Xico Sá

Modos de macho, modinhas de fêmea & outros chabadabadás

 

1001 coisas para não fazer antes de bater as botas

Tem aquela onda de mil e um lugares pra visitar antes de partir desta para uma melhor... 1001 livros, 1001 discos, 1001 museus inúteis, 1001 galerias de arte picareta etc.

Tem também aquela do “vá ao teatro mas não me chame”. Foi o corpo redatorial do bravo “Planeta Diario”, que depois se juntaria à turma da “Casseta Popular”, que consagrou a pérola. Se não me engana a memória, se aquele cigarrinho que fumei em Cabrobó não me engana!

Então, amigos, amigas, no maior exercício épico de um blog brasileiro em todos os tempos, vamos juntos listar 1001 coisas para não fazer antes de morrer. Mesmo. Juro que só me dou por satisfeito quando atingirmos a gloriosa marca.

Este cronista dá o ponta pé inicial... e vocês prosseguem. Eis a brincadeira, minhas crianças.

Então simbora, 1001 coisas para não fazer, nem morto, antes que a velha da foice, cruel e fatal, nos ceife o destino:

1)Pagar caro para ir ao Rock in Rio ouvir a Claudia Leitte. Se fosse pelo menos o Luiz Caldas, com o seu axé-jurubeba-roots, valia a via-crucis.

2)Ver a seleção brasileira em Belém contra uma Argentina mais melancólica ainda. Melhor guardar a grana e encher a cara na maior festa sacro-profana brasileira: o Círio de Nazaré, ai sim vale a pena.

3)Ler este blog quando você poderia está lendo um ótimo livro. Exemplo: “A Última Casa de Ópio”, de Nick Tosches (Conrad editora).

4)Perder tempo vendo novela brasileira. Sem comentários. Mude para as originais mexicanas.

5)Fazer do twitter uma grande sala de tv coletiva e comentar qualquer bobagem. Já cometi tal crime, paguei mil cestas básicas e estou livre.

6)Fingir que está feliz no facebook, mesmo tendo levado o maior pé na bunda do universo.

7)Curtir ou cutucar o bofe e ou a gazela do(a) próximo(a) no mesmo facebuça, como a rede social é conhecida pelos canalhas mais ordinários do boteco.

8)Pagar uma fortuna por um pratinho de chéf de grife em SP só para voltar à sua cidade arrotando o sentido da vida. Os paulistanos metidos fazem o mesmo com os cozinheiros de fora do patropizza.

9)Comprar jornal em vez de mentir você mesmo por conta própria, como sugere a moral anarquista dos espanhóis.

10)Ler o repetitivo ressentimento de Philip Roth, macho é ressentimento, no seu mais novo livro a cada semestre.

11)Ler hipócritas dando lição de moral para o doutor Sócrates, o grecorintiano que ensinou mais sobre Democracia para os brasileiros do que todas as aulas de Educação Moral e Cívica.

12)Ler em público fazendo cara de inteligente.

13)Pagar caro em espetáculos financiados com dinheiro nuestro -Lei Rouanet etc.

14)Pagar pipoca (a R$ 23 o saco) aos artistas doCirque du Soleil, espetáculo que já teve muito usufruto do cacau público.

15)Comprar um carrão gigante e ficar pagando pau pela cidade. Qualquer cidade. 

Vamos lá, entonces, façam por mim que vos ajudarei a completar as 1001 maldições pra gente correr fora enquanto completamos essa breve passagem existencial:

Escrito por Xico Sá às 18h47

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Por que um cão cheira o rabo do outro?

 

É primavera. Hora de reler Ray Bradbury numa rede distante e, alienado da brutalidade do mundo, inventar fábulas para adultos e crianças.

Como esta, por exemplo: você sabe, amigo, por que um cachorro fareja o traseiro do outro?

Eu sei. Eu conto.

Certa vez, ali pelo começo do mundo, Deus convidou os cães para uma festa no céu. Cães de todas as partes do recém-criado universo, logo depois que Moisés inventou o jornalismo-literário ao narrar o Gênesis. 

Cães de todas as classes, cores e tamanhos. Do fiel pulguento que lambe a boca do bêbado do Largo do Glicério ao cãozinho liberal do sr. Adam Smith.  

Daqueles cachorros magros do mercado da Encruzilhada, no Recife, aos fofoletes de jardinescas madames paulistanas.  

Uma festa pra valer de todos os cachorros do mundo.   

Na chegada ao paraíso, uma placa, além do possante alto-falante babélico, avisava em todas as línguas do mundo: nobre cachorrada, favor guardar o fiofó na chapelaria.

Por ordem do asséptico Todo-Poderoso, justíssimo, nenhum cão, por mais asseado que fosse, poderia adentrar o recinto portando o seu ânus, o seu formiróide, a sua arrebitada bundinha -no caso das poderosas cadelas.

Na chapelaria, aquele mesmo malucão chapeleiro de Alice cuidava em catalogar os anéis de couro dos caninos, conforme o pedigree, pregas de classe ou pregas vulgares e sem origem.

Como não iriam precisar dos nobres cuzinhos na celebração com o Criador, todos os cães -até mesmo aquele cachorrinho chato do velho Ulysses-  acataram a ordem sem maiores choramingas.

Partes pudendas guardadas, distribuídas as cortiças para vedar as catingas do eu-profundo-animal, começou, então, a grande festa canina.

Tudo lindo, um baile divino e harmonioso...

Até que um cão selvagem começou a patifaria, a fuzarca, o funaré, a desordem.

Foi o maior risca-faca. Pense na cachorrada!

Assustado, Deus expulsou do paraíso, com raios fumegantes saídos dos seus dedos, aquelas criaturas mal-educadas.

Como quem tem cu tem medo -diz a lenda freudiana-, os cães saíram em desabalada carreira.

Naquela agonia toda, a chapelaria veio abaixo, alvoroço. Cada um dos cachorros pegou o fiofó que encontrou ali no chão dando sopa, o ânus que sobrasse, o furico possível.

O importante era não descer à terra, o planeta azul, desprovido, pois como todo mundo sabe, um fiofó por aqui, sempre faz muita falta.

Melhor um fiofó alheio, um cu postiço, contra a vontade, do que viver sem a importantíssima retaguarda para o resto da vida.

Moral da fábula, segundo a oralidade do sertão, aqui humildemente resgatada: desde aquele dia, desde aquela bagunça divina no céu, quando um cachorro encontra outro (cachorro), a primeira coisa que faz é cheirar o traseiro do semelhante.

Uma eterna e paciente busca do próprio fiofó, uma procura  que deve durar até o juízo final, século seculorum, amém.

Escrito por Xico Sá às 10h21

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Decálogo da boemia consciente e sustentável

       Para Rê Bordosa (by Angeli), minha bêbada inesquecível

"Culus bebedorum dominus non habet"

I) Não apenas por hoje, o dia sem carro. Faça como este pedestre e flâneur inveterado, se vai beber, esqueça o automóvel. E ande sempre com o endereço e o seu nome completo pendurado na correntinha do pescoço para facilitar a volta ao lar doce lar.

II) É de bom-tom sempre guardar o nome dos garçons, afinal de contas é no ombro deles que vais chorar, ao som de “Nervos de Aço”, a inevitável, acachapante e humaníssima dor de corno.  

III) Na saúde e na doença, a culpa será sempre do tira-gosto, ah, aquela calabresa, aquele torresmo, aquele caldinho, aquela moela, aquela azeitona me fez mal à beça... Jamais a culpa será da cachaça, da tequila ou do uísque. 

IV) Boemia é como futebol, exige ritmo de jogo, seqüência; se você a larga por uns dias, ela te pega na curva, te dá um caldo, uma rasteira... mesmo que peças,suplicante, de volta, a tua nova inscrição. 

V) A divisão do tempo da prosa, na mesa de um bar, deve obedecer ao seguinte critério: 50% sobre mulheres,40% sobre futebol e 10% sobre a antologia de ressacas monstruosas, a nostalgia precoce das quedas anteriores. Advertimos, porém: depois dos 45 anos a ressaca não se resume à bela inércia improdutiva -vira uma espécie de dengue existencialista, mesmo que você seja um resistente macho-jurubeba. 

VI) Procure sentar sempre nas primeiras mesas do botequim, se possível na calçada, lá colado na sarjeta, pois todos os dias, alguma mulher irada sai de casa, revoltada com o miserável consorte, e diz assim, muito resolvida: “Hoje eu vou dar para o primeiro que encontrar”. Se bem colocado, este primeiro serás tu, bravo boêmio. 

VII) Direito máximo do consumidor: desde que o freguês não se incomode com água e sabão nos pés, poderá ficar no recinto até a descida do portão de ferro. 

VIII) É livre o “pindura”, data vênia, para fregueses com mais de cinco anos de casa, como reza a lei do usucapião. 

IX) Meu bar/meu mar... É permitido nadar no seco beijando os pés das moças por debaixo das mesas. Mesmo que você, amigo, não seja um macho-tupperware, aquele macho-tupperware, aquele bêbado que a mulher guarda para comer no dia seguinte.

X) No país da impunidade, a saideira é como a lei, existe para ser desobedecida. Seu garçom faça o favor, mais uma. E nem me diga qual foi o resultado daquela pelada do São Paulo x Corinthians.

Agora é a sua vez, irmã(o) de copo e boemia, de ampliar esses mandamentos. Que outras dicas poderíamos acrescentar nesta tábua sagrada?

Escrito por Xico Sá às 11h27

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Os vira-latas humanos e o amor animal

 

Bem que eu te falei, cronicamente repetitivo, e falo mais uma vez agora, caído de saudade da Deli, que gata!

Os animais de estimação são mais importantes no amor do que supõe a nossa vã filosofia.

É comum sentir mais saudade do pobre cão do que da mulher de verdade.

Já terminei romances em que fiquei com tanta saudade da ex quanta da sua gata, cachorro e até dos ratos que roeram as nossas vestes do desejo.

Também já ocorreu de conquistar mulheres, ou pelo menos consolidar boas histórias amorosas, por demonstrar carinho e afeto com os bichanos.

Como sair de casa altas horas da madrugada para comprar a ração do felino. E de quebra, trazer um patê especial para o danado.

Sim, o amor passa pelos bichos e os seus enroscos, eu acredito.

Uma mulher que afaga e trata bem o meu cachorro, sendo que às vezes o cão vadio c´est moi mesmo, ganha pontos.

Uma mulher que brinca de “never more” com o meu corvo Edgar,  o secador profissa do futebol, minha nossa!

Uma mulher que diz sacanagens ao meu papagaio Florbé...

Uma mulher que faz um dengo no meu bode Ressaca...

Ah, convenhamos, essa mulher marca pontos importantíssimos, além de fazer o necessário na cartilha do amor mais franciscano.

Claro que essa forma de ver o amado ou a amada nos seus animais de estimação pode gerar também pequenos desastres, catástrofes nem sempre naturais.

Uma amiga do Rio, por exemplo, evitava as gracinhas do cão do seu ex sempre que ele aprontava. Chegava a ser indelicada, grosseira, como se visse naquele labrador as pisadas na bola do seu dono.

Acontece.

Afinal de contas os bichos ficam um pouco, com o tempo, com os mesmos focinhos dos seus digníssimos proprietários.

Além de tudo isso, é pelos animais que possui que se conhece mais um pouco um homem.

Sério.

O cara que cria um gato tem muito mais chance de ser um homem sensível, embora até enfrente um certo preconceito entre os seus amigos, que insinuam uma certa viadagem, baitolagem  ou perobice, para usar termos dos quais abusamos nos nossos encontros de futebol e boteco.

O homem que passeia orgulhosamente com o seu pitbull pode até não ser um monstro, mas aquela focinheira já diz um pouco do seu dono.

Não que o cão tenha alguma culpa, ele está no mundo dele. O erro é de quem o desloca e o usa para outros exercícios, como o da violência, por exemplo.

 Mas voltemos aos gatos, esses metafísicos e misteriosos animais. Como eles dizem tudo sobre o amor e sobre nós. Aproveito e deixo ai na ilustração acima a dica de um genial e barato livrinho de banca sobre as tais criaturas. Vale!

O casal briga e eles incorporam o barraco. Vão lá e quebram tudo, reviram o mocó-saló de cabeça pra baixo.

Na harmonia e no amor intenso, lá está ele, sempre aos nossos pés. Como eles adoram ver e sentir os cheiros da hora do sexo.

Eita bichanos voyeuristas. Eles se enroscam na cama depois das nossas melhores noites. Cumprimentam-nos pelo afeto e pela performance.

Um belo “miau” de parabéns, como se dissesse, a nos arranhar de leve, estão vendo como o amor pode ser renovado,  seus vira-latas?!

Escrito por Xico Sá às 21h03

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Novas dicas para jovens escribas

      

No espirro de um bom achado no sebo, deixo ai a dica de mais um livrinho fundamental para quem se interessa por um texto e uma trajetória menos quadrada -e mais delirante!- para a vida de jornalista-escritor.

Trata-se de uma lenda do jornalismo português. Lenda não, um dos maiores repórteres da história. Aí incluindo na competição o Norman Mailer dos ringues, o Hemingway das touradas e o Hunther Thompson com Las Vegas, ácido e luz na cabeça.

Um monstro, na acepção carinhosa e amiga do termo. Encarnou um personagem chamado Repórter X, o fabuloso Repórter X, e fez dessa letra mais ou menos o que Zorro fez com o seu implacável Z.

Seu nome de batismo era Reinaldo Ferreira. Viveu pouco. Trinta e sete anos. Pouco, porém naquela linha “50 anos a Mil” da biografia do Lobão escrita em parceria com o chapa Claudio Tognolli.

Ferreira nos deixou  “Memórias de um Ex-Morfinómano”, lançado no Brasil graças à Dantes editora, Rio de Janeiro, em 1999. Ainda, com alguma sorte, é possível encontrá-lo nas livrarias. Na rede nacional de sebos estante virtual, com certeza, na buena.

O repórter X tocou o seu fado na velocidade da morfina e dessa realidade enevoada descreveu como ninguém o quotidiano político e a vida das ruas.

Disfarçado de mendigo, ninja de esgotos e galerias -quando ninguém usava tal prática-, trouxe dos subterrâneos de Lisboa uma reportagem capaz de fazer corar Victor Hugo e os despossuídos.

As suas viagens no texto eram chamadas pelos fãs lisboetas de “reinaldices”. Ele dizia que estava apenas a  “reporterxizar”.

O nosso repórter X era o perfeito enviado especial ao inferno. Ponha Leonard Cohen na vitrola e leia correndo as desventuras deste gajo viciado nas dores do mundo.  

Deixei outras dicas de livros essenciais para jovens escribas aqui, no blog de treinamento da Folha. Corra Lola, corra.

Vamos compartilhar uma boa biblioteca sobre o assunto? Pingue aí também a sua sugestão nos comentários.

Escrito por Xico Sá às 02h53

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Como engordar 3kg e perder grana na Virada Esportiva

A Virada Esportiva, confesso, amigo(a), mudou a vida deste boêmio, flâneur, vira-lata, dândi da caatinga, vagabundo e sedentário.

Definitivamente, depois do espartano final de semana, sou outro.

Testemunhei, no semblante de muita gente que participou do evento, a mesma transformação mística. 

Esporte é vida. Depois de umas dez horas de truco, sinuca, pebolim, porrinha (palitinho), dominó, sou outro cara, finalmente regenerado, pronto para o amor e a família.

Saí da praça Patriarca, no centrão babilônico de SP, outro homem. Uns cento e cinquenta contos mais pobre e uns três quilos mais gordo -aprecio as modalidades que admitem apostas em dinheiro vivo, cerveja e churrasquinho de gato ao mesmo tempo.

É, como diz o meu professor de etiqueta, o gringo P.J. O´Rourke, o homem, esse animal carente e desprotegido, tem vocação atávica para a engorda e para a aposta, mesmo no mais amistoso dos encontros recreativos.

Perder na sinuca, então, é comigo. Mesmo depois de um madureza ginasial completo com o amigo Peréio, como neste vídeo e em tantas outras aulas na madruga.

Mas o bom é que aproveitei a redentora e saudável experiência esportiva do povo de SP. Antes da Virada, de forma ogra e preconceituosa, eu só me apegava ao ensinamento da filósofa Neuzinha Brizola:

“Quando me dá vontade de fazer ginástica, deito e espero passar”.

Confesso que mudei. Sedentarismo nunca mais. Valeu, seu Kassab, pela força, nunca mais serei o mesmo. Nunca fui tão humilhado no truco por desconhecidos.

Uma coisa é uma derrota paroquial, na praça de Brumadim, Little Fog para os íntimos, com os chegados. Você perde e manda todo mundo à merda. Perder para quem você nunca viu na vida é que é uma desgraça infinda. 

Ah, deixa pra lá, essas autoridades interessadas pelo esporte me comovem.

Repare no exemplo do ministro do turismo acidental, o sr.Gastão. Deixou um projeto, que tramita na Câmara, capaz de adrenalizar mais ainda este ex-sedentário cronista: o das peladas.

O nobre sarneyzista, então deputado, queria tornar o jogo de bola, prática nacional também conhecida como baba e racha, patrimônio imaterial do país.

Taí uma medida, além de inofensiva aos cofres, simpática. A revalorização da pelada ajudaria muito a melhorar a qualidade técnica do esporte.

Hoje o guri cai logo na escolinha, nada lúdica, o que, como desconfia o Tostão, pode ser um dos fatores responsáveis pela queda técnica dos boleiros atuais.

A inocente e fantasiosa pelada é a salvação do nosso futiba. Como patrimônio simbólico, então, uma dádiva.

Acabaria até com a velha desconfiança de algumas legítimas esposas de que a bendita pelada noturna entre amigos é usada como álibi para outro esporte: o pulo à cerca.

Mal sabem elas que o peladeiro contumaz sacraliza de um modo o encontro com os seus párias que acha imperdoável fazer do ato recreativo um motivo para a escapada erótica.

Ele quer mais é aproveitar todos os minutos do ritual ludopédico. Até mesmo quando está machucado, vai lá, grita na beira da quadra/campo, desafoga e não perde a cerveja e a baixaria pós-jogo.

Quanto mais canalha, mais fiel o homem é à sua pelada.

A pelada também é capaz de sublimar os mais baixos instintos de um macho.

Depois da confraria esportiva, um homem vira um cavalheiro no trânsito até mesmo diante de uma "fechada" na curva.

Um assassino profissional, já testemunhei no campo do extinto Carandiru, vira um Gandhi depois da prática futebolística.

A pelada merece a condição de patrimônio imaterial da humanidade.

E você, amigo, que outras práticas nacionais merecem o mesmo status:

O pulo à cerca? O truco? A bocha? A porrinha? O chute ao pombo? O jeitinho brasileiro?

Meu voto é óbvio e aberto: pole dance já como esporte olímpico. Além do futevôlei defendido pelo nobre parlamentar Romário. Os dois merecem tombamento imaterial do mesmo modo que o gloriosa racha.

Escrito por Xico Sá às 02h53

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

O frio miojo da solidão dominical

É o domingo que pega.

É o domingo que dói como um gol contra aos 47 do segundo tempo.

O descanso de Deus e a britadeira existencial no juízo dos homens.

O sábado é uma ilusão, como dizia o tio Nelson. O sábado é fácil.

O sábado, creio, é uma ressaca cantada de véspera.

O sábado é um embalo para corações desesperados na pista. Seja com um brega na radiola ou seja com um Sonic Youth.

Seja uma do Wilco; seja “À Janela”, do Roberto, que o DJ Guab solta no Neu Club, SP. Coisas da vida. Seja o clássico de Nelson Ned (no vídeo acima), que faltou na breguice da lista de ontem.

O sábado é uma baixaria, um sexo bêbado  e desajeitado da cabeça aos pés, do beijo ao drama do côncavo e do convexo, o famoso encaixe. Puro teatro de amadores.

O sábado é um arrependimento, um credo-cruz.

O sábado é um jantar fino entre casais –essa gente que janta, que ama jantar fora e pagar caro por um chéf qualquer de grife.

O sábado é apenas a ressaca mais óbvia que sentimos agora e nos faz odiar aquele almoço previsto para a casa da sogra –mesmo a melhor sogra do universo.

O domingo, não.

O domingo pega.

Principalmente para quem perdeu o amor há pouco tempo.

Como dói o almoço domingueiro nestas ocasiões. Nem vale um almoço. A este tipo de solidão a gente alimenta com miojo ou com a pizza gelada da tentativa amorosa que o sábado prometera e não cumpriu.

O sábado é um delivery de amor novo que não chega.

Domingo, lascou tudo, dói como aquele golzinho fanhoso que ouvimos no rádio do porteiro.

Melancólico como aquele operário que põe só os olhos pra fora na janelinha de compensado de mais um prédio em construção na Pompeia. Os olhos vermelhos de pinga e de saudade.

O domingo é um perigo. Você pode cair na fraqueza e ligar para aquela(e) ex. Que roubada. Justamente aquele(a) fdp que já está dando belas risadas na sobremesa com outro(a) vagabundo(a). Sim, eles estão pagando a conta e vão ao cinema. Agora.

O domingo é a grande prova.

Tenho amigos cuja receita é a seguinte: beber desde cedo e capotar, liquidar logo a ideia de um arrastado e tenebroso domingo.

Tudo para não chegar acordado àquela hora em que ecoa no prédio a musiquinha do Fantástico.

Claro que existem os anormais, os destemidos e saudáveis que aproveitam o dia, vão ao parque, sorriem bonito, fingem que não sentem as formigas da existência provocando invisíveis calombos do tédio e da ideia de finitude.

Claro que para os religiosos é tudo mais leve. Eliminam um pouco o mal-estar da civilização e toda aquela lengalenga da qual tratava o Dr. Sigmund.

Para os desprotegidos desses escudos, o bicho pega, o vira-lata domingueiro morde a canela.  

No começo de namoro o santo domingo consegue até ser o dia mais incrível. Óculos escuros, mãos dadas, todo mundo lindo, a única dúvida existencial é escolher o lugar do almoço.  

No fim do amor, nuestra madre, nos endomingamos tragicamente. Nos pegamos, na forma mais maluca do mundo, torcendo pelo dia seguinte.

Só dois tipos de criaturas conseguem essa maluquice de não ver a hora de chegar a segunda-feira: os que estão arrasados pelo apocalipse amoroso; os casados que têm amantes na firma.

Escrito por Xico Sá às 02h02

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Ver mensagens anteriores

PERFIL

Xico Sá Xico Sá, 48, escritor e jornalista, colunista da Folha, é autor de “Chabadabadá – As Aventuras do Macho Perdido e da Fêmea que se Acha” e + 10 livros. Na TV, participa dos programas “Cartão Verde” (Cultura) e “Saia Justa” (GNT).


Twitter Twitter RSS

BUSCA NO BLOG


ARQUIVO


Ver mensagens anteriores
 

Copyright Folha.com. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página
em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita da Folha.com.