Xico Sá

Modos de macho, modinhas de fêmea & outros chabadabadás

 

O São João e o fiscal de saliências

Reparo aqui no São João do Nordeste que está mesmo em extinção um dos ofícios mais difíceis. Você, muito jovem ou de outra geografia, há de dizer que o cronista bebeu demais na festa e agora delira. Não procede.

Caminha mesmo para o extermínio a função de fiscal de saliências de forró, mais conhecido como -desculpe aí pelo palavrório, mas é o nome verdadeiro- fiscal de pica. Um clássico dos salões de pé-de-serra.

O destemido sujeito ficava ali na tocaia, com uma varinha de marmeleiro na mão,  pronto para flagrar e advertir os cabras safados que dançavam na paudurescência, digo, em riste, sexualmente alterados.

Isso é forró de família, seu peste, mantenha o respeito. Com um toque da varinha no tarado, o fiscal advertia cordialmente. A reincidência era punida com a expulsão da farra.

O Trio Nordestino, um dos melhores conjuntos de forró da história, fez até uma música sobre este nobre profissional: “O senhor tá dançando armado, eu vou falar pro delegado”.

E assim a modernidade, para o bem ou para o mal, vai ceifando muitos ofícios das antigas, como o rapaz da varinha moralista.

“Acabou a vergonha do mundo, meu filho”, comenta minha santa madre, dona Maria do Socorro, aqui no Cariri cearense.

O menino de recado, por exemplo, também foi para o espaço, substituído pela telefonia móvel.

E o jegue, amigo, não tem mais emprego depois da febre das motos. Graças a Deus, porque os nossos irmãozinhos eram muito maltratados pelos donos mais toscos.

Em compensação, meu caro, temos uma profissão novinha da silva, historicamente muito recente. Soube da sua existência pelo amigo Otto, sim, o viking do Agreste, o artista galego de Belo Jardim (PE).

Trata-se da cigana de rodoviária, uma profissa e tanto.

O ramo é simples. A cigana chega para um viajante, o coitado ainda cheio das confusões de São Paulo na cabeça, e desanda a acertar tudo sobre as suas desilusões recentes, suas contrariedades do juízo, as dívidas, seus amores deixados na poeira da estrada.

Otto descobriu porque tentaram lhe fazer de besta, em Aracaju, numa viagem ainda com a banda Mundo Livre S/A, anos 90.

O viajante se espanta, inclusive porque a madame vai na mosca e repete frases inteiras que ele acabara de dizer ao telefone da rodoviária.

E você sabe, amigo, o cabra lascado se ilude com o vento. A nova profissa mística então aproveita. Tira um bom troco do abestalhado passageiro. Se tiver amor no meio, danou-se, ela leva todas as economias do pobre freguês.

Escrito por Xico Sá às 19h42

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Para incentivar a comilança das fêmeas

Você, amigo, sai com a pequena, pleno feriadão, e ela só belisca, qual um passarinho, uns saudáveis farelos ou engole folhinhas sem graça.

Que desgosto. Você caprichou na escolha do restaurante, acordou com água na boca por um prato que só você sabe onde encontrá-lo, quer fazer uma presença, fazer bonito com a cria da sua costela.

 Que desgosto, a gazela mira o ambiente com nojinho, de tão fresca. Uma estraga-prazeres, eclipse de um belo sabadão ensolarado.

 Ah, nada mais bonito do que uma mulher que come bem, com gosto, paladar nas alturas, lindamente derramada sobre um prato de comida, comida com sustança.

Os olhinhos brilham, a prosa desliza entre a língua, os dentes, sonhos, o céu da boca. Ela toma uma caipirinha, a gente desce mais uma, nossa doce vida, nossos planos, mesmo na velha medida do possível.

Pior é que não é mais tão fácil assim encontrar esse tipo de criatura.

Como ficou chato esse mundo em que a maioria das mulheres não come mais com gosto, talher firme entre os dedos finos, mãos feitas sob medida para um banquete nada platônico.

As mulheres não comem mais, ou, no mínimo, dão um trabalho desgraçado para engolir, na nossa companhia, alguma folhinha pálida de alface. E dá-lhe rúcula!

A gente não sabe mais o que vem a ser o prazer de observar a amada degustando, quase de forma desesperada, um cozido, uma moqueca, uma feijoada completa, uma galinha à cabidela...

Ah, uma massa, um sarapatel, um cuscuz marroquino/nordestino, um cabrito, um ossobuco, um bife à milanesa, um tutu na decência, mocotó, um baião de dois, uma costela no bafo, abafa o caso!

Foi embora aquela felicidade demonstrada por Clark Gable no filme ''Os Desajustados'' (cartaz ai acima), quando ele observa, morto de feliz, Marilyn Monroe devorando um prato de operário. E elogia a atitude da moça, loa bem merecida.

Além do prazer de vê-las comendo, pesquisas recentes mostram que as mulheres com taxas baixíssimas de colesterol costumam ser mais nervosas, dão mais trabalho em casa ou na rua, barraco à vista, intermináveis discussões etc.

Nada mais oportuno para convencê-las a voltar a comer, reiniciá-las nesse crime perfeito.

Moças de todas as geografias afetivas e gastronômicas, aos acarajés, às fogazzas, aos pastéis, ao  sanduíche de mortadela, à dobradinha à moda do Porto, ao lombo -de lamber os lábios!-, ao churrasco de domingo para orgulho do cunhado que capricha na carne e sabe a arte de gelar uma cerva. E aquela fava, meu Deus, com charque, enquanto derrete a manteiga de garrafa, último tango do agreste.

O importante é reabrir o apetite das moças, pois, repito, senhoras e senhores, o velhíssimo mantra: homem que é homem não sabe sequer -nem procura saber- a diferença entre estria e celulite.

Escrito por Xico Sá às 18h27

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Liberaí, Chico Buarque, e viva o comuno-lirismo

Se vazou por marketing, generosidade ou furto lírico, lindo, pouco importa. O q vale é ter uma nova canção de Chico Buarque na rede.

A canção nem é tão linda assim.Ainda. Carece de tempo.

Chico é gênio, mas a gente não sabe se uma música é tão incrível nas primeiras audições. Nem as de Lou Reed ou se Sérge Gainsbourg ditasse agora para um espírita safado e possível, je t´aime Alan Kardec.

As faixas, sejam de quem forem, vão crescendo aos poucos nas nossas oiças, como aquelas moças que à primeira vista não damos nada e tomam conta das nossas vidas.

Algumas dos Smiths, por exemplo, só agora, um quarto de século depois, é que passaram a fazer sentido. Quase 30 anos depois de dançadas naquele navio enferrujado na bacia do Pina, Recife.

Disco novo para mim..., seja do Chico, Lou Reed, mundo livre s.a., Cidadão Instigado, Nação Zumbi, Edu Lobo, Johnny HookerKhan, Genghis Kan ou Cake (tá de volta mesmo ou é bolo trocadilhesco e torta pop na cara?) significam voltar para casa, preparar uma comida, uma bebida, e fazer um banquete mendigoso até a última larica.

A canção que vazou do Chico Buarque, denominada  “Meu querido diário”, nem é tão bonita assim ainda, repito, carece envelhecer em barris de qualquer lágrima particularíssima. Certas canções dependem de dores que as justifiquem cá do nosso lado do balcão, mermão.

A danada da faixa, porém, tem pelo menos um verso matador, que lembra um pouco o Tom Waits do “Rain Dogs”, em uma versão infinitamente mais solar, claro, o cara é dos trópicos!

“De volta à casa, na rua, recolhi um cão/ que de hora em hora me arranca um pedaço...”

Sensacional, Francisco, já ta valendo muito.

Tem uma coisa assim também meio Freud do mal-estar da civilização nos primeiros versos, aquela história toda de carecer do religioso, mas ai já é viagem aqui do cronista empolgado e interpretativo madruga adentro. Esquece.

Tudo bem, a música que rolou antes de consolidada a pré-venda da Biscoito Fino, a gravadora da nova obra, já é um baita presente. Venha ela da generosidade do artista, venha ela de um esperto do marketing ou de qualquer canto. 

Eu peço é bis. 

É tempo de compartilhamento. Querendo ou não querendo. Libera ai o resto, seu Francisco!, pra quê ganhar mais dinheiro, só para enricar os intermediários? É hora da gente exercitar nosso comunismo lírico, amoroso e estético!

Escrito por Xico Sá às 05h01

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O jornalismo e as novas "camas quentes"

Ou Reflexões gutenberguianas em torno de uma solitária bisteca no Sujinho:

Não é papo de um velho nostalgido desplugado. É sério. Nunca trabalhamos tanto e nunca fomos tão desnecessários.

Datamos, como se diz no mundo fashion.

Calma, amigo jornalista, não pegue o racumin agora, vá lá fora, fume um cigarro, relaxe, boas notícias nos aguardam.

Como canta o Lobão, não tente se matar, pelo menos essa noite não.

Como diria o Pereira, esse hiperbólico filósofo de botequim, voltamos aos tempos dos rodízios das "camas quentes", ao lado das máquinas, como na Revolução Industrial, safra século XIX.   

A tecnologia, além de não trazer economia de tempo como ocorreu em outros ofícios, nos girafeou de vez trazendo um  “pescoção” à moda da revolução chinesa de Mao: permanente.

Pescoção é como se  denomina o serão nas redações.

Sim, perdemos o prepotente papel de narradores das últimas 24 horas na vida dos humanos “normais”. Calma, colega da galáxia de Gutenberg, sejamos integrados: nem por isso os jornais impressos acabarão, como previsto no gozo precoce dos apocalípticos.

Os jornais impressos sobreviverão à guerra atômica. Os jornais e as baratas.

Com as redes sociais a fonte dá a sua própria notícia, sem intermediação, entre outros sintomas óbvios da modernidade. Você, porém, continua empregado, correto? 

Trocou apenas o plantão na porta da delega por varreduras no Twitter. O resto continua a mesma coisa.Principalmente o salário.

Soubemos, finalmente, quem era o leitor, esse desconhecido que nos aparecia, raramente, em uma carta à redação.

Agora ele, o prezado leitor, interage, comenta, cutuca, detona e até elogia, em alguns casos. Cutuque-o de volta, faça um mimo, um dengo, a bajulação agora tem mão dupla –belo sintoma da modernidade.

Temos até o leitor que não lê. Ué, simplesmente comenta ou desce a lenha mesmo. Acho chique.

Você, amigo periodista, teve muito prazer em conhecer este velho desconhecido, o mitológico leitor?

Eu estou curtindo. Meu amigo e escriba Jonathan Franzen que o diga.

A turma do design e da publicidade, para fecharmos o foco no mudinho midiático, também se queixa de carga maior de trabalho. Será verdade?

E chega de perguntas e de reflexões diante deste bistecossauro sangrento como a capa do "Notícias Populares" -Nada mais que a verdade!!!

Voltemos ao ócio criativo e avarandado. Refletir também nos cansa.

Escrito por Xico Sá às 22h57

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O homem-projeto ataca novamente

Ele voltou. O homem-projeto ataca de novo. Cuidado, ele está solto por ai. É um onipresente. Está em todos os salões, lançamentos, vernissages, guichês de isenção fiscal, concursos da Petrobrás e do BNDES, festas, restaurantes da moda, bares descolados etc.

Eles se multiplicam feito Gremlins, eles se reproduzem como a praga de grilos em Altinho (PE), eles vão te encher o saco a qualquer momento, prepare-se.

“Por falar nisso eu tenho um projeto...”

“Acabei de inscrever um projeto...”

“Estou preparando um projeto...”

“Estou captando para um projeto...”

“Copiaram o meu projeto...”

“Puta projeto injustiçado...”

O macho e a fêmea-projeto alimentam a paranóia delirante do plágio dos seus projetos. Alguém na sombra estará sempre copiando as suas idéias. Originalíssimas, diga-se.

Fazem um mistério danado dos seus projetos. Quando contam, tudo não passa de algo tão novo quanto uma missa do galo, tão inédito quanto o “no princípio era o verbo”.

Se tem algo que não se rouba em um país de obras inacabadas é projeto. Se há mais projetos que larápios, que sentido faz o rapto?

O homem-projeto ataca novamente.

Logo logo não restará sequer uma criatura sem projetos no Brasil. Uma nação de artistas e produtores culturais.

Como no conto “Dois Augúrios”, de Villier Adan-Lisle, encontrar um sem-talento será motivo de foguetório, mercadoria rara, lance inestimável, brindes ao infinito.

Atenção sem-talentos, sem-cerimônias em geral, cartas e currículos para a posta restante deste blog.

Logo mais não teremos encanadores, bombeiros,eletricistas, bancários, pequenos agricultores, a boa gente do comércio, excelentes amassadoras de pães-de-queijo, exímios pontas-de-lança, mulheres prendadas, tapioqueiras, profissionais do lar...

Apenas escritores, cineastas, praticantes da nanoarte, comediantes em pé, críticos benjaminianos, pintores, tradutores, tribalistas, transgressores...

Para completar, viramos até pátria da ginástica artística, olímpica... Era só o que faltava para a nossa ruína!.

Ah, saudades da nossa vocação agrícola, dependente apenas de algum crédito público, meteorologia de adivinho e bravos homens do campo.

Agora até os nossos bons médicos são doutores de “Caras”....

Para completar o desastre histórico, como as mulheres têm queda para os homens-projetos!

O contrário também é verdadeiro. Quebramos uma asa e tanto pela mulher-projeto.

Meu amigo Pereira, o último macho-jurubeba da Vila Madalena, é que está certo, em sua súplica permanente:

"Cadê a gente normal, a missa, o Fla-Flu, o amor de mãe, o arroz com feijão, bife e, no máximo, um ovo por cima?"

Escrito por Xico Sá às 11h38

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Consultório sentimental, escreva você também

 

Domingo, o dia em que a gente sente falta de tudo que não presta nesse mundo, é dia de consultório sentimental aqui no blog mais amoroso do planeta.

Pratico tal consultoria desde os 15 anos, quando sequer sabia o que era uma mulher direito e fazia o programa “Temas de Amor”, na rádio Vale do Cariri, em Juazeiro do Norte. Continuo, gracias a diós, sabendo muito pouco sobre a cria da minha costela. Essa ignorância só me instiga a busca. Bora bora.

É o seguinte: diante de cartas e mais cartas de leitores, baixou, de novo, uma Miss Corações Solitários neste escriba que vos sopra o cangote.

Miss C.S. é uma cigana da Andaluzia que hoje se divide entre um quintal do Capibaribe e uma choupana, para lá de ecologicamente correta, na Serra do Araripe, na divisa do Exu com o Crato. Com a sua poderosa entidade, M.C.S. socorre machos & fêmeas à beira de um ataque de nervos... ou simplesmente portadores do inapagável fogo nas entranhas, como diria o menino Pedro Almodóvar. Às missivas, pois, aqui histericamente resumidas:

***

Querida Miss C.S., o fingimento do orgasmo também pode ser uma prova de amor? (Sonsa de Mimoso, PE)

Resposta: Estimada consulente, é preferível a dramaturgia do gozo àquela velha dor de cabeça que te abate justamente na hora em que ele te procura. Há um quê de distanciamento brechtiano no orgasmo fingido. O prazer fingido engrandece o homem, além de ser mais verossímil do aquele espetáculo verdadeiro e exagerado, cheio de caras, bocas e nove-horas. Sim, é prova de amor e caridade cristã. Prossiga. Cariño, M.C.S.

Gloriosa Miss C.S., o cachorro que arrumei é um “borracho”, um Vicente Celestino, bebe sempre demais e não funciona quando mais careço. Que fazer? (Maria da Precisão, Conjunto Ceará,Fortaleza). 

Resposta: Muita calma nessa hora, criatura. Trata-se do famoso tipo homem-tupperware, aquele que você guarda para comer no dia seguinte. Sorte, M.C.S.

Bem-aventurada Miss C.S., ele não me procura mais, o que fazer? (Desvalida do meio do mundo, Tejipió,Recife)

Resposta – Pobre alma em desassossego, nada de apelar para cursos de sedução, oficinas de strip ouu aquelas mil e uma novas posições estranhas que você leu na revista “Nova”. Uma amiga minha, por exemplo, tentou uma daquelas posições inovadoras e acabou com o marido num hospital de fraturas -e de madrugada, o que é pior.

Só te resta, pobre alma, seguir o conselho do mago Paulo Coelho: senta-te à margem do Rio Piedra e chora. Tuas lágrimas irrigarão teu caminho e da terra brotarão novos caules. E tem mais: larga esse infeliz que não serve nem mesmo para trocar lâmpadas e abrir potinhos de conservas. Coragem, tua M.C.S.

Poderosa Miss C.S., fui vergonhosamente traído por minha mulher, tipo flagrante delito, o que fazer? (Devoto da Gaia Ciência, Cajazeiras, PB )

Resposta: Amigo incoformado, deixo aqui, como filosofia de consolação, a sabedoria de um pára-choque que acaba de me abalroar: “Chifre foi feito pra homem, boi usa de enxerido”.  Sem mais, M.C.S.

Escreva você também para Miss C.S., bálsamo dos aflitos. Até a próxima.

Escrito por Xico Sá às 14h05

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PERFIL

Xico Sá Xico Sá, 48, escritor e jornalista, colunista da Folha, é autor de “Chabadabadá – As Aventuras do Macho Perdido e da Fêmea que se Acha” e + 10 livros. Na TV, participa dos programas “Cartão Verde” (Cultura) e “Saia Justa” (GNT).


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