Xico Sá

Modos de macho, modinhas de fêmea & outros chabadabadás

 

Auto-ajuda pelo método punk-brega

O mantra é esse, pombinhos desgarrados e estraçalhados pelas agruras do amor: “Só o caminho do excesso conduz ao palácio da sabedoria”. Assina que é o verso é teu, velho William Blake, bardo que viveu em Londres de 1757 a 1827). 

Ou seja, numa livre tradução para a nossa baixaria de vida de hoje: SÓ A LAMA CURA!

Seu guarda, eu não sou vagabundo, sou um cara carente, estirado aqui na praça Roosevelt ou na pracinha do Diário, com o meu próprio teatro do absurdo no bolso, pensando nela!

Seu guarda, acabei de chorar lágrimas caubói no porão com Wander Wildner, que cantava as suas dores de trovador punk brega.

O velho Wanderlei agora integrante da banda "Os ultimos românticos da rua Augusta", decente grupo de folk-fossa. Por sinal tem concerto dos caras hoje na Casa do Mancha, SP(vide roteiros da praça).

Repita comigo: SÓ A LAMA CURA!

Leve a sua dor para as ruas, seus bares/seus mares, nade com ela no seco por debaixo das mesas, exponha-se, seja a vitrine de suas próprias escoriações, não se envergonhe, molhe o ombro do garçom amigo, derrame uma para o santo e entorne a próxima bagaceira com gosto de sangue e luto.

Se a vida dói, drinque caubói.

Wander Wildner, o que nossa dor idiota vai ser quando crescer? Rato de porão, rato de porão.

Cubra-se do negro do luto e qual um espadachim caricato leve a sua dor para um rolê nos subterrâneos da cidade. Quando estiver bem torto, ria da sua dor como um bêbado se diverte com a sua própria sombra em farrapos.

Auto-ajuda punk-brega: não glamourize tanto a sua dor, tire onda, o amor é assim mesmo, sossega que o leão é manso.

Como me disse um dia, no Robertão 70, botequim ali perto do Parque 13 de Maio, Recife, o amigo Evaldo, citando o Pitigrilli, o esquema é o seguinte: o amor é um beijo,dois beijos, três beijos, quatro beijos, cinco beijos... cinco beijos, quatro beijos, três beijos, dois beijos, um beijo...

E fim, e pril, e pronto, sobem os créditos do que era doce, acabou-se, the end.

Escrito por Xico Sá às 14h37

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Uma etiqueta moderna para uso de algemas

Mais do que o escândalo em si, o que incomoda uma autoridade, pertença ela a escroqueria profissional ou amadora, é o uso de algemas.

Foi a grita agora no caso no check-out forçado pela PF que atingiu o alto escalão do Ministério do Turismo.

Todo mundo chiou, Dilma mandou apurar o incômodo, o ministro da Justiça entrou em parafuso...

Enfim, a algema (do árabe al-djamia, pulseira), tendência das quatro estações entre o populacho que viaja de camburão, é considerada muito deselegante em Brasília.

Inadmissível no código de etiqueta do subchefe-de-gabinete para cima. Nada fashion.

As súmulas jurídicas, inclusive do STF, recomendam o bom-tom no uso da algema. Não deve ser utilizada como um simples acessório, quase uma modinha popular de magazine.

O uso deve ser restrito a momentos em que o preso conduzido ameace fuga ou a vida de alguém, por exemplo.

A pulseira, nada VIP, é o que pega. Mais do que a repercussão do bas-fond político e a perda da boquinha partidária.

Lembro de PC Farias, então inimigo público número 1 do país, mais encucado e paranoico com a possibilidade do uso da algema prateada do que com a queda do governo do qual era sócio.

Nos porões da polícia de Imigração em Bancoc, Tailândia, confessou a este repórter que seguia o seu rastro, em 1993: “É uma deselegância, humilhante, não admito”.

Ser deportado e preso era o de menos. Com boas relações com a PF, o chefão embarcou para o Brasil apenas com o Rolex brilhando no pulso esquerdo e o uísque duplo 25 anos, igualmente dourado, balançando no lado direito. 

Como nem toda autoridade consegue se livrar do acessório, principalmente em casos de flagrante delito, a boa alfaiataria, os Armanis da vida, deveriam confeccionar ternos com a possibilidade de esconder melhor a incômoda pulseira.

Mangas mais longas e frouxas, frufrus, fardões de academia, bicos, babados rococós, talvez. Nada que um bom estilista não faça um truque para a próxima temporada da moda masculina.

Quem você acha, amigo, que poderiam ser os nossos modelos políticos para os singelos trajes aqui sugeridos?

O que não pode é essa humilhação, essa deselegância de uma PF que não leva em conta a etiqueta de Brasília.

Escrito por Xico Sá às 10h09

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Dia de festejar o seu garçom predileto

E o viciado em datas, com a sua síndrome de almanaque Capivarol, ataca novamente. Mas desta vez o motivo é mais que nobre. Dia de parabenizar aquele que nos serve o ano inteiro: o garçom amigo.

Também é dia do pindura dos jovens e futuros advogados. Data vênia.

Seu garçom faça o favor,você mereces. Mesmo que a maioria dos respeitáveis estabelecimentos continuem teimando em não repassar os seus sagrados 10%. 

Seu garçom faça o favor, hoje eu lhe sirvo de bandeja e tomo consigo a saideira. Hoje eu sou seu analista, fala que eu escuto, desabafa sobre aquela moça que deixaste em Reriutaba(CE), terra que mais exporta garçons no Nordeste.

Em nome de Ailton, motivo da crônica que segue, aproveito para parabenizar a categoria inteira. Da Mercearia São Pedro, aqui na Vila Madalena, ao bar do Léo, em São Luís do Maranhão. Do bar Central, no Recife, ao Lady Laura, cabaré lá do Crato.

Sim, Ailton (na fotinha acima, atualmente no bar Genial,SP) não é apenas um bom garçom, o que já é muito para a humanidade. O cara é especial. Criatura abençoada. Especialíssimo. Do tipo que cria laços de estima e consideração com os fregueses.

Do tipo que ouve, aconselha, amansa os traídos, acalma as mulheres de bêbados infiéis, bota ordem na casa, devolve uma certa paz ao universo.

Melhor ainda, Ailton é do tempo em que garçom sempre sabia o resultado do futebol. Do tempo em que torresmo não fazia mal, do tempo em que os homens não tinham medo da sorte nem do colesterol.

Toda essa “sabença”, como ele trata a  soma de sabedoria com experiência, é servida de bandeja à freguesia. 

No boteco, ele é tudo ao mesmo tempo: sócio-proprietário, caixa, segurança e DJ -e só toca vinilzão de samba antigo.

“Oh, minha romântica senhora tentação/ não deixes que eu venha sucumbir/ neste vendaval de paixão”. Essa toca até furar o disco. Principalmente quando tem alguém chorando as pitangas amorosas.

Entre tantas serventias, esse negócio de amor e dor é com ele mesmo. É mestre, rima e solução da parada.

Eu mesmo já fui perdidas vezes consolado pelo cara. Dor de corno, daquelas que não passam com cachaça ou aspirina, é com ele mesmo. Vai no ponto, na veia, um neurocirurgião do amor.

Primeiro o afago, a compreensão e o ouvido ao alcance do freguês. No fundo musical, põe logo o vinilzão com “Peito Vazio”, de Cartola -`Procuro afogar no álcool a tua lembrança/ mas noto que é ridícula a minha vingança...”

Dois, três conselhos depois a gente está pronto para outra, digo, outro chifre.

Numa dessas sessões “macho em crise”, Ailton me deu uma dica fundamental.

Notou, sensível que é, a minha dificuldade em descolar uma nova costela, uma nova deusa para enfeitar o meu pobre muquifo em desalinho.

Aí veio a dica importantíssima. Simples, simples de tudo, até boba, mas de uma sabedoria e tanto. Uma beleza de estratégia.

“Seguinte, meu amigo, chega de saudade... Senta aqui, nessa primeira cadeira do boteco, que a vida vai sorrir pra ti de novo”, disse, arrumando uma mesa bem na calçada, quase na rua, de frente para o crime.

Sem deixar a peteca cair, emendou:

“Ora, compadre, todo dia tem uma mulher que sai para o bar, revoltada, muito revoltada, e diz para ela mesma: ´Hoje eu vou dar pro primeiro que encontrar pela frente!”

Desde então procuro sempre ser esse “primeiro” homem estrategicamente bem localizado que pode tirar proveito, com toda delicadeza desse mundo, da fúria justa e caseira de uma mulher injustiçada. 

E você ai, amigo, amiga, o que aprendeu de bom com o homem da bandeja? Para quem deixa agora a sua homenagem nesta data querida? 

É, meu caro, garçom é como filho, por mais que a gente diga que gosta igualmente de todos, sempre tem um da nossa secreta preferência.

Escrito por Xico Sá às 00h31

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Singela homenagem a Jorge Amado, 99,100

 

Pendores exageradamente graciliánicos me fizeram demorar a gostar de Jorge Amado. Que erro. Primeiro porque um não exclui o outro. Segundo porque eram os melhores amigos.

Assim na literatura como na militância comunista.

Mas como hoje em dia eu aprecio este homem.

Como escrevia fácil e sem frescura literária o marido de dona Zélia. Como sabia contar uma história com cheiro de dendê e coentro.

Há também um cheiro de cominho a cada página. Que me desculpe aí seu Proustizinho, mas a escrita de Jorge é a mais cheirosa do universo.

Dá vontade de agarrar a nega na cozinha, quando o tempero da comida sobe, saborear-te, como no trocadilho que domina a culinária de Dona Flor, aquela peste capaz de endoidar o cabeçote de qualquer sujeito.

Como era gostosa no papel, mesmo antes de ser Sônia Braga nas telas.

E como é delícia agarrar uma mulher que a gente ama por trás na cozinha o tempero subindo nos ares. Dá aquela encoxada, experimentar o caldinho que amolece o peixe, tomar uma cachaça e dizer pro horizonte, de modo que o pescador escute, “que vidinha mais ou menos me deste, Deus”.

Como o camarada Jorge botou, como nenhum um outro escritor brasileiro, sexo na nossa prosa.

Como brincou também de entretenimento, coisa que muito falta na nossa escrita, segundo reclamou um dia, cheio da razão, o sábio crítico e poeta José Paulo Paes.

É, meu velho e bom Jorge, nunca esquecerei teu olho molhado de amor olhando pra Zélia, quando me recebeste para uma entrevista na tua casa, finalzinho dos ditos anos 80. Piscou pra mim e disse: “Se for amor, assenta a poeira e demora”.

Só agora eu entendo disso. Acho.

Como escrevi hoje para o Correio da tua Bahia, Jorge, só existem dois tipos de homens, amigo, os Vadinhos e os Teodoros.

Ou se é um ou se é o outro.

O primeiro não presta, mas derrete o coração das mulheres com a sua canalhice; o segundo é um cabra direito, virtuoso, o objeto de desejo de uma fêmea quando está sofrendo, no dia-a-dia do lar, com um macho desmantelado.

Os dois se completam. Os Vadinhos jogam, bebem e são raparigueiros, piolhos de cabarés, só voltam para casa quando fecha a última barraca do mercado do Peixe, o único mercado à prova de crash.

Os Teodoros não deixam faltar nada em casa, homens corretos, responsáveis, cumpridores dos seus deveres.

Como de besta não tinha nada, Dona Flor, por força da quentura do corpo e de alguma espiritualidade, conseguiu o milagre de viver com os dois maridos ao mesmo tempo, o safado e o virtuoso. Ô morena gulosa.

Mas fez por merecer em vida o banquete, a moqueca de macho fervida no óleo da testosterona. 

Fora dos livros e do cinema, pode ser que o esquema não funcione a contento, mas Jorge Amado realizou o desejo secreto das  mulheres, aquela vontade guardada lá no fundo do pote do juízo.

Grande Jorge, o homem que inventou a ideia de Brasil para os estrangeiros e também para os nativos que o desconhecem. Grande.

Hoje é dia de Jorge, dia de tomar uma com o mulato Porciúncula, aquele dos olhos sempre em brasa de tanta cachaça. Dia de imitar o Quincas Berro D´Água. Dia de lembrar a Gabriela, a do livro, da novela ou do filme, trepando no telhado, rumo à cumeeira do gozo imaginado.

Dia da pureza e da safadeza de Jorge.

Hoje começa o ano do centenário de nascimento do marido de dona Zélia.

Que amor lindo e eterno viveram os dois. Uma lição pra esse povo todo que vive se estranhando.

O menino grapiúna faria agorinha mesmo 99 anos de vida. Faria não, fez, está vivinho e aceso nas Tietas que vão e voltam, está vivinho na sua profecia social dos Capitães de Areia, hoje zumbis perdidos na fumaça azulada do crack.

Jorge vive no suado bate-coxa das negras de todas as cores que descem e sobem ladeiras. Ele inventou, entre nós, esse vício bom danado de gostar tanto das moças. Docemente morrerei disso.

Escrito por Xico Sá às 13h43

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Sobre sexo anal e armas de fogo -I

Este post é dedicado a Moema Cavalcanti, a maior capista de livros do Brasil, que sempre me conta boas histórias

Tudo que você queria saber sobre sexo anal e tinha vergonha, cult que é, de achar que estava apenas repercutindo o caso Sandy-Playboy.

Sandy, a perva, como se diz em Campinas e região.

A perva que negociou uma cota de (humaníssima) safadeza com uma marca de cerva. Legítimo. Bestas somos nós: safados de fato e de graça.

O efeito Sandy. Depois dela, a trindade caipira “Cerva, perva e erva” é o novo "sexo, drogas e rock´n´roll" deste eterno faroeste caboclo.

Chega. Sossego pra mocinha. Eu também tenho irmãs interioranas e sei que não é bom mexer com elas desse jeito. A família fica constrangida.

Aqui no blog do amor verdadeiro sexo anal é um tema sério, pseudo-intelectualizado, óbvio, lírico, não é nada disso que você está pensando.

Falemos de sexo anal, porque o oral, barroco e labiríntico que é, fala por si mesmo.

Anotem, irmãozinhos(as), algumas coisas sagradas, outras um tanto quanto folclóricas -mesmo assim verdadeiras- sobre o delicado tema:

1) Sexo anal não se pede, não se roga. É merecimento. Ponto.

2) No Brasil dito profundo, segundo Câmara Cascudo, era prerrogativa católica de virgens, não de mulheres bulidas. (in “Superstição no Brasil”, Global editora).

3) O sociólogo Gilberto Freyre, outro grande no assunto, confessou ter feito como experiência antropológica. Válido. Por coincidência, na mesma supracitada Playboy, GF escreveu um dos melhores ensaios sobre bunda de todos os tempos, na edição de número 113, de dezembro/1984, sob o título de "Uma paixão nacional".

Eu tenho o raro exemplar, porém não se animem, colecionadores: é tão inegociável quanto a tal prática de retaguarda heterodoxa para uma senhora da Liga Católica.

4) Jorge Amado, que completaria 99 anos amanhã, pôs, de forma natural e sem susto, a modalidade em todas as belas safadezas dos seus livros. Gênio!

5)  A destemida Marta Suplicy, fino trato da boa burguesia paulistana, audaz como poucas da sua classe, aconselhou tal prática às donas de casa ainda no “TV Mulher” (TV Globo, anos 1980). Será que a vanguardista passaria hoje no crivo do novo manual de procedimento das Organizações Roberto Marinho?

6) Para o escritor e folclorista pernambucano Liêdo Maranhão, meu ídolo, tem duas coisas com as quais não se brincam, de jeito algum, na existência: cu e arma de fogo.

Teria dito a célebre frase, um clássico recifense, quando a mulher lhe negou,  depois de juramentada promessa, o referido tipo de sexo. O casal  havia feito um acordo momesco. Liêdo não brincaria o carnaval e, pelo bom comportamento, seria recompensado na Quarta-Feira de Cinzas. Diante do descumprimento do trato, o nosso amigo sapecou o mantra acima.

Ele estava cheio de razão, afinal de contas cumpriu, por toda uma vida, a lição nº 1: sexo anal não se pede, por mais que haja intimidade. É merecimento. Quem mandou ela fazer a graça do acordo!?

Escrito por Xico Sá às 00h39

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Viver é perigoso, caminhar em SP mais ainda

Esta imagem clássica dos Beatles seria impossível hoje na cidade de SP. Mesmo no dia em que, finalmente, resolveram punir os brutamontes ao volante. Claro, Kassab também mandaria tirar o cigarro na mão do Paul McCartney.

Pedestre inveterado e envelhecido em barris de Joaozinho Caminhador, saí às ruas, nesta segunda-feira, crente não na boa fé dos motoristas, mas apostando na força da multa que dói no bolso e educa na marra os viciados em automóvel.

Qual o quê! Um passeio pela alma encantadora das ruas custa quase sempre o corpinho gasto do cronista. 

Música, maestro Scowa e sua Máfia: "Alvos móveis, atropelamento e fuga!"

A caminho do barbeiro –sim, os carecas também precisam dar um tapa no telhado com uma máquina 01- o primeiro susto. Um todo-orgulhoso portador de um desses jipes modernos avança sobre a faixa e quase me joga direto na cadeira da barbearia, ali na alameda Santos quase esquina da Consolação.

Jipes modernos de alguém supostamente ecológico, com um baita adesivo "SOS Mata Atlântica".

Quem manda acreditar, já de cara, que os donos desses carrões iriam ficar bonzinhos de uma hora para outra. Sim, tiveram um tempão de sobreaviso.

Pior é que quanto mais possante o veículo mais arrogante o condutor do mesmo. Pesquisa particularíssima feita em várias cidades do país, de SP a Jualina -a metrópole sertaneja formada por Juazeiro e Petrolina, na beira do velho Chico.

Susto número 2. Na esquina da Matias Aires com a Augusta, opa, passa por cima, seu fela!

Quase o susto de sempre, mesmo estando ligado por dois cafés duplos. Nego faz a manobra brusca que quiser e o pedestre que se vire para adivinhar se pode ou não pode arriscar a travessia, mesmo com sinal favorável e a suposta proteção da faixa.

Lá na boca do túnel,  quando a Augusta vira Martins Fontes a caminho do centrão, pior ainda. A segunda sem lei continua. A mesma ditadura das quatro rodas de sempre. O caminhador que se dane, mesmo sob ameaça da multa dos guardas da CET.

E o tempo do bonequinho verde do pedestre em alguns cruzamentos? Dois tões de minuto. É semáforo para campeão de cem metros rasos, chama o Bolt, amigo!

Mas espero que a força da caneta dos guardinhas, embora a própria prefeitura admita não ter gente suficiente para fazer o serviço, ajude a educar o motorista paulistano, um dos piores do país.

A sorte do pedestre, estranhamente, é que a velocidade média dos carrões de hoje em SP é equivalente à marcha lenta dos cabriolés do século XIX. (Sample com a voz do Maluf, autor real da frase: “Trânsito é sinal de progresso”).

Os motoboys, que andam mais rapidinhos e nos pegam entre um automóvel e outro, também ainda não foram avisados das novas regras da CET. Salve-se quem puder.

Diz a pesquisa da companhia de trânsito: 90% desrespeitam a gente que caminha na Pauliceia. Mais sério do que qualquer escândalo nacional, essa maluquice mata, em média, dois pedestres por dia.

O mais maluco, nessa terra tropicaliente de contrastes, é que apenas em Brasília, símbolo-mor da corrupção política, há respeito nas vias públicas. Lá, esteja o farol verde ou não, basta estar na faixa. O motorista respeita e dá passagem.  

Essa lenga-lenga toda me faz sempre lembrar de uma imagem de Ignácio Loyola Brandão, no livraço “O Verde Violentou o Muro” (1984), quando narra a cena de um senhor alemão parando educadamente o seu carro para um solitário punk atravessar uma rua de Berlin.

Vamos em frente, sempre no ritmo daquela canção do Lou Reed... Take a walk on the wild side.

Escrito por Xico Sá às 11h36

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Sexo obrigatório na hora do Fantástico

Rua da Consolação, 15h10, SP. O motorista do TX salta do nada, naquele cardápio louco de assuntos típico dos profissionais do volantes, e fala sobre o sexo caseiro e obrigatório.

Deu pena do tio. “Mesmo sendo um taxista”, como diz o amigo Pereio. Entediado, ele falava, repito, sobre o sexo domingueiro e obrigatório, como no seu caso:

 “Rapaz, quando escuto aquela musiquinha do Fantástico me arrepio todo. É a hora que a mulher começa a se enroscar e eu tenho que mostrar para que vim ao mundo. Pior é que ela só dia de hoje, domingo”.

A confissão do senhor da bandeira 2, na sua prosódia baiana –baiana da Bahia mesmo porque os nove estados nordestinos têm sotaques radicalmente diferentes- deixou este desobrigado cronista comovido.

“Sorte têm esses daí, que já se livraram das agonias da vida”, disse o homem do volante, de nome Expedito, apontando para o outro lado do muro, o silêncio do cemitério.

Converse com ela, talvez ela entenda e tire essa obrigatoriedade da domingueira. Aconselhei o taxista, cavalheiro com os seus quase 60 anos de idade.

“Tá doido, amigo, para ela é sagrado, não tem essa de discussão de casal em novela. Não posso nem pensar em mudar certas coisas tradicionais lá em casa”, rebateu o motorista.

Desci do carro pensando no sacrifício do cara. Pelo menos tem agora essa química a serviço da vida contra a disfunção erétil etc. Tomara que ele faça bom uso.   

A agonia do homem do TX me lembrou uma história que me contou outro baiano, o Tom Zé.

O caso de um rapaz, seu contemporâneo e conterrâneo de Irará, que teimava em desmentir os prazeres carnais:

“Naquele tempo, todo mundo tecendo loas à primeira vez, às primeiras transas, e aí vem Zé Pequeno, com uma sinceridade danada, e diz que comer moça num é lá essas coisas todas!”

A agonia de Zé Pequeno –um dos apelidos mais comuns do interior do Brasil- foi passageira, lembra o autor de “Eu sofro de Juventude”. Que bueno.

Não era assim uma repulsa ao sexo, como no filme homônimo do Polansky.

Enquanto escrevo aqui, no entanto, não me esqueço da agonia do taxista. Agora mesmo ele deve estar encostando o carro na garagem. Daqui a pouco ouvirá a musiquinha do Fantástico.

Quantas mulheres também não passam por isso. Acontece nas melhores famílias de Itaquera, caso do motorista, e de Londres.

Boa sorte, seu Expedito, que o santo xará te proteja nessa justa causa!

Escrito por Xico Sá às 19h31

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PERFIL

Xico Sá Xico Sá, 48, escritor e jornalista, colunista da Folha, é autor de “Chabadabadá – As Aventuras do Macho Perdido e da Fêmea que se Acha” e + 10 livros. Na TV, participa dos programas “Cartão Verde” (Cultura) e “Saia Justa” (GNT).


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