvaLeaks, como no desenho ai acima do nosso gênio de plantão R. Crumb.

Nunca foi tão fácil o denuncismo amoroso.

Seja de forma sigilosa -como nos Wikileaks e Folhaleaks da vida em relação a importantes documentos-, seja na autodenúncia, dando bandeira e marcando touca na  pracinha do interior chamada Orkut.

É por isso que este cronista deixa a sua mensagem pastoral de domingo:  acabou o namoro, o caso, o rolo, o casamento, corte relações também nas redes sociais.

Corra, Lola, corra. Continuar seguindo o moço, a moça, é tortura. Salta de banda, amigo, é roubada.

Risque meu nome do seu Facebook,  pois não suporto o inferno do nosso amor fracassado –como seria hoje a versão do clássico de Ary Barroso.

Óbvio que, humaníssimos, muitas vezes não resistimos.  O coração denunciador  não se garante.

Só uma olhadinha, tudo bem, aí nessa inocente olhadinha é que vemos a pior das desgraças.

Às vezes nem está rolando de fato algo novo com o(a) desalmado (a). Mas basta uma fotinha perdida no baile do bairro ou no Rock in Rio para que o sr. Ciúme, o maior narrador do mundo, seja em ficção ou realidade, escreva um livro mais grosso que o Guerra & Paz.  

O denuncismo amoroso não é de hoje.

“Ah uma carta anônima!”

Era a expressão mais comum, pré-Internet, quando alguém via um malfeito amoroso, como uma suposta traição, por exemplo, e não se aguentava em si.

“Ah uma carta anônima!”. E algumas criaturas de sangue quente se metiam mesmo a missivistas. Como se combatessem todas as injustiças do mundo.

Selavam o estrago. As próprias amantes tinham lá essa mania, recurso do método para botar fogo nos lares. Lambiam o envelope, saliva da vingança, com requinte.  “Estou te avisando porque sou tua amiga...” Assim postavam as maltraçadas.

No filme Amarelo Manga, de Cláudio Assis, uma mulher traída (Dira Paes) arranca no dente a orelha de uma amante(Magdale Alves)  depois de uma carta anônima assinada singelamente “tua amiga”. Muy amiga!

No ótimo “Cartas Anônimas” (Geração Editorial), livro de Fernando Vita, um dom Juan do Recôncavo, cujo pseudônimo é  “O Sedutor” , tenta,  usando também o anonimato , conquistar a jovem viúva Boneca.  A cidadezinha baiana de Todavia é incendiada com a maior troca de cartas e maldades da história.

Assim na vida real como nas artes.

E você, amigo, amiga, algo para nos contar sobre o tema?  Sim, claro que garantimos o sigilo da fonte no comentário anônimo.  

Escrito por Xico Sá às 11h37

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PERFIL

Xico Sá Xico Sá, 48, escritor e jornalista, colunista da Folha, é autor de “Chabadabadá – As Aventuras do Macho Perdido e da Fêmea que se Acha” e + 10 livros. Na TV, participa dos programas “Cartão Verde” (Cultura) e “Saia Justa” (GNT).


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