Xico Sá

Modos de macho, modinhas de fêmea & outros chabadabadás

 

O dia em que virei um homem invisível na Paulista

Passa boi, passa boiada, e ninguém olha pra você. Ninguém reconhece, ninguém fala, você não existe. Você é apenas uma mão esticada na multidão. Uma mão rejeitada.

Ponha lá a Gisele Bündchen,uma Naomi Campbell, uma Jolie e  ninguém reconhecerá as beldades. Ponha lá um Santoro, um Brad Pitt... e nenhuma moça dará gritinhos umedecidos.

Lá, nenhuma gazela pára o comércio, nenhum astro incomoda o trânsito.

Fui às ruas de SP para sentir na pele o desprezo por quem exerce um dos piores e mais ordinários ofícios da humanidade: o distribuidor de panfletos ou santinhos de propaganda.

A primeira sensação: você atinge a invisibilidade total, desintegra, escafede, como se tivesse tomado chá de vidro da desimportância.

E o mais ingrato foi não ser notado por ela. Suspiros. Ela, minha Carmencita com quem acabara de viver um affair curto, porém intenso.

Se vocês, finas flores, reclamam de atenção e telefonema do dia seguinte, imaginem o silêncio dela, cortante como o frio gelado de seis graus naquela manhã na Paulista.   

A fofa até pegou o panfleto que eu distribuía –“Rosa de Ogum, trago o seu amor de volta em três dias”.

Pegou, mas nem viu a sombra do meu rosto diluído na massa.

Não disse sequer um “ola, que tal?!’, um “oi” sem graça, um muxoxo, um zumbido raivoso de abelha rainha. Fiquei a mascar o jiló do desprezo. Ela passou na sua marcha elegante para os braços de um outro vagabundo qualquer. Suspeito.

Os melhores amigos também nos desconhecem nessas ocasiões. Na mesma esquina da Paulista com Augusta, passaram pelo menos dez camaradas, em um intervalo de quatro horas, que nem ensaiaram um bom dia.

Só me restava pedir à milagrosa Rosa de Ogum que trouxesse meu rosto de volta. Eu sei, não sou assim esse Marlon Brando todo, mas é um rosto. Carcomido pela maresia do tempo, porém um rosto.

Madame Rosa de Ogum prometia curar todos os males do mundo no seu anúncio:

“Se você está com problemas na sua vida, desânimo, doenças, impotência sexual, dores de amores e corações partidos, lares desmoronados, casamento em ruínas,  falta de dinheiro, filhos problemáticos, inimigos ocultos, falsos amigos...”

E será que o dinheiro compensa aqueles momentos de invisibilidade? Paga-se entre R$ 15 e R$ 25 reais (casos raros) por dia para um distribuidor desses papéis avulsos.

Rosilene Gomes, 19, suburbano coração de fechar camelódromo, acha uma moleza, serviço ótimo. “E nem preciso gastar batom, pois ninguém vai se enxerir para mim mesmo”, conversa, enquanto distribui, ao meu lado, a sua propaganda: ”Seja um detetive profissional –desperte a garra que existe em você”.

Uma experiência radical sobre o tema foi vivida pelo bravo psicólogo Fernando Braga da Costa. Durante oito anos, enquanto estudava na USP, trabalhava um período do dia como gari no campus.

Como aluno era celebrado pelos colegas e professores, mas estes mesmos amigos não o avistavam ali frente da faculdade de Psicologia com uma vassoura na mão. A sua história deu tese de mestrado e o livro “Homens Invisíveis –relatos de uma humilhação social” (editora Globo).

Ser um homem invisível na multidão nem me doeu tanto. O que pegou foi o desprezo da ex. Não resisti. Liguei para a desalmada. Ela riu da história. E como se não bastasse o desconhecimento na rua, se despediu, ao telefone, com a pior e mais furada das promessas da metrópole: “A gente se vê!”

Escrito por Xico Sá às 17h53

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Mirem-se no exemplo da greve de sexo

Contra a lerdeza ou a falta de audácia dos seus maridos, greve de sexo neles. Na Colômbia, historicamente sempre foi uma grande arma.

Agora mesmo, lá em Barbacoas, no sul do país, o mulherio adotou a operação “pernas cruzadas”. Nada de amorzinho gostoso até que as autoridades criem vergonha na cara e ajeitem uma rodovia criminosa que corta aquele “pueblo”.

É uma forma de pressionar os seus homens, que não se bolem, não agitam, não cobram o governo. Tudo fica por conta da força do gogó delas.

A região, encostada ao Oceano Pacífico, é conhecida como uma das mais calientes em matéria de sexo da América Latina. Não é lenda. Já estive por lá, a trabalho, gastando o meu portunhol selvagem.

Está na hora, e aqui solto o meu panfleto de todas as sextas, das mulheres de algumas regiões do Brasil adotarem essa prática.

Uma medida das mais velhas, que só renasce agora na Colômbia. A matriz da história está na Grécia Antiga. Mirem-se, sempre, no exemplo dessas mulheres.

Na peça “Lisístrata ou a Greve do Sexo”, escrita por Aristófanes, vemos como as fêmeas de Esparta, Atenas, Corinto e Beócia cruzaram as pernas pra forçar um acordo de paz em uma guerra que já durava duas décadas.

Se a abstinência sexual foi capaz de parar uma guerra, aqui no mundo tropicaliente é capaz de parar até construção da usina de Belo Monte.

É capaz de fazer esses machos viciadinhos em automóveis deixarem seus possantes em casa para fazer  SP andar de novo. É capaz de fazer a gente esquecer aquele maldito mantra malufista: “Trânsito é progresso”.

Cruzando as pernas, as moças podem derrubar e nomear ministros na velocidade da luz.

Mirem-se em outro belo exemplo da Colômbia. Agora estamos na cidade de Pereira, há cinco anos atrás uma das mais violentas da área.

Cansadas da matança, naquela terra de bom café e sangrentos pistoleiros, as mulheres decidiram: sexo agora só quando os machões disserem adeus às armas.

Dito e feito. Quando viram que era para valer a greve, os homens amoleceram. A violência caiu quase a zero.

E você aí, estimada leitora, por que causa cívica deixaria os marmanjos em um jejum digno de uma quaresma? 

Escrito por Xico Sá às 15h32

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Dilma, a faxineira

Da série O Lacan de botequim ataca novamente!

Fosse eu uma combativa feminista, já teria acusado mídia e classe política por insistir em tratar a Dilma Rousseff como faxineira, diarista, não como presidente ou presidenta.

Qualquer ato da mulher leva o verbo faxinar logo de cara. Dilma fez faxina aqui, Dilma não faxinou os órgãos ligados ao queridinho PMDB –nem usou o mais leve espanador.

É elogiada por deixar as coisas limpinhas, como no Ministério dos Transportes; é criticada por fazer um serviço porco em outros cômodos do organograma do poder.

Dificilmente há um texto ou matéria de rádio e tv que não ponha a Dilma em uma tarefa doméstica. (Sobe a trilha do bravo Eduardo Dusek!)

A continuar assim, ela terá que preencher, o quadrinho das profissões com o antigo “do lar”.

Tudo bem, é só uma observação cricri sobre o uso das palavras, mas governar, que já foi “abrir estradas” (com o presidente Washington Luís, nos anos 1920),não pode ser apenas fazer faxina.

Tudo bem, é só um pitaco de um lacaniano de boteco atento ao palavreado, seus chistes, seus troca-letras.

Dilma que se cuide para não cair nessa arapuca, que agora é apenas simbólica, mas pode virar uma perigosa armadilha.

Mais perigosa do que dormir com um inimigo como o Nelson Jobim, o ministro da Defesa que joga no ataque contra todas as mulheres do Planalto.

Não que faxinar seja uma tarefa indigna. Mas governar não pode se resumir a diárias clandestinas sem carteira assinada.

Feministas do mundo inteiro, uni-vos! Como diria o camarada Karl Marx, que amava, inclusive sexualmente, a sua empregada!

Escrito por Xico Sá às 13h51

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O Jornal Nacional do Amor está de volta

Dia do Orgulho Hétero? Tô fora. Iria às ruas se fosse Dia da Vergonha Heterossexual. Dia da Vergonha Alheia. Dia do Vereador Desocupado. Roberto corta essa. Chega. Vamos tratar do que interessa.

Está de volta a campanha permanente pela narração minuciosa da rotina para a pessoa amada.

Sobe a vinheta, meu sonoplasta!

Está no ar o Jornal Nacional do Amor, de novo e de novo.

Ali nas primeiras horas da noite, bate aquela necessidade física inadiável de contar como foi o dia. Contar e ao mesmo tempo receber notícias tuas.

Seja um épico, um feito memorável, seja uma coisa à toa, um carro na poça que quase te molha todinha, um chato que te pegou para Cristo, um chefe maluco, os comentários sobre o tempo, ainda bem que choveu, meu bem, a noite está ótima para tomar um vinho, para dizer aquelas coisas que não se dizem para qualquer uma.

Sobe a vinheta, sonoplasta, é o Jornal Nacional do Amor que começa agora, uma dos momentos nobres de ter alguém na vida, conta lá que eu conto cá, e haja narrativas.

Ter alguém para contar seu dia é melhor que sexo, melhor que costelinha de porco, melhor que lamber os beiços com o galetinho-gloss da tevê de cachorro, melhor que doce de leite, melhor que sarapatel, é tão bom que empata com carne de cabrito ou feijoada completa.

Contar para um amigo é diferente, contar para um irmão é outra história, contar para a vizinha é roubada, contar só serve, amigo, se for à boquinha da noite, e se for para a mulher que habita, sem pagar prestações, sem aluguel ou fiança, a Cohab dos nossos corações.

O Jornal Nacional do Amor não tem mentiras de graça, somente mentiras sinceras, aquelas que melhoram as coisas, que levantam a bola, que restauram a lua de mel no auge de Canoa Quebrada, com aquele céu de Bilac, ora direis, aquela cachaça, sustança, e os lençóis de cambraia bordados, letras barrocas, “até que a morte vos separem”.

Na alegria ou na tristeza, contar o dia é a melhor das artes de estar juntos.

Do amor e suas leseiras incríveis, suas breguices, porque todo amor é brega assim como todas as cartas amorosas são ridículas; só os cults e metidos não amam, não aprenderam nem mesmo com os brutos de Shane e de outros belos faroestes.

Do amor, seu Sthendal, nós nunca enchemos a barriga.

Eita fome de viver da gota, eita Jequitinhonha da existência.

 “Ai, amor, estou tão cansada, meio enjoada, acho que vou menstruar”, ela diz, bem linda, ainda na rua, “você me agüenta mesmo assim?”, ela completa.

No que o mancebo responde, tirando onda com a Legião Urbana: “Você me conta como foi seu dia/ E a gente diz um p'ro outro:/ - Estou com sono, vamos dormir!”

Contar sempre, porque até nossos silêncios dentro de casa deixam ecos que viram legendas para sonhos e manhãs amanteigadas.

Escrito por Xico Sá às 19h05

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Cuidado: homens depilando

“Ah, não, marmanjo tomando meu lugar na fila da depilação, não. Não admito. Que nos imitem em tudo, ok, mas longe de mim, que não me atrapalhe a rotina.”

A amiga W., a mulher com dábliu maiúsculo que inspirou a música da banda mundo livre s.a, me procura, revoltada, ao telefone, com o desabafo, ipsis literis, que vocês acabaram de ler.

“Era a favor do metrossexualismo até o dia em que não consegui mais horário que preste na clínica”, W. prossegue. É daquelas que disparam a falar e nem perguntam “e aí, tudo bem contigo?”.

Tudo bem, W., entendo a sua indignação, afinal de contas esta é uma tribuna em defesa permanente do macho-jurubeba.

“Aqui na DepiLeblon eles, os inimigos, tomaram conta”, exagera a colossal afilhada de Balzac, 35 anos de lindeza, habitante da cidade do Rio de Janeiro.

 “Dizem que os homens já são 40% da clientela das depiladoras cariocas”, segue a jovem, talvez lembrando uma reportagem recente do “Jornal do Brasil”, creio.

W. é uma mulher revoltada por natureza e adora essa crônica dos novos costumes. Das moças que me consultam, é a mais fina, RICA!!! e abusada.

Digo “me consultam” porque, desde que fiz o programa “Temas de Amor” (rádio Vale do Cariri, idos dos 1980, sim, Lola, você nem era nascida!), virei um conselheiro de moças.

Não que eu saiba de nada, mas pelo que tento decifrar do pensamento, palavras, atos e omissões dos meninos.

Como W. me pegou em um dia leve e suave, na varanda da leseira pós-sesta, digo “relax, baby”, são os novos tempos, nada demais, cada um faz o que quer com o seu corpo etc.

“Ih, caiu a Bastilha sertaneja, aderiu a depilaçãozinha também, seu picareta?”, a nega ficou ofendida. Esperava a mais tosca das solidariedades, como já prestei em outras horas, quando se queixava de homens vacilões, por exemplo.

Fugi da caricatura e até elogiei, por provocação, os camaradas que esteticamente se abaitolam. Legítimo.

W., a mulher com dábliu maiúsculo, desligou o telefone.

Agora você decide. É o fim do mundo um macho se depilar, como pensa a minha amiga, revoltada com o fura-fila dos marmanjos na clínica?

PS. Falar nisso, o melhor são os trocadilhos que dão nomes às casas depilatórias. Tem uma aqui perto do meu lar, em SP, que se chama Pêlo Menos. Só perdem para os trocadilhos que batizam os petshops. Mais aí já é assunto para outro post.

Escrito por Xico Sá às 13h48

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O dia em que a OMB dançou o funk Atoladinha

Pra fazer qualquer din-don em um barzinho de música ao vivo, a patrulha da OMB (Ordem dos Músicos do Brasil) exigia que o sujeito tivesse um certificado, um registro. O cara poderia ser Villa-Lobos, teria que passar pelo crivo dos tiozinhos da entidade. 

Em mais uma tacada histórica, o STF (Supremo Tribunal Federal) decidiu hoje, 1º de um agosto alvissareiro, que a carteirinha do din-don já era. Acabou a mamata da Ordem.

Todo mundo livre pra fazer o barulho que bem entender. Do zum de besouro íma do Djavan aos três acordes nervosos do punk-rock. Noite para celebrar com Tom Zé, em momento histórico no vídeo abaixo, explicando a importância do funk "Atoladinha" para a música brasileira. 

Escrito por Xico Sá às 22h15

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Direito de imagem e direito de queimar o filme

“Direito de imagem, tchê, é só disso que esses caras querem saber. Eles não brigam por direito à saúde, direito à educação, direito a saneamento, direito a comer, direito à moradia, direitos do cidadão, mas basta apontar uma câmera para gritar por direitos de imagem, que abusados, tchê!”

No seu gauchês, mantido mesmo no longo exílio paulistano, o repórter-fotográfico Antonio Gaudério (aí no clássico 3x4), com quem fiz dupla em várias sagas na Folha, pragrejava contra um dos milhares de miseráveis altivos que encontramos pela frente.

A reflexão gauderística foi bem no começo da exigência, por parte da mídia, do formulário de direitos autorais assinado por quem era fotografado. Final dos anos 1990.

Era o efeito das pegadinhas sacanas da tevê que rendia a primeira safra de processos. Nos EUA, fazia séculos que o bicho pegava.

Só sei que começamos a sair para as ruas, ou para os sítios mais ermos, com uma desgraçada de cópia de autorização debaixo do braço. Um saco.

Ora, quando você pede para assinar alguma coisa, o cara já cresce o olho. Opa, se estão com essa educação toda, posso tirar daí alguma grana.

Se eu tivesse na rua da amargura poderia fazer o mesmo. Óbvio, pois me faltaria a coragem física para golpes mais selvagens.

Essa tal autorização é terrível para quem deseja fazer reportagens menos convencionais. No meu ideal de jornalismo, nem entrevistar pessoas é preciso, quanto mais autorização para publicar foto.

O ideal -senta que lá vem tese delirante deste blogueiro!- é observar os possíveis personagens, deixá-los falar o que eles já estariam falando naquele instante, infiltrar-se, beber, comer, viver com eles, jamais interrompê-los com perguntas idiotas do tipo “qual o seu nome, idade, endereço, telefone, RG...”

Aí vira produção, melhor chamar logo alguém para vesti-los, aí vira editorial de moda, corra figurinista, corra.

É, caro Gaudério, o direito de imagem virou uma praga mesmo.

Lembro de uma reportagem que fazia para a revista “V”, no centrão de São Paulo, com o fotógrafo João Correia. Foi o maior sururu na área.

Um homem-sanduíche, aquelas caras que ficam com placas como se fossem uma segunda pele, quase nos mata.

“Vai filmar nada aqui não, seus filhos da puta!”, bradou a criatura, ruminando as dores do mundo como chiclete cujo doce já se gastou com a existência.

“Calma, vamos conversar...”

“Conversar uma porra!”.

O cara era dobrado. E desses que perderam quase tudo, desses que perdem mulher, amigos e documentos.

Orgulhosa e indômita bravura. Nestes casos, não é direito de imagem. É direito de fracassar e existir em paz. Dei-lhe toda razão e morri com um engradado de cervejas, mas com o direito de beber junto, que não sou besta.

Selamos as pazes e filosofamos em um boteco da São João até o último pombo se aquietar na cidade.

A que tempos chegamos, senhores do júri. Até os feios, os mal-diagramados pela mãe natureza, reivindicam direito de imagem.

Ainda bem que, homem sensato do Crato, abri mão desse direito ainda na frente da parteira, que assinou como testemunha as duas vias da minha inviabilidade estética.

Desde esse fatídico dia, reivindiquei para os céus , quero apenas um direito na vida: o de queimar o filme!

Escrito por Xico Sá às 13h50

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Feliz Dia do Orgasmo. Fingido ou verdadeiro

Domingo, é sabido, é dia de falar de musa, como a Luíza Brunet, a eleita deste blog. Ou falar da musa mais anônima, como a dama tatuada do cachorrinho que me encanta aqui na Augusta.

Certo?

"Certíssimo", responde, no quentinho do computa, minha gatinha Deli.

Como milhares de leitores estão curiosos para saber se La Brunet deu bola à minha lírica que quica na área, eu digo sim, como em um altar, um sim de eco de igreja barroca que soa nas sete freguesias de Ouro Preto ou de Olinda.

Para quem não acompanhou, falo de um expresso pedido de casamento que fiz pra Luíza aqui nesta mesma bodega-blues(vide post aí ladeira abaixo).

Sim, ela me respondeu lindamente. E aqui me encontro ainda comovido como um imberbe menino que rasga –alumbrai-vos todos!-, o sonho plastificado de uma capa de Playboy proibida.

Essa história, porém, contarei depois.

Parem as máquinas!

De pé, famélicos da terra!

Por que hoje é o Dia Internacional do Orgasmo.

E eu com isso?, dirá o leitor mais zen, que anda, por opção ou não, afastado de tal nobre prática.

Silêncio. Vamos ouvir o que diz sobre o assunto o amigo Angeli:

“As mulheres  são umas chatas. A gente leva pra passear, leva pra dançar, leva ao zoológico, leva ao cinema e, mesmo assim, elas vivem reclamando que nós nunca as levamos a esse tal de orgasmo.”

O máximo que tenho chegado também, caro colega, é na sacanagem do cinema.

E orgasmo fingido vale?, pergunta a brava G., musa da praça Roosevelt, rainha do oral e do distanciamento brechtiano, como exaltava outro dia pós noitada no Satyros.

Vale tudo. Desde que com o mínimo de consideração pela pobre vítima.

O orgasmo fingido também pode ser uma grande prova amorosa. Nos põe feliz como gatinha em sofá novo, nos achamos uns verdadeiros Casanovas depois de comer um balde de ostras de Itapissuma nas areias do Pina.

O orgasmo fingido costuma até ser mais verossímil do que aquela gritaria selvagem toda de um suposto orgasmo autêntico.

O ideal é o mais-ou-menos-fingido. Faz-se mais gostoso e verdadeiro ainda. Parece uma asma amorosa, uma linda falta de fôlego, como deve ser o amor na maioria das horas.

A gritaria exagerada, verdadeira ou falsa, tem, porém, uma bela utilidade: deixar os vizinhos mortos de inveja.

Aumenta o som, DJ caseiro, solta logo bem alto a Brigitte Bardot gozando o Je T´aime na música com o Gainsbourg. Ah, Nossa Senhora da Pequena Morte, como reza Lady Averbuck.

Aumenta esse volume, velho. Os vizinhos, principalmente aqueles que não sabem mais o que é isso, vão morrer de inveja, envídia, desgosto, angústia.

Uma velha fita cassete do Frank Zappa também finge bem uma algazarra sexual nunca dantes perpetrada nos lares doces lares.  Led Zeppelin também funciona.  Play again, anos 70.

Chega! Orgasmo não é teatro nem brincadeira de verdadeiro ou falso.

Celebre ao seu modo. 

Como reza a moral punk: Faça você mesmo.

Faça simples. Com apenas três acordes cardíacos. O kama sutra aleija um homem que passou dos 40.

Se bem que já me consagrei, durante 15 segundos, por causa de uma cãibra. Todo esticado, morrendo de dor com a ausência de potássio, e a Lola achando que eu havia inventado um novo nirvana em matéria de posicionamento estratégico.

Acontece. Bom dia do Orgasmo a todos. Com ou sem sexo.

Escrito por Xico Sá às 13h32

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PERFIL

Xico Sá Xico Sá, 48, escritor e jornalista, colunista da Folha, é autor de “Chabadabadá – As Aventuras do Macho Perdido e da Fêmea que se Acha” e + 10 livros. Na TV, participa dos programas “Cartão Verde” (Cultura) e “Saia Justa” (GNT).


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