Xico Sá

Modos de macho, modinhas de fêmea & outros chabadabadás

 

Todas são iguais. Mas só no cabelo, amigo

Outro dia indaguei, com meu freudianismo de boteco, sobre o que querem as revistas femininas. Passei a observá-las cada vez mais. E entre todas as diferenças editorais possíveis, percebi no que são iguais, parecidíssimas, incrível: no capítulo cabelo.

É chamada de capa obrigatória, seja qual for o estilo, sob o sol das bancas. E estão cobertas de razão. A questão capilar é tudo na vida de uma fêmea.

Dia desses mesmo, amigo, andava meio bravo com uma moça que me deixou mascando o jiló do desprezo, e, ali querendo rogar-lhe alguma praga, o que me veio à careca desmiolada foi só uma coisa: que a linda senhorita desperte todo dia em uma briga sem fim com a sua cabeleira.

Porque, irmão, nada pior para uma mulher que acorda em uma peleja sem fim com as madeixas. E tem dia que não adianta, as leis cósmicas conspiram contra os fios do cocuruto e não há milagre que dê jeito. 

A desalmada sempre soube dá um toque sublime e ligeiro no penteado. É que nos últimos dias do nosso romance, a testemunhei em uma peleja contra uns fios da franja que vou te contar, que embate!, me lembrou a luta do século, Muhammad Ali X George Foreman (1974), que ficou mais incrível ainda quando narrada pelo escritor Norman Mailer.

Pense em uma guerra de dedos e mísseis imaginários contra um franjão desobediente!

Ela querendo sair para uma missão acadêmica e nada dava jeito na revolta capilar, naquele fervor dos inconfidentes mineiros, naquela insurreiçao, naquela guerra dos mascates, sedição de Juazeiro em 1914, farroupilha, Monte Castelo, guera civil espanhola, Canudos, balaiada e todas as conjurações sobre o coro cabeludo.

No momento até tentei ajudá-la, com o máximo possível que um homem pode fazer nesse momento: dar uma força, um incentivo moral e torcer para que os deuses capilares amansem as suas fúrias e tempestades. 

Inevitável foi rogar essa praga ao final da nossa história. Onda passageira, só no momento, porque mal maior não merece, coisa marlinda desse mundo, encanto radicalíssimo.

É, amigo, por mais que tenha o capítulo da roupa, também fundamentalíssimo para o gênero feminino, nunca a vi acordar, como as outras, blasfemando contra o armário e a sorte. Aí está outra questão importante para as fêmeas. Nada, porém, que se compare com os cabelos.

No vestuário dá-se um jeito, mesmo que esteja economicamente desprotegida: é uma promoçãozinha, um brechó, um rearranjo, um corte & costura, um truque neo-hippye...

Nos cabelos, não. É um sofrimento. Com ou sem grana. Porque se a madame vai no melhor salão da cidade, também volta ao lar doce lar com a juba até lisa, mas cheia de interrogações em todas as pontas. Com ou sem chapinha. Black-power, crespo, seja qual for a pegada e o estilo.

Não é questão de classe social, velho Perreira, meu comunista de estimação e leitor cativo. Um dos setores que mais se dão bem na onda de consumo das classes C,D e E é o dos salões de beleza.

Como canta João do Morro, fenômeno pop do Recife, “umas passam easy, outras biorene/ henê, hairfly, guarnidina e kolene”.

Ah, sem falar naquela clássica e sempre cobrada leseira masculina, a de não perceber que a mulher deu um tapa no telhado e voltou cheia das novidades para casa.

Tudo bem, homem que é homem deve estar atento aos mínimos detalhes, mas com as milhões de técnicas e pequenas mudanças possíveis de hoje, nossa tarefa, caro João do Morro, ficou mais difícil do que nunca.

Paz capilar na terra às moças de boa vontade!

Escrito por Xico Sá às 18h46

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Solidário no câncer... e no cadarço

Vemos o personagem Edgar, da peça “Bonitinha mas ordinária”, do tio Nelson Rodrigues, salivando, obsessivo, atribuindo a sentença ao Otto Lara Resende: ”O mineiro só é solidário no câncer.”

O mineiro aqui entra como metonímia, aquela história de parte pelo todo, claro, mas deixemos o próprio Edgar com o verbo, de novo: “Mas olha a sutileza, não é bem o mineiro, ou não é só o mineiro. É o homem, o ser humano. Eu, o senhor ou qualquer um, só é solidário no câncer. Compreendeu?”

Sim, a frase do tio Nelson continua atualíssima, mesmo que alguns desalmados, até mesmo parentes próximos, tentem ignorar doenças graves dos seus entes queridos.

Se no capítulo da saúde só há solidariedade no câncer, nas ruas, hoje em dia, o brasileiro só é solidário no momento do cadarço desamarrado.

Em menor grau, também em casos de porta de carro aberta no trânsito.

Como não dirijo e sou caminhador de longas jornadas, o que me chama atenção mesmo é o alerta do sapato desamarrado.

Tente andar cem metros com o tênis em desalinho.

Dificilmente conseguirá.

Em um segundo surge alguém, por mais apressado que esteja, e dirá: “Moço, o cadarço...”

Ontem mesmo fiz o teste, mal consegui mudar o passo. E repare que foi em plena correria da avenida Paulista.

Sim, é perigoso pisar em cima e levar um tombo, mas existem tantas outras coisas mais importantes e ninguém liga, ninguém dá a mínima.

Um amigo, epilético, me conta que já teve crises na rua, aqui em São Paulo, e ninguém o amparou um segundo.

Anestesia geral, meu velho. É como se nada tivesse acontecendo. Devem achar que se trata de mais um golpista. “Do jeito que o mundo anda”, ele mesmo diz, resignado.

Quantas moças choram por quilômetros nas ruas, por amor, óbvio, e ninguém é capaz de ofertar um simples lenço. Ninguém diz sequer “encosta a tua cabecinha no meu ombro e chora”, como cantava o velho Altemar Dutra. 

Com o cadarço, não. É uma praga. Todo mundo repara e alerta, socorre, alguns até em tom de abuso e autoritarismo.

-Olha o cadarço,meu, se liga!

O que não falta nas ruas das grandes cidades é fiscal de cadarço. Como se um sapato ou tênis desamarrados pusessem também em risco a harmonia de cada um de nós.

Nina, amiga querida, outro dia, teve que reagir a uma senhorinha que passou um pito por causa do, adivinhe, do cadarço, claro.

O Marião, outro chapa, resolveu esse problema de vez. Agora usa as suas botas sem cadarço mesmo. O tempo inteiro.

Se bem que ele tem outra explicação para a mudança, que já tem seguidores: não é nada mole chegar em casa com umas e outras na cabeça, um tanto borracho, e desembaralhar os cadarços. Cansado de tanto dormir em coturnos, achou melhor arrancar os cordões de vez.

Quem também não se dava nada bem com os cadarços era o Svevo Bandini, o pai do Arturo, aquele que espera a primavera no mais belo livro do John Fante. Bem, mas ai já é outra parada. Fica para uma nova oportunidade.

Escrito por Xico Sá às 01h34

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Discussão de Relação de intelectual

 

“Ai naquele maior barraco, ele, rapaz acadêmico, vem com uma citação de Deleuze (o Gilles, filósofo francês) pra cima de mim, vê se pode uma coisa dessas?!!”

Pior é que pode.

Sim, como o desabafo da amiga N. não nos deixa mentir, intelectual (ou metido a) bota Delleuze & Sartre até no meio de uma D.R., a sigla como é conhecida hoje (graças às meninas do 02 Neurônio) a mitológica “Discussão de Relação”.

Embora seja escritora de mancheia e conhecedora do mundo afrancesado, N. não se conteve diante do esnobe mancebo-dos-rizomas. Deu “download” na brava cabocla Iracema que mora na sua alma cearense e sapecou: “Diabeisso?!” (Corruptela alencarina de “que diabo é isso?!”, este blog também  é cultura).

Ela não concebia que naquelas cinzas das horas, a casa caindo, alguma criatura esquecesse de mirar o próprio teto e convocasse um pensador francês metido para resolver o drama de alcova. Como se a vida a dois fosse uma tese, como se desconsiderasse o conhecimento do belo inferno dos lares.

D.R. com intelectual ou artista envolvido é assim mesmo. Não tem jeito. Daí lembrei de catalogar outros tipos de D.Rs do mesmo gênero, veja a que lhe serve de carapuça, amigo leitor:

D.R. Kurosawa – Outro noite adiei a saideira por horas, reparando num embate de casal que imitava a arte deste cineasta. Uma discussão lenta, imagens lindas, arrozais sob montanhas, silêncios que falam coisas, uma peleja quase em ideogramas.

D.R. MPB -  Indecifrável e incompreensível como o “zum de besouro ímã” do verso do Djavan. Muita onomatopéia e nem uma idéia os males da D.R. são.

D.R. Erística - Como na corrente homônima herdada dos gregos e consagrada por Schopenhauer, a arte de vencer um debate ou um barraco oral mesmo sem ter razão.

D.R. punk-rock - Três acordes e vai cada um pro seu lado, dormir na casa da mãe, de um(a) amigo (a), hotel, flat, amante, homeless...

D.R. Paulo Coelho - Depois da prosa, só resta sentar, desiludido(a), na margem do Rio Piedra e chorar. Assim como na escrita coelhística, o barraco começa com parábola bíblica ou uma lenda árabe.

D.R. Bartleby - “Prefiro não discutir”, diz uma das partes, repetindo o mantra do escriturário do livro homônimo de Melville.

D.R. free-style - É a discussão rimada, estilo rap, passionais MC´s:  “Assim você me afunda/ com esse pé-na-bunda/ com essa insensatez.../ meu barquinho já naufraga/bossa nova é uma praga/veja só que a vida fez!”

D.R. brechtiana - A arte de enfrentar o público, seja num botequim seja numa festa, com o distanciamento do personagem, como se dissessem do palco, a cada golpe, “não é nada disso que vocês estão pensando, controlem-se”.

D.R. Abaporu ou D.R. arte moderna _ Típica discussão sem pé nem cabeça, que para nenhum dos dois interessa. 

D.R. metalingüística - A D.R. da D.R., tipo roteiro de Kauffman (“Adaptação”, o filme), exercício das cabeças requentadas ou das mentes ressentidas.

Escrito por Xico Sá às 22h11

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Quando você descobre que o cara era nazi

Nada como um post atrás do outro e uma reflexão no meio do caminho.

Você admira um grande escritor pela sua obra, um grande artista, aí descobre que o cara flertou com o nazismo, o fascismo, o racismo etc.

Crepúsculo dos ídolos?

Depois você descobre que além do flerte ainda se filiou ao mundo de Hitler, caso do Knut Hamsun, que citei ontem como amigo da Noruega, aqui nesta mesma bodega de secos & molhados.

Carajo, justo ele!, que merda. Você solta os cães internos e todos os palavrões possíveis.

Não sei até que ponto, minuciosamente, foi o envolvimento do cara, assim como também sei que não podemos formar sumários tribunais a partir do Google. Mas que se envolveu, parece provável.

Era fã do senhor ai em questão na adolescência, quando descobri, ainda no Cariri, via Círculo do Livro -essa espécie de Avon da literatura a domicilio no Brasil-, o autor de “Fome”, um belo romance.

Antes de tudo queria agradecer aos meus leitores que deram o alerta sobre o passado que condena Hamsun. Decepção igual senti quando tomei conhecimento, ainda nos tempos pré-internéticos, da biografia do Céline, este outro monstro da boa escrita, autor de “Morte a crédito” e “Viagem ao fim da noite”, para ficar em dois clássicos.

Com o poeta Ezra Pound, se deu o mesmo, e logo depois de ler os seus cantos e a grande lição poética do “ABC da poesia”, no qual se aprende sobre ritmo, palavra e verso. Ih, o cara era fã do fascismo, que decepción, minha gente.

E assim uma pá de intelectuais. Falo dos escritores porque é o que pega comigo. Noves fora o politicamente correto, me decepciona sim quando sei de uma coisa desse naipe, como no caso do Knut Hamsun.

Sinto muito. Mesmo. Não vou esquecer a importância do livro “Fome”, mas não é mais meu propalado amigo, como escrevi. Isso pesa.

Você há de lembrar de Nelson Rodrigues, leitor cricri, por quem tenho afeto e a quem devo parte da minha escrita, principalmente como cronista esportivo.

Tio Nelson era apenas um reacionário legítimo, sem inclinações nazistas, que às vezes tinha que recorrer aos amigos generais para livrar seu próprio filho homônimo da tortura. Era uma grande alma. Era o nosso Shakespeare.

Confesso, porém, que me incomodam certas coisas, não consigo ligar automaticamente o interruptor do foda-se moral quando sei que um grande escritor que aprecio sujou as mãos na pocilga da história.

E você, amigo, o que acha, já teve decepções desse tipo ou nem considera o assunto vida-e-obra?

Escrito por Xico Sá às 03h51

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Panfleto pela licença-paternidade de 90 dias

 

Vejo aqui no Le Monde, via UOL, que na Noruega, terra do meu amigo de adolescência Knut Hamsun, é sucesso entre os marmanjos a licença paternidade de 90 dias. Três meses de nananeném, amém.  

Aqui temos apenas cinco dias de bilu-bilu-teteia com o filhote. Não dá nem tempo do menino distinguir, entre visitas e Reis Magos, o rosto vincado e o narigão do papai.

Entre as fêmeas o atraso também é imoral. Ainda tramita no Congresso a ampliação da licença-maternidade de quatro para seis meses. Um desafio para todas as mulheres da presidenta, se bulam, meninas, que a causa é nobre.  

Sim, sabemos que algumas firmas sacaneiam as mães por causa deste  merecido período, mas somente assim, com medidas do gênero, é que a carroça da história sai do canto e desembesta.

Mas vamos puxar a maminha também para a nossa brasa. A ampliação da licença-paternidade seria a grande revolução e melhoria do macho.

Nos países que adotaram a medida, como a dita Noruega, 90% dos homens aderiram à causa.

Na Suécia, quase isso, 85% dos marmanjos aderiram, com empresas e o governo bancando a licença, algo civilizadíssimo. Na Inglaterra e na Alemanha, novatos no assunto, também caminha para o êxito.

 É um avanço que nem a mais radical das feministas imaginava. Como poderiam pensar que a igualdade de gênero passava, de alguma maneira, por nossas calejadas mãos de ex-provedores?!

Com a adesão do macho à licença, as mulheres podem optar, inclusive, pela volta mais cedo ao batente, o que tem ajudado a equilibrar o jogo dos salários e cargos de comando nas corporações. (Agora falei bonito!)

É, amigo, antes de serem mães as fêmeas conseguem ganhar mais ou menos a mesma coisa que os seus maridos.

Ao choro dos bebês, ocorre uma freada na carreira, o isolamento da vida social pós-expediente, o congelamento de eventuais promoções e outros atropelos.

Então, minha querida, nos ajude a distribuir também essa crônica panfletária. As crianças agradecem. Pelo sagrado direito do homem a um prolongado bilu-bilu-teteia.

E aproveito para mandar lembranças ao meu amigo de adolescência, autor do livro “Fome”, um dos mais marcantes sobre este locutor que vos fala. Viva Knut Hamsun, viva o reino da Noruega.

Escrito por Xico Sá às 12h43

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Só a ressaca faz um homem sensível

Segundona sem lei. Sim, a cabeça doi, mas toda ressaca, pensando bem, é de fundo moral.

Não há ressaca somente física. Alguma você aprontou amigo. Minha princesa, tem certeza de que não esculhambou com o pretendente, ainda na pista de dança?

E aquele SMS ali na hora em que cantam os sabiás da madruga? Relaxa, você estava mesmo a fim do rapaz e, que feio, ele mais uma vez fugiu à melhor das lutas. Nada demais, amiga, esquece.

Você esculhambou com o colega da firma, caro Pereira, disse que o mala não tem redação própria. Você fez piadas sexistas, Pereira, não é do seu feitio, meu velho camarada.

Toda ressaca é moral. Algum rastro você deixou pelo caminho. De esterco, é claro, afinal de contas, como diz aquela sabedoria, é fazendo merda que se aduba uma vida.

Você não é disso, de armar barraco no almoço da casa da sogra, mas ouvir o pai dele falar mal de gay em pleno domingo da parada GLBT foi demais, o fogo da correção subiu-lhe às ventas.

Toda ressaca, se for pesada, é também um belo exercício de metafísica. Você fica ali estudando as razões de ser. A conclusão é cruel: bebo, logo existo.

Depois dos 40, no entanto, a ressaca não é mais uma simples doença de rotina. É uma dengue sartreana, uma praga existencialista, um massacre sobre os ossos e os neurônios, que nos leva à fronteira entre o ser e o nada.   

Mas a ressaca, amigo, com a sua milagrosa inércia possui muitas vantagens, não vamos demonizá-la em plena segundona.

A ressaca combate, no que pode, a mais-valia –exploração selvagem do patrão, que lhe paga uma merreca e vende o que você faz com um lucro medonho.    

No plano sentimental, a ressaca evita, por exemplo, que façamos novas besteiras logo na manhã seguinte. Não dá para se bulir não, doutor, deixa quieto.

De ressaca um homem pede perdão pelo que fez, pelo que acha que fez e por tudo que lhe é atribuído no B.O. do lar doce lar no dia seguinte. Eu acuso! J'Accuse, berra a madame, com mais razão que o Émile Zola no livro homônimo francês.

No fim dos porres, esse estágio pré-sal da ressaca, o macho durão chora e já ensaia o arrependimento –além de beijar na boca os amigos e dizer que todos são os irmãos que ele nunca teve.

O melhor, a felicidade suprema, é quando a mais grave acusação feminina não passa da clássica “você também, seu amador, vai beber sem comer”. Ufa!

Claro que de manhã, só o balde de café como testemunha, você vai ouvir, vagabundo. A gente faz tudo pelo nosso Alzheimer alcóolico, mas elas acordam como um verdadeiro Pró-Memória, tombando tudo, preservando todos os acontecimentos da véspera.

Foi mal, amigo, agarrar “aquela piranha” na frente dela, acontece. Para estas e outras ocasiões de desculpas é que os bravos agricultores de Holambra cultivam latifúndios de flores. Levanta-te dessa ressaca e anda, cachaceiro Lázaro, ela merece todos os bouquets e arranjos do mundo.

É, amiga, só uma aniquilante ressaca, além de um belo ensaio de chifre, é óbvio, humanizam um homem. Digo, tornam o miserável pelo menos mais sensível.

Que a segunda, com ou sem ressaca, lhe seja leve.

Escrito por Xico Sá às 02h30

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Ela tem um amante. Que fazer?

Domingo, como bem sabemos, é dia de consultório sentimental nesta mística tenda.

O leitor aflito me escreve. Quer ajuda, conselhos, alguma consolação, ombro, ouvidos... Invoco a Miss Corações Solitários que costuma fazer morada nesta pobre caveira envelhecida em barris de bálsamo.

Não posso deixá-lo a mascar o jiló do abandono. Está desconsolado, como o Sizenando de Rubem Braga, que viu a amada cair nos braços de um playboy. Um idiota que não sabia sequer uma palavra de esperanto.

A vida é triste, Sizenando, como soprou-lhe o cronista.

Com Amaro, chamemos assim o nosso personagem, não foi diferente.

Quis o destino parafusar-lhe objetos pontiagudos à testa.

Sim, ela tem um amante. Daqueles amantes que se encontram à tarde, num intervalo qualquer, no recreio da vida chata.

Nem foi preciso contratar o detive particular, conta-me o nosso Amaro. Ele mesmo fez as vezes de cão farejador de sua própria desgraça.

Que fazer?, indaga, num email no qual até a arroba bóia em poças de lágrimas.

Mato o desgraçado?

Tiro a vida da desalmada?

Vou-me embora pra Tegucigalpa?

Salto mortal da ponte Buarque de Macedo?

Um trágico, esse rapaz. Como os de antigamente. Amaro é do tempo em que os homens coravam. Ainda tenho vergonha na cara, diz, urrando vaidadades e orgulhos.

Sossega, Amaro.

O melhor que fazes, respondi ao marido em fúria, é sumir por uns dias, inventar uma viagem, e dar todo tempo do mundo ao infeliz desse amante.

Banalizar o amante, meu caro e bom Amaro.

Entendeste?

Deixar que eles durmam e acordem juntos por vários dias seguidos. Que tenham seus problemas, que percam o luxo dos encontros fortuitos e vespertinos, que se esbaldem.

É necessário deixar a Bovary sentir o bafo matinal da rotina.

A vida dos amantes dura porque eles só vivem as surpresas e valorizam cada minuto do relógio que põem sobre a cabeceira daquele motel barato.

Nada mais cruel para o amante da tua mulher que presenteá-lo com o pão-com-manteiga do dia-a-dia. A rotina é o cavalo de tróia do amor.

Amaro, nada de violência ou besteiras desse naipe.

 Ao amante, todas as chances do mundo. Ao amante aquela D.R., a famosa discussão de relação, em plena TPM.

Um amante nunca sabe o que venha ser uma mulher sob o domínio da TPM. Ela faz questão de reservar todos os direitos desse ciclo ao pobre marido.

Ao amante, Amaro, a tapioca fria e sem recheio da rotina do calendário.

Ao amante, Amaro, a falta de assunto.

Ao amante, os cabelos revoltos da mulher, naqueles dias em que nem mesmo ela se agüenta ou encara o espelho. Naqueles dias em que os cabelos brigam com as leis do cosmo e não há pente ou diabo que dê jeito.

Some, Amaro, depois me conta.

Escrito por Xico Sá às 10h46

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PERFIL

Xico Sá Xico Sá, 48, escritor e jornalista, colunista da Folha, é autor de “Chabadabadá – As Aventuras do Macho Perdido e da Fêmea que se Acha” e + 10 livros. Na TV, participa dos programas “Cartão Verde” (Cultura) e “Saia Justa” (GNT).


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