Xico Sá

Modos de macho, modinhas de fêmea & outros chabadabadás

 

Auto-ajuda pelo método Wong Kar-Wai

Porque hoje é sábado. Dia de auto-ajuda no blog. Cada semana um recurso diferente. No capítulo anterior, vimos o método punk-brega –só a lama cura- com trilha sonora de Wander Wildner e d´Os Últimos Românticos da rua Augusta.

Sempre na tentativa de confortar os corações aflitos, chegou a vez de uma nova técnica. Levanta-te e anda, Lázaro.

Melhor, levanta e sai correndo, vaza, dispara Lázaro, corra, Lázara, corra.

Corram avulsos lazarentos nocauteados pela luta vã do amor.

O método do mestre Wong Kar-Wai funciona da seguinte maneira:

Suar o amor correndo no parque, como sugere o amigo Zed, corrida e Leonard Cohen no Ipod.

“Amor é água”, como sopra o policial em bicas do filme “Amores Expressos”, a película chapa 1994 do supracitado autor deste infalível método.

O mesmo sr. Kar-Wai do “Amor à flor da pêle”, donde os vestidos e a dança elegante da fumaça dos cigarros tinham também o poder da cura.

Voltemos ao parque.

Suar como o personagem derretendo-se em água e vapores do outro lado do mundo, como a garçonete maluquete que chacoalha juízo e esqueleto à base do som de “califórnia dreams”. (vide vídeo)

A mocinha linda e sound system, sabor gengibre, marinados corazones ao molho de ovas esfarinhadas de peixe amarelo.

Amor é água.

Suar o amor e sair voando pela janela de bicicleta ergométrica.

Suar no Ibirapuera e no parque da Água Branca.

Suar o Jaguaribe, o maior rio seco do mundo, e fugir das balas envenenadas dos pistoleiros daquele vale para sonhar com novos e mais perigosos amores.

Suar num estirão do Pina à praia de Boa Viagem, como acabei de fazer agora.

Suar de Olinda ao Janga. Suar do Leblon ao Arpoador sem distrair a vista com as bundas, assim não vale, perde o sentido da mandinga.

Suar os amores líquidos e as Guarapirangas dos amores represados.

Suar a baía de Todos os Santos e as lagoas do Mundau e dos Patos.

Suar a baía de Guanabara de amores em cardumes de peixes mortos.

Suar até fazer chover por todos os poros o amor que fica, o amor platônico e o amor de pica.

Suar o amor como um esmorecido sua com um pirão queimando os beiços.

Suar todas as glândulas amorosas; suar o amor em Teresina, com um prato de capote ao molho ou uma fina iguaria de Beth Cuscuz.

Suar, amigo, a derrama das nódoas por dentro, suar solitário no pedalinho que um dia foi amoroso na lagoa Rodrigo de Freitas.

Mas nada de suar para perder peso ou por esporte, falo suar, por enquanto, para limpar-se dos amores sem futuro.

Escrito por Xico Sá às 09h55

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Sexo selvagem com duas mocinhas em BH

Esqueço a operação vassourinha da dona Dilma, escanteio o Ricardo Teixeira e sua CBF, desconsidero a quebradeira internacional, consigo até ficar o dia inteiro sem falar sobre o clima, o tempo...

Só uma notícia interessa e comove este último  romântico. A chegada de Imbi e Kifta ao zoológico de Belo Horizonte. São duas golirinhas de 11 anos de vida. Vieram da Inglaterra.

E se neblina nos olhos do cronista, imagine a felicidade de Idi Amin, 38 de existência, que há pelo menos 27 anos não sabe o que seja o amor quentinho de uma fêmea.

Somente a solidão, essa pantera, havia sido a sua companheira inseparável.

Eis que a mão peluda do destino mudou sua vida.

O fim de semana do nosso antepassado vai ser lindo. Já escalei até o amigo Zubreu para fazer a cobertura. Sexo selvagem é isso ai, o resto são aqueles gritinhos e sussurros abafados que escuto lá em casa.

As mocinhas Imbi e Kifta vieram especialmente para tirar o nosso amigo da solidão. Parabéns aos homens de boa vontade preocupados com a abstinência deste pobre filho de Darwin.

Idi Amin nunca teve sorte no amor. Veio d´África acompanhado de Dadá. Ela morreu quando chegou no zoo de Minas.

Antes de completar 10 anos sorriu qual um King Kong com a atriz Jessica Lange na palma da mão. O motivo do brilho nos olhos era Cleópatra, bela e sensível mocinha que habitava o zôo de SP e foi transferida para BH..

Cleópatra, ô meu Deus, morreria 14 sóis e 14 luas depois de chegar à nova casa. Grandão, ainda um abestalhado adolescente, mal sentiu o cheiro da candidata a legítima esposa. Pena.

O mais louco, e que também repete a fraqueza dos marmanjos, é o motivo da transferência da dublê símia de rainha do Egito: Virgulino, o ex-marido gorila em terras paulistanas, batia muito nela, coitada.

Boa sorte na nova vida, querido Idi, agora chega de rolar no chão com aquele pneu velho que te distraia. E sem essa de discutir a relação, amigo, como fazia o King Kong com a galega gostosa do filme.

Trata com carinho as duas delicadas mocinhas que vieram de Londres.

Escrito por Xico Sá às 15h24

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A salvação do Brasil está no ladrão de galinhas

  

Ou carta aberta à querida Dilma com cópia ao meu amigo Balzac!

Chega dos escroques profissionais. Já demos muitas chances também aos ladrões de nascença, sendo ou não peemedebistas precoces de sete meses.

Chega de Valdemares nunca dantes.

Fora profissionais do ramo beneficiados pelas alianças eleitorais e pelo verbo governabilidade.

No início era a governabilidade. E quando escuto essa palavra levo a mão ao bolso, mas sempre é tarde. Já levaram o que era nosso.

Repórter de política, prometi um dia a mim mesmo: nunca escreverei essa palavra. Consegui ganhar a vida sem ela.

Cada vez que escrevemos governabilidade tem alguém pegando o nosso em algum gabinete.

É o verbo da escroqueria por excelência, como me ensinou o cara que me deu a dica sobre quase tudo. Sobre mulher, Grécia Antiga e política: Balzac. Como amo esse gordinho incrível.

Jovens repórteres, é escrever governabilidade e ouvir o trec-trec do velho taxímetro dos profissas. Por favor, vamos evitar essa palavra nos jornais e folhas.

Sejamos lacanianos, ou seja, sejamos governados pelas palavras.

E, querida Dilma, chegou a hora, e aqui na mesa branca estou com Balzac, de uma outra classe de gente sobre as asas de Brasília. Sim, eles mesmos, os ladrões de galinha seriam a redenção do país.

Diz ai, Santo Honorè, repete comigo:

O ladrão de galinha, entre os profissionais, é o homem consagrado por um hábito imemorial, pra designar esses infelizes prestidigitadores que só exercem sua habilidade sobre objetos de pouco valor.

Em todos os ofícios há uma aprendizagem; aos aprendizes só são confiadas as tarefas mais fáceis , para que não ponha tudo a perder; depois, segundo o mérito, sobem gradativamente de posto.

Os ladrões de galinha são os aprendizes da corporação a que pertencem e fazem suas experiências in anima vili.

Assim como um hipnotizador faz o treinamento de seus discípulos utilizando uma cabeça falsa coberta por uma peruca, os ladrões de galinha e os pobres batedores de carteiras exercem a sua treinabilidade num manequim pendurado por um fio.  

Treinabilidade. Vem do Titês. Sim, do glossário lógico do treinador do Corinthians. Treinabilidade: o mesmo que repetir até um dia fazer a coisa certa.

Chega de PMDB e PR, dona Dilma, é a hora e a vez dos amadores. Assim como só o amor e a Odebrecht constroem, só o amadorismo salva.

Chegou a hora do ladrão de galinha.

O pequeno roubo é, mais exatamente, o seminário onde se recruta para o crime, e os ladrões de galinha, como vemos, não passam de maus atiradores do grande exército dos profissionais sem patente.

Se o ladrão de galinha é um homem já de certa idade, nunca será grande coisa: é uma inteligência inferior , e nunca irá além de relógios, sinetes, lenços, bolsas, xales, e só terá problemas com a polícia correcional.

Eu imploro, como cidadão brasileiro e seu eleitor no derradeiro embate nas urnas: mais ladrões de galinha e menos profissas em Brasília.

Escrito por Xico Sá às 12h14

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Por que não existe mendigo careca?

Amigo, amiga, você já viu um mendigo careca?

É seguramente o assunto mais maluco e sem sentido sobre o qual já tratei. Mas como me persegue e como rende grandes embates nas távolas redondas por ai, resolvi encará-lo.

Já lancei o tema nas minhas colaborações televisivas, como Saia Justa (GNT) , Notícias MTV e Cartão Verde (TV Cultura). E nada da minha flor de obsessão capilar ter uma resposta.

Ninguém conseguiu encontrar um mendigo autenticamente careca no Brasil.

Repare que vivo na estrada. Nas últimas duas semanas liguei os faróis para prestar atenção na paisagem de calçadas, vielas, becos.

Agora mesmo estou em João Pessoa, para o festival "Agosto das Letras", rodei, rodei, rodei... nada de um careca entre os pedintes.

Mês de julho beatnickizei por Mato Grosso. Nem sinal de lustrosa testa mendigosa.

Semana passada inteira pelas ruas e pontes do Recife. Testemunhei carecas em todos os ofícios e malasartes, menos na mendicância propriamente dita.

Em SP, outro dia, pedestre convicto que sou, atravessei da Pompeia à Paulista. Necas. Consultei várias fontes, amigos. No Capão Redondo (ZS), segundo meus amigos da área, nem procure.

Os 35 primos da ZL, ali saindo de Itaquera, passando pelo Pq. São Rafael e adentrando São Miguel, também fiscalizaram. Conclusão: está difícil encontrar um mendigo careca.

É uma tremenda besteira, antropologia de varejo, mas me intriga. Como a blogosfera e o papel aceitam tudo, por que não dividir com vocês essa questão de bagatela?

Ligo para uns camaradas no Crato e em Juazeiro, a mesma resposta gonzaguiana: no Ceará não tem disso não!

A última pista que tive de um mendigo careca foi em Salvador. Houve uma perseguição medonha por parte de amigos querendo fotografá-lo. Boato falso. Era apenas um vagabundo comum de rua, desses que dormem solenemente na madruga do Mercado do Peixe.

Na rodoviária de Teófilo Othoni, jardim dos caminhos que se bifurcam de quem vem do Nordeste para São Paulo, me cantaram a bola dia desses. “Achamos”, berrou Margarida, uma prima de Salgueiro, ao telefone.

Ela mesma, minutos depois: “Que merda, era só um vendedor dessas pedras falsamente preciosas”.

O escriba Bruno Azêvedo, autor de “Breganejo Blues” entre outros clássicos modernos, está de tocaia em São Luís, quem sabe agora não encontramos.

Em Floripa escalei os amigos da revista “Naipe”. Em BH, o correspondente Zubreu está azougado. Porto Alegre aos cuidados da Glenda, encanto.

O fotográfo Tiago Santana na pauta em Fortaleza. Enfim, uma rede nacional para desvendarmos o mistério.

Afinal de contas, existe ou não mendigo careca? Como um desprovido de teto capilar e, em muitas ocasiões do passado com um pé na mendicância, me sinto à vontade para puxar aqui esse concurso.

Em um segundo momento entramos nas razões filosóficas do fenômeno. Bora primeiro desvendar a existência dos pedintes do gênero. Ajudem, mandem fotos e pistas.

Escrito por Xico Sá às 17h37

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Até que a lei do divórcio-miojo nos separem

A imagem me impressionou pelo acabrunhamento dos homens, a maioria com aquela tristeza do Jeca no semblante. As mulheres quase todas animadas para tocar a vida, mudar de cena, vamos em frente.

Estamos em Araputanga, 370 km de Cuiabá (MT), observando o primeiro mutirão de separações facilitado pela nova lei do divórcio instantâneo, mais rápido do que a fervura de um miojo. São 70 casais com renda abaixo de mil reais.

Largo a cerveja, naquele calorzão de derreter até as mais inoxidáveis convicções de um homem, e vou bisbilhotar o papo na fila do adeus dos ex-pombinhos.

Os homens continuam sérios, de uma melancolia cabocla de fazer do filme de Lars von Trier uma banal comédia de erros.

Não é que as mulheres comemorem. “Homem é acomodado e morto para muita coisa. Se não arrasto o meu ex, a gente não resolvia essa papelada nem na vida eterna”, diz Alzira (nome fictício), 38.

“Não sei pra quê esse avexamento todo de rasgar o que estava escrito entre nós. A gente não vive no céu, mas dava para ir levando”, responde o ex, José Messias, 48. Eram casados há 20 anos.

A maioria das mulheres do mutirão foi que despertou para o divórcio, alertando os marmanjos que não dava mais, que o amor acaba, que um dia chega, que seria melhor pra “nós dois”.

Aqui em SP, onde o divórcio cresceu 286% em comparação com o ano passado, também por causa da nova lei, não deve ser diferente. Mesmo dentro do consenso, é a fêmea que faz a "operação Lázaro", pra levantar o cara e resolver a situação.

É, amigo, a mulher está conquistando quase o monopólio do pé-na-bunda. De 2008 para cá, os sismógrafos conjugais do IBGE já mostraram que as fêmeas são responsáveis por 71,7% das separações não consensuais –situação em que um pombinho quer cair fora e o outro senta na margem do rio Piedra e chora.

Donde se conclui, repito, que homem é frouxo, só usa vírgula, no máximo um ponto e virgula; jamais um ponto final.

Sim, o amor acaba, mas o homem vai empurrando com a barriga de chope e acepipes.

O marmanjo pode até sair pra comprar cigarro e tragar para sempre o king size sem filtro da covardia e do sumiço. Mas não faz o acerto de contas decentemente -na maioria das vezes.

Só as mulheres têm mais coragem na hora de pingar o ponto borrado da caneta-tinteiro do amor. Não que deixem de sofrer com isso. Só não suportam a enrolação sem fim.

Pingam o ponto final com três exclamações fatais, como nas manchetes sangrentas dos jornais populares.

Escrito por Xico Sá às 19h00

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Breve manual de alpinismo social

No celebre conto “Teoria do Medalhão”, o pai aconselha o filho, o abestalhado Janjão, 21, como triunfar na vida, seja no parlamento, na magistratura, na imprensa, na lavoura, na indústria, no comércio, nas letras ou nas artes.

Entre os conselhos, como a arte da bajulação e a queda pelo foguetório da publicidade, alerta o donzelo sobre a esperteza de ter sempre na manga do paletó uma função de reserva, para o caso de não prosperar no ramo profissional desejado

 “...assim como e de boa economia guardar um pão para a velhice, assim também é de boa prática social acautelar um ofício para a hipótese d que os outros falhem, ou não indenizem suficientemente o esforço da nossa ambição,” soprou o velho para o jovem almofadinha.

O sonho maior é ser um medalhão, mas se não der, por que não tornar-se apenas um bom advogado?...

Se não der em um bom advogado, por que não ganhar a vida como um um rábula de porta-de-cadeia?

O mesmo vale nos dias de hoje nas raias da cultura, do entretenimento e da fama. Não conseguiu emplacar como um bom ator? Ora, grave um disco. Não conseguiu brilhar como cantora? Não faz mal. Tente ser apresentadora de programa infantil...

Faltou financiamento para o cinema? Bem-vindo ao jornalismo.

Baseado na teoria do conto machadiano, este escriba, que acabou nas redações por falhar seguidas vezes no concurso do Banco do Brasil -sonho de toda mãe do interior- deixa seus conselhos, ou melhor, pitacos à bagatela,  para aqueles que procuram fugir do atoleiro das obscuridades, independentemente dos ofícios que adotem:

Nome próprio – Não careces enfiar tantos ll dobrados, kk, ys e quetais, mas é bom que tenhas um batismo artístico curtinho. Em 1942, Mário de Andrade já alertava o então Fernando Tavares Sabino, que derramara no papel os primeiros contos, a cortar um dos sobrenomes. Dito e feito.

Ideias – “O melhor será não as ter absolutamente”, como diz o pai do Janjão, o mancebo citado ai acima.

Ironia – Eis o ímã para chamar inimigos e puxadores-de-tapete aos borbotões. Nem diante do espelho deves ensaiar este movimento de canto de boca, recurso inventado, segundo o pai de Janjão, por algum grego da decadência.

Frases feitas -  Abuse destas. Por que chaplinhar no lodo das locuções próprias se podemos ofertar aos ouvidos alheios sentenças consagradas, decifradas, redondas, macias e compreensíveis?

Citações – A depender do auditório. Como todo bom mineiro sabe, em terra de sapo... de cócora com ele. Em um ambiente sério e respeitoso, Shakespeare, sempre Shakespeare; entre mulheres e gays, Wilde, muito Oscar Wilde...

Importante: não te apresses a dizer o nome do feliz proprietário da frase, omita-o. Para quem sabe a autoria, não haverá nenhum pecado nisso; e aos ouvidos dos tolos, soará como uma boutade de sua mente privilegiada. Arrancarás suspiros!

Metáforas – Somente as ululantes. Abre-se uma exceção para aquelas de origem no  futebol, no ludopédio. 

Bajulação – Não te limites a acariciar os chefes, críticos e demais pessoas que possam te ajudar neste alpinismo profissional apenas com os adjetivos da submissão e da mesquinhez.

Mimos retóricos não bastam -nem mesmo quando embutem um certo jabá do erotismo e do assédio. Estas criaturas-degraus devem ser tratadas a pão de ló e caros presentes, não te envergonhes e trate-os além muito além das tuas próprias posses.

Metafísica de mulherzinha – Excelente, indispensável. Trata-se daquele discurso pseudo ou sub-Clarice Lispector, com um pouco de sub-Fernando Pessoa, com o qual, sendo tu fêmea ou não, escriba ou não, narras as tuas dúvidas e inseguranças mais comezinhas, teus lunduns telefônicos, teus queixumes de banheiro, tuas incomunicabilidades de TPM, teus eus perdidos que enchem o saco de todos os nossos outros eus.

Boa sorte na escalada!

Escrito por Xico Sá às 10h59

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O dia que meu pai contou como tinha me feito

Meu pai um dia me contou sobre o momento que tinha me feito. Ai nessa pradaria que vemos. 

Meu pai me disse, filho, te fiz em cima de uns sacos de milho, em um ano muito chovido no Nordeste, fartura.

Meu pai igualmente Francisco.

Francisco Nildemar de Menezes, FNM na sigla de nome sobrenome, como todos os irmãos dele.

FNM de fenemê, a marca de um antigo caminhão brasileiro, dai todos os meninos da casa ganharam essa sigla: Francisco Naidson de Menezes, Francisca Neuzanir de Menezes, Francisco Nelson de Menezes, Francisca Neide de Menezes e todos os outros depois.

Todos viriam a ser fenemês na vida besta.

Muito tempo depois, chego eu, mas nunca perguntei como havia sido concebido.

Mas foi lindo quando meu pai me disse. Dia desses. Temos tido longas e bonitas conversas.

Na cachaça que tomei com o velho, contou tudo, me diga.

Meu filho, tua mãe tão linda, pense no sorriso, havia suado o ano todo, plantado, roçado, naquele ano gastei meus braços, meu juízo, mas você veio ao mundo.

Meu pai me disse.

E quando você veio ao mundo, meu filho, era como se o mundo recomeçasse de novo.

Choveu.

Os açudes sangraram.

Eu lembrei, meu filho, das coxas da tua mãe me dando, perdão, eu lembrei da tua mãe me dando o presente de tu, você, tu desembrulhado, roxinho ao ver o azulzão do desamparo da existência, aqui na serra.

E tomamos uma cana grande.

Ai meu pai me disse mais e pegou na minha mão direita: vamos a um lugar adonde te banhei pela primeira vez, que um dia foi cachoeira. Bora.

Cachoeirinha do sítio Tabuleiro, Santana do Cariri, foi aqui, meu menino, ano de tanta chuva.

Depois nosso primeiro banho ao relento. Na tempestade. Minha primeira ideia de água no deserto.

Água, meu primeiro brinquedo, lágrimas que vinham de fora para dentro.

Meu pai a dizer:

-Filho, essa é a chuva!

Eu calado, alumbrado, abestalhado, como se dissesse, caladinho de tudo:

-Muito prazer, lagriminhas de Deus!

Um marzão de histórias do semi-árido, me mostrando coisas. Um dia tudo isso não será teu, meu filho, eu sei, meu velho, as coisas aqui já nasceram com donos eternos.

Escrito por Xico Sá às 16h50

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PERFIL

Xico Sá Xico Sá, 48, escritor e jornalista, colunista da Folha, é autor de “Chabadabadá – As Aventuras do Macho Perdido e da Fêmea que se Acha” e + 10 livros. Na TV, participa dos programas “Cartão Verde” (Cultura) e “Saia Justa” (GNT).


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