Xico Sá

Modos de macho, modinhas de fêmea & outros chabadabadás

 

Crônica anunciada pra mulher corintiana

           

Quisera eu fosse apenas pabulagem, mas... milhares de corintianas que ouviram falar dessa crônica publicada ontem na versão impressa da Folha, lá estou gutenberguianamente toda sexta, pediram que o texto aqui eu democratizasse.

Gracias a Diós, como diria o Tevez, nunca fui tão pedido.

Então tomem, minhas simpatias quase-amores.

Aí,  simbora alvinegrinhas de mi corazón. Eis minhas pobres palavras dormidas como água de pote ou quartinha:

Amigo torcedor, amigo secador, aproveito o ensejo, os 101 anos do alvinegro de Parque São Jorge, e aqui me devoto a um tipo especial de fêmea: a mulher corintiana.

O leitor deve pensar diante do enunciado que se trata de um tremendo populismo, picaretagem, oportunismo, canalhice. Não é de todo injusto o rosário de infâmias.

Quando se trata da mulher corintiana sou uma espécie de Getúlio Vargas do amor, populista no último, por ela reconsolido as leis trabalhistas, elevo salário e estima nem que provoque um estrago no orçamento caseiro.

O amigo que um dia já caiu, por acaso, no conto desta coluna, sabe da minha condição de bígamo, perdão, trígamo ludopédico: sou Icasa, Sport e Santos. Vivi igualmente em Juazeiro, Recife e São Paulo.

Também sabe o amigo que nunca deixei de reconhecer a importância do Corinthians. É aquela coisa toda: quando o alvinegro vence o café vem mais quente e a cerveja mais gelada. Até as fachadas sujas de sombrios casarios do Glicério amanhecem sorrindo.

O que interessa, porém, é a mulher corintiana. Como Aline, a enfermeira do Ipiranga que me administra a cura via sonhos, fetiches, genéricos ou placebos.

Ela não diz “eu te amo”; ela diz simplesmente, como prova de carinho correspondente, “você é tão especial, sua alma é corintiana”.

A fêmea dessa linhagem não gosta nem mesmo de futebol, devota-se inteiramente ao seu clube. Time do coração para ela é um pleonasmo. “Time não existe, só existe o Timão”, diz a enfermeira, na moral da liderança.

Mulher corintiana também chora, mas é ela que ergue o irmão corintiano depois de um baque, depois de uma derrota. Levanta-te, Lázaro alvinegro, ela opera milagres. É o tipo da mulher que vai além do futebol de resultados.

Mais inteligente que o maloqueiro, a cria da costela de São Jorge não pede a cabeça do técnico quando o time é o primeiro da tabela. Tem juízo.

A mulher corintiana, assim como uma religiosa fiel, é a que menos aceita um forasteiro, alguém que não pertença ao bando de loucos, como seu legítimo esposo. Até para namorar, é bronca, exige todo um código de etiqueta.

Quando acontece o enlace com “alguém de outra crença” é um “O casamento de Romeu e Julieta”, como escreveu o Mário Prata, torcedor do Linense.

A corintianíssima não dissimula, olha no olho, diz na lata, nunca é meia boca, se sai para o jogo tira mesmo todos os volantes da contenção do desejo.

Escrito por Xico Sá às 02h22

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Da lama ao caos e 20 anos da revolução praieira

       

Aqui na ponte SP/Hellcife, sempre escapando de uma fria pela frente, uma breve e afetiva homenagem a um dos discos mais importantes da história do Brasil.

“Ô Josué eu nunca vi tamanha desgraça/Quanto mais miséria tem, mais urubu ameaça”.

O estrondo dos tambores, a munganga dramática da dança no palco e a denúncia do novo hino saudavam o cientista da fome, o pernambucano Josué de Castro (1908-1973), autor do clássico “Homens e caranguejos”.

E do mangue de um Recife estagnado irrompia Chico Science e Nação Zumbi com um dos discos mais importantes da história. Estamos no ano da graça de 1994. “Da Lama ao Caos” sacode a água paralisada do rock nacional como na explosão de um bueiro.

Com o mantra “Pernambuco debaixo dos pés e a mente na imensidão”, o susto da novidade correu mundo. O Brasil retomava sua pegada antropofágica que havia dado Oswald de Andrade, o Tropicalismo, os Mutantes, a poesia marginal dos 70.

Destampava-se de vez a panela da redemocratização, depois das passeatas dos caras pintadas e a aposta em novos rumos.

 “Da Lama ao Caos”, para além da surpresa estética, ainda discutia ecologia –assunto ainda raro- e profetizava sobre o que veríamos depois do entrelaçamento da música moderna com as novíssimas gambiarras tecnológicas.

“Computadores fazem arte, artistas fazem dinheiro”. O verso de Fred 04, parceiro de Science na zoada chamada mangue bit -depois conhecido como mangue beat pela mídia- era a síntese dessa profecia que subiu aos satélites na voz, na vontade e na representação do homem Chico.

É de uma modernidade lindamente assombrosa esse disco safra 94. Uma obra política, sem a obrigação do panfleto, que faz com a estética o que o economista Celso Furtado fundou com o ideário por um Nordeste que romperia com a cerca agrária e sua velha imagem.

Com a mente na imensidão, sem medo do sampler, da tecnologia e do banquete antropofágico, Chico Science e Nação Zumbi fizeram mais pela cultura brasileira do que a maioria dos radicais que tentaram livrá-la das “misturas”.

“Da Lama ao Caos” refundou a ideia de música made in Brazil no mundo e introduziu, cirurgicamente, na  cabeça da juventude do país, o chip da nova brasilidade. Tudo isso na base dos bons tratos afetivos, sem carecer das armas baixas do autoritarismo sonoro.

É, amigo, “tudo bem envenenado, bom pra eu e bom pra tu”, como dizia Science na sua poderosa loa rapeada. Ouviram do Ipiranga, ouviram do Belenzinho, ouviram do Cariri, ouviram em Oropa, França e Bahia.

E assim se passaram 20 anos, amigos, do início da segunda revolução praieira, mais conhecida, cá entre nós, como mangue bit.

E assim se passaram 17 anos, camaradas da Manguetown, do disco do "Da Lama ao Caos."

Até parece que foi ontem um cacete!

Como dizia um velho anúncio do centenário "Diário de Pernambuco", "faz uma data, cidadão!"

Escrito por Xico Sá às 12h51

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O que Dilma tem a aprender com Seu Lunga

Nunca um mimo foi tão adequado a um chefe de Estado na história desta nação tropicaliente.

Agora na sua visita a Caruaru, a presidilma recebeu do comunicador Geraldo Freire, da Rádio Jornal –“Pernambuco falando para o mundo”- , cordéis sobre a filosofia de Seu Lunga, folclorizado cartesiano cearense.

Seu Lunga, 83, dono de um ferro-velho no Cariri, é conhecido como o homem mais zangado, austero, impaciente e linha dura do Brasil.

Vizinho e amigo da minha família, na rua Santa Luzia, em Juazeiro do Norte, conheço o modo de pensar e agir do enferrujado comerciante, sempre com o rosto coberto por fuligem, lógica pura e grosseria.

O que Dilma tem a aprender com seu Lunga? Muitíssimo. Geraldo Freire, voz da experiência, sabia disso ao presenteá-la.

Não apenas a presidenta tem o que assimilar deste gênio. Qualquer político. Candidato a vereador, nos anos 90, Lunga enxotava, a vassouradas, eleitores que lhe pediam favores em troca do voto.

No auge do enfezamento, rasgava os próprios santinhos de propaganda e dizia: “Vão votar no diabo, que não tem quem dê jeito na pouca-vergonha da classe política”.

Um sábio da tosqueria.

Certo dia, meu pai testemunhou o justo momento em que ele machucou o polegar com uma marreta. O sangue espirrou longe. O velho Francisco, compadecido com a dor pesada do homem, fez cara e gesto de quem sentia muito.

No que Seu Lunga (o senhor da foto aí abaixo) reagiu: “Que porra é essa, pra que fazer essa cara se não foi com você?! A dor é minha e só eu posso sentir com ela.”

Em um dos cordéis presenteados pelo sábio Geraldo Freire à presidenta, o “Tolerância Zero”, de autoria de Ismael Gaião, outro exemplo do rei do mau-humor:

Seu Lunga tava deitado
Na cama, sem se mexer.
E um amigo idiota
Perguntou, a lhe bater:
- O senhor está dormindo?
Lunga disse: tô fingindo,
E treinando pra morrer!  

A dureza de Dilma com os políticos que recebe é cafezinho de repartição diante da filosofia-UFC de Seu Lunga. A mandatária tem muito o que aprender mesmo com este senhor. Veja algumas máximas do dono do ferro velho fã de Descartes:

“Existem três coisas que não se fazem pela metade nessa vida: sexo, favor e faxina”.

“Para viver sem guardar sentimentos ruins no peito, o homem deve ser mais grosso que papel de embrulhar prego no trato com os semelhantes”.

“Quem rouba um alfinete assalta também um palacete”.

Penso, logo existo como um Lunga.

Coitado dos interlocutores da presidenta depois dessa cartilha do Seu Lunga.

Imagina se Dilma adota respostas da escola lunguista para as perguntas dos colegas repórteres de Brasília?! 

 E você, amigo(a), conhece alguma do Seu Lunga?

Escrito por Xico Sá às 09h23

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Corvo seca geral e mira urubu da Gávea

Depois de merecido gozo de férias, o corvo Edgar, o maior agourento e secador do futebol de todos os tempos, volta a atacar na rodada desta quarta-feira do Brasileirão.

Desaparecido desde o triunfo do seu Paraguay sobre a seleção do Brasil, na Copa América, o lazarento dos umbrais ludopédicos avisa que estará hoje no estádio da Ressacada, em Floripa.

Secando o seu primo urubu do Flamengo na peleja contra o Avaí. A obsessão do maldito é evacuar sutilmente o ombro esquerdo do paletó Armani do professor Luxemburgo. Eis a sua grande arte onde e em que time o professor estiver.

Como possui o dom da ubiquidade, emitirá as suas energias negativas para todos os jogos de hoje. Confira:

Corinthians x Grêmio -a moral do corvo é secar os líderes e os mais fortes, mas excepcionamente fez uma aliança com os gaviões. Está comovido com os jogos de azar, como o carteado por exemplo, que rolam nos bastidores alvinegros -vide blog do Perrone.

Vasco x Ceará - de bigu na carroça desembestada, seca o time do heroico português.

Atlético (GO) x Coritiba - roedor do pequi goiano, seca o Coxa.

Atlético (PR) x Atlético (MG) - seca o Furacão. Frequentador do buteco do Salomão, ali na rua do Ouro, em BH, é Galo até a saideira.

Cruzeiro x Figueirense - seca a Raposa. Pelas razões acima.

São Paulo x Fluminense - no aristoclássico, seca o tricolor paulista. Fica com o gravatinha das Laranjeiras.

Botafogo x Palmeiras - Se tem um time que é a cara do corvo é o da estrela solitária. Seca o verde.

Inter x Santos - Seca o Colorado, por devoção aqui ao seu amo, fã declarado do Peixe.

E você, amigo secador, vai agourar a quem?  

Escrito por Xico Sá às 13h36

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Chega ao fim o twitter da estrada

A frase de para-choque de caminhão foi o twitter pré-Internet, como gracejei outro dia para o pessoal da ManMagazine, uma revista latino-americana especializada em caminhões.

Era tão semelhante à rede social, porém mais irônica, que uma das tiradas clássicas dizia o seguinte: "Não me siga, eu não sou novela".

Pena que já beira a extinção esta sagrada fuleragem, a legítima e única forma de filosofia nacional. O oráculo, por excelência, do macho-jurubeba.

Já era. Onde se lia aqueles belos pensamentos, lê-se hoje, no máximo, um exaltação a Jesus Cristo. 

Fazer o quê?

Só nos resta mascar o chiclete Ploc da nostalgia, essa doença senil do romantismo.

Doença, por sinal, cada vez mais precoce. Repare que já se cultua os anos 1990 como se fossem a Belle Époque.

Agora de carona, na boleia eu penso nela, já pintei no para-choque um coração e o nome dela. Dá-lhe Roberto na sua homenagem aos irmãos caminhoneiros.

Toda vez que retorno a uma boleia, aliás, me traz um conforto afetivo na marcha à ré da memória.

Motorista de caminhão, um possante Fenemê, meu pai, igualmente Francisco, me ensinava a desenvolver a leitura com aquelas frases de para-choque.

Era a filosofia avulsa da estrada. Na frente de cada veículo ou no fundo da carroceria, lá estava uma pérola do conhecimento.

“Viajo porque preciso, volto porque te amo”. Esta era um clássico e virou título do filme dos diretores Karin Ainouz e Marcelo Gomes, cujo protagonista é um geólogo-caminhoneiro. De fazer chorar o mais fossilizado dos machos-jurubebas!

Ainda sentimentalmente apegado às frases, sinto a falta delas nas peregrinações como repórter e cronista andador. Um milagre encontrar umazinha sequer.

Em recente viagem em um caminhão, com saída de Juazeiro do Norte, no sul do Ceará, e chegada à cidade de São Paulo, percebi como o “livro aberto” das rodovias está cada vez mais banguela.

Já era mesmo, acabou chorare, tá tudo limpo!

O motorista Caetano, que me deu a carona, também não abre mão das pérolas. A sua preferida é um clássico de rodagem: “Nas curvas do teu corpo, capotei meu coração”.

Espécie de precursora natural do Twitter, a “tirada” de para-choque ou carroceria sempre encontrou formas de passar a mensagem com o mínimo de caracteres possíveis, recorrendo a números, por exemplo: “80 ção! 20 ver!”

O humor prevalece, mesmo quando o assunto é a bagaceira sentimental do motorista:  “Muitos pneus cheios, mas um coração vazio”.

Poéticas ou não, há filosofia também de advertência, como esta outra clássica: “Beijo de mulher casada tem gosto de pólvora”.

Esta, há quem diga, tem a marca de Vinícius de Moraes: “Deus abençoe as mulheres bonitas, e as feias se sobrar tempo”.

Além de beirar a poética de alguns dos nossos famosos escritores, as frases, muitas vezes, não ficam nada a dever aos aforismos de filósofos como Friedrich Nietzsche. Sim, é possível filososar em “parachoquês”.

Uma das sentenças mais conhecidas na rodagem encontra a sua correspondência na cartilha do pensador alemão, como alertou o amigo cearense Paulo Mota.

Enquanto o para-choque registra  “o que não mata engorda”, o sábio bigodudo escreve “o que não mata, me fortalece”.

E você, amigo dublê de beatnik, qual a sua filosofia predileta?

Escrito por Xico Sá às 02h18

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Pede pra sair, favela-movie

Demorô, como se diz na prosódia do morro carioca. Vem ai “Totalmente Inocentes”, de Rodrigo Bittencourt, como nos informa hoje o Folhateen.

É uma paródia do chamado favela-movie, gênero consagrado aqui na taba tupy com grandes filmes como “Cidade de Deus” e “Tropa de Elite”.

Pelo que se lê, é uma bela tiração de onda com os clichês das favelosas fitas.

Assim como a nossa gloriosa fase da pornochanchada zoava com as produções de Hollywood –vide “O Bacalhau” x “O Tubarão”-, chegou a hora de parodiar mesmo o nossas grandes produções.

Aliás, melhor ainda seria que o cinema brasileiro mirasse mais o universo burguês e deixasse a favela em paz.

Nesse aspecto, que saudade do Walter Hugo Khouri e o seu pornô-freudiano, tratado geral das taras burguesas, autor do polêmico filme que ilustra este post. Salve nosso Antonioni da Móoca, que sabia filmar, mais do que ninguém, a perversidade dos ricos.

Está na hora de voltar a filmar a burguesia e seus arredores.

Chegou a hora de trocar o Jardim Ângela pelo Jardim Europa. O Beco da Facada por Casa Forte (Recife), o Conjunto Ceará pela Aldeota (Fortaleza).

Aldeia, aldeota, estão batendo na porta pra te aperrear, como canta o bravo e resistente Ednardo.

Chegou a hora de apontar a câmera para os 10% mais ricos e fazer a nossa comédia Forbes de erros.

Quem seriam os grandes narradores desse ´dogma´? A senzala que desce o morro para trabalhar na Casa-Grande. Contaria, como fábula de classes para ninar meninos e criar cuervos, as historinhas de como vivem os ricos.

O Christian Saghaard, Jéferson De, Paulo Sacramento ou Cláudio Assis fariam fitas de entortar o cabeçote, para citar apenas alguns diretores chegados.

Quem se habilita a filmar o esnobismo da Casa-Grande da nova era?

Fazer o que o homem-víbora Joel Silveira, profissão-reportér, fez ainda nos anos 40, quando exibiu, no semanário Diretrizes, de Samuel Wainer, os podres do grã-finismo de SP.

O  relato está no livro  “A Milésima Segunda Noite da Avenida Paulista” (Companhia das Letras), jornalismo do bom e do melhor:

 “Os lucros dos Matarazzo no ano passado foram de 700 milhões de cruzeiros. É muito dinheiro e com ele os Matarazzo podem fazer grandes e belas coisas. Algum dia (quem sabe?), Matarazzo fará um refeitório ventilado e claro para os seus operários.”

É isso ai. Mais Robert Altman e menos Victor Hugo e tantas sagas miseráveis. Chega de ´cosmética da fome´ e do sertão cordial.  A hora e a vez de filmar os ricos, seus luxos e suas vadiagens.

Mais tragicomédias da desigualdade e menos favela-movie.

Escrito por Xico Sá às 11h14

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PERFIL

Xico Sá Xico Sá, 48, escritor e jornalista, colunista da Folha, é autor de “Chabadabadá – As Aventuras do Macho Perdido e da Fêmea que se Acha” e + 10 livros. Na TV, participa dos programas “Cartão Verde” (Cultura) e “Saia Justa” (GNT).


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