Xico Sá

Modos de macho, modinhas de fêmea & outros chabadabadás

 

Carta-cordel para um amigo gay diferenciado*

Caro Vitor Angelo

 

 

xico

 

 

Alvíssaras, meu camarada,

De tantas festas e babados

É a  riqueza dos encontros

Com rock´n´roll ou xaxado.

Como no filme do Scola

Derramo aqui esta epístola

Do feio, do sujo, do malvado.

 

Ouviram do Ipiranga...

A grita de Higienópolis,

Rebateu em Itaquera

Ensurdeceu  Heliópolis...

Pé-do-ouvido ainda doi

Guerra e paz, vila Tolstói

Quero ouvir, Paraisópolis!

 

Meu prezado Vitor Angelo,

As coisas andam confusas,

Imagino o que enfrentas

Cá tropa de elite obtusa:

Cerram bar e fecham sauna

A brigada bate na “fauna”

E a liga católica, afe, acusa.

 

Brás, Bexiga e Barra Funda

Ouviram também a queixa,

O tio na Vila Nova Iorque

E na Liberdade uma gueixa.

Foi só chegar no  Jardim Nice

Pra ficar um disse não-disse

“São Paulo ame-a ou deixe-a”.

 

Com asilo político no Crato

Busquei  sábios de outrora,

Se Benjamim é por mim...

não há o que temer nessa hora.

Fiz baldeação na Brasilândia

E rumo à Estação Finlândia

Dei,opa, no Jardim Marajoara.

 

E lá do subúrbio-soul

veio a pérola do trottoir

A ficha caiu, a rima tilintou:

“O mundo é diferente da ponte pra cá!”

 E não carece dizer mais nada

 É filosofia diferenciada

Concordas aí com moi?

 

E assim finalizo a glosa,

Mas o afeto não se encerra,

Ao churras, chegou a hora,

de pé famélicos da terra. 

Vou de Piva, "20 poemas com brócolis"

Rumo à estação Higienópolis 

Fascismo,vixe, vê se me erra.

 

 

*A ilustração desta singela carta-cordel é a xilo "Meninas de Fábrica", do artista Livio Abramo

Escrito por Xico Sá às 04h37

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Variações de um cafa

 

 

O cafajeste ou é um doce cafajeste, um cafajeste lírico, flaneur, poético, romântico, decente... Ou é muito risível, beira o Didi Mocó do sexo e do amor.  

Não há outra saída para o cafa. Ou tem a manha ou torna-se caricato na primeira piscadela. Ou é um dublê do Peréio, anti-herói da resistência, ou apenas uma caricatura.

 

O cafajeste amador é piada. Quer traçar todas e a nenhuma se devota. Blefe. Não sabe, nem nunca procurou saber, que no amor e no sexo, não existe mensalão nem milagre.

 

O cafa poético não é nada óbvio. Sabe, inclusive, que nem só de bonitonas e gostosas vive o homem. É capaz de devotar-se àquela mulher que ninguém dá nada por ela. E de repente descobre que trata-se de um sexo sem precedentes, um vulcão nunca dantes despertado para as artes da alcova.

 

O cafa amador parece vestir-se sob encomenda de um personal stylist: falsa malandragem, cafuçu de araque. E sempre com um pé no metrossexualismo ou na tendência. No cafa romântico qualquer peça lhe cai bem, a ciência da pegada está no olho e no drinque caubói, por supuesto.

 

O doce cafajeste entra no saloon e não atira para todo lado. Não gasta balas à toa. Sempre escolhe um alvo. O caricato desfalca o colt até com as mulheres dos amigos, embora não tenha arma para matar sequer uma formiga a caminho da roça.

 

O falso cafa é só garganta.  Transando ou não, diz que transou, fez e aconteceu, e ainda espalha a lenda urbana. Seu caminhãozinho não perde a viagem... Mas areia que é bom, necas.

 

O cafajeste romântico é discreto. Acredita sobretudo, e caso a caso, na arte da conquista, na devoção pura e simples. Nem que seja por uma noite apenas e nada mais. Diante dele, toda mulher se sente uma bonequinha de luxo. O canalha amador faz falsas promessas. O cafa romântico, evoluído,sabe que a fêmea moderna pode muito bem estar querendo... apenas sexo.

 

O cafa caricato se acha. O doce cafa sabe que hoje está por cima e amanhã pode muito bem estar por baixo -mas que seja, pelo menos, de uma bela cria da nossa costela, claro, no bafo.

 

No catecismo do cafa romântico, não há nojinhos nem proibições –ele se sujava todo chupando manga na infância e hoje sabe, por causa dessa pedagogia, como o sexo oral é uma arte. 

 

O amador é asséptico e limpinho, corre sempre para o chuveiro depois da transa.

 

O cafa amoroso, amigo, se pudesse, voltava para o útero por dentro da mulher mais linda da cidade, como na crônica do amor louco do velho safado Bukowsky.

 

O amador se contenta, muitas vezes, com um sexozinho virtual no Messenger. Sem cheiros, sem odores... Ele ainda não sabe que para curar um amor platônico é preciso uma trepada homérica, como diria o Kac, gênio de Copacabana, da bioarte e de seus arredores.

Escrito por Xico Sá às 17h17

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Negociando meu próprio túmulo chique

 

O pombo-correio - ou será o corvo postal de Edgar Allan Poe? – insiste em deixar na minha casa o diabo de um envelope mal-assombrado. Sempre a mesma mensagem, mala direta do outro mundo, marketing da velha corcunda da foice: “Venda de jazigos. Promoção por tempo limitado. Invista na sua tranqüilidade.”

Basta pegar o envelope que já começo a sentir dores estranhas e palpitações na carcaça.

"Deixar tudo para a última hora sempre significa pagar mais”, alardeia o folder do terror. “O Cemitério do Morumby fica em uma das áreas mais nobres da cidade, com excelente localização e fácil acesso, integrado de forma harmoniosa ao lado de prédios e construções sofisticadas”.

Ah, bom, que alívio, que maravilha ser engavetado em uma das áreas “mais nobres” de SP!  Nascer lá nos cafundós do Cariri e ser enterrado em terreno de luxo, cercado de VIPs, é mesmo uma saga e tanto! Luxo e riqueza em um ambiente cinco estrelas.

Só faltaram me oferecer, no pacote, um lindo epitáfio tirado do livro “Na margem do rio Piedra eu sentei e chorei”.

Mas de tanto insistirem com a mala direta do além, decidi procurar aquele “investimento diferenciado”, como dizia o folder. Saí em busca dos corretores de plantão no stand de venda. Planos facilitadíssimos. Até dez vezes para pagar. Jazigos a partir de R$ 19,5 mil, fora as gavetas, fora a taxa de manutenção anual.

“Ótima localização, bairro chique”, dizia uma vendedora. Só faltou dizer que me daria o céu, meu bem, como na canção do Rei e no ótimo livro de Ivana Arruda Leite. “Um investimento que só valoriza”, insistia, como estivesse vendendo um terreno na frente para o mar. Logo eu, que nunca investi nem mesmo no “over-nigth” –lembram?-  no tempo da inflaçãozona a 120 por hora. 

Uma prosa pra lá macabra. Uma moça tão linda e negociando com uma “commoditie” dessas, pensei. Vai chegar em casa e dizer ao namorado: “Benhê, vendi doze túmulos hoje, veja que maravilha!” Papo mais excitante, não?

Mas para que eu fechasse o negócio, naquele momento já havia me conformado com o destino, fiz uma última pergunta:

“Escuta, meu amor, esse plano funerário tem alguma carência?”

A musa gótica sorriu da minha inocente indagação e respondeu:

“Imagina, querido, você pode usar o jazigo assim que fechar o contrato. A partir de amanhã cedo...”

Cliente morto não paga. Me vi ali, tristão no ataúde. Lembrei de uma velha reportagem, em parceria com o fotógrafo Fred Jordão, assombrações do Recife Velho, quando me fiz de morto, dentro de um caixão e tudo, para denunciar a máfia dos “papa-defuntos” e das funerárias.

Retornei ao mocó na dúvida se fechava ou não o negócio. Debaixo da porta, mais uma mala direta do além. Lembrava da corretora e seu olhar de Tanatos. Tão bela e tão sem Eros. Ah, só compraria se ela me garantisse um velório igual ao do Bertrand (na fotinha na cumeeira aí do texto), o sujeito do filme “O homem que amava as mulheres” Que lindas aquelas viúvas, velando o coração de um cão vadio!

Escrito por Xico Sá às 17h18

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

O corvo e o Viagra do Vozão na Terra do Sol

(Ou a Arte de Secar)

 

Tem gente que não entende a missão do meu estimado corvo Edgar,6,no mundo. Nossa, quantos flamenguistas bravos ontem com a ave agourenta no twitter.

 

Ficar bravo, aliás, tudo bem. "É do juego", como diz el cuervo quando se dana a falar em portunhol selvagem, seu idioma preferido.

 

Não pode é fazer de qualquer rodada de futebol uma guerra de preconceitos e chutes de xenofobia explícita na canela, como está ocorrendo neste exato momento nas redes sociais. Ainda mais por parte dos rubronegros cariocas, que contam lindamente com uma massa fanática em todos os rincões do Brasil.

 

Voltemos ao Edgar. O corvo, como ia dizendo, é o maior secador do planeta, criado à base do xerém da intriga, peçonhento que aparece na minha crônica toda sexta-feira -na versão impressa da Folha- e que também dá uma pinta aqui no blog na madruga da quinta dos infernos.

 

Na semana passada "Never More", como também é conhecido, fez o estrago.Tirou brasileiros da Libertadores e espalhou um rastro de agouro em nossas floridas várzeas. Deu o bis agorinha: pôs um Viagra na caneca do Vozão, que eliminou o seu primo pobre Ubaldo (viva eternamente o Henfil!), o genial urubu rubronegro.

 

Não que o Vovó deixasse de ter seus méritos e um embornal de catuaba trazido lá dos sertões dos Inhamuns. É que a sua bengala ficou meio bamba naqueles dois gols de cara no abafa do Mengo.

 

No que o corvo esqueceu o seu bordão do "Nunca Mais" e disse: "Levanta, Vozim, num seja abestado de perder o melhor da festa da Copa do Brasil".

 

E fez-se a luz na Terra do Sol. 

 

É, amigo de qualquer parte, a arte de secar é o que importa. Porque a vida é mata-mata, daqui ninguém sai vivo, ninguém escapa.

 

Apenas para os bem-nascidos e bem-planejados a vida é de pontos corridos.

 

Este é um blog de quem torce, mas sobretudo é dos secadores.

 

Torcer, vá lá, tem seu valor; mas bom mesmo é secar.

 

Eu seco, tu secas, ele seca. 

 

Nunca se secou tanto no Brasil. Lugares como Rio e SP, nem se fala. Cidades partidas ao meio, como o Visconde de Calvino. Os que torcem e os que secam.

 

Não basta fazer a sua parte, tem que botar o olho grande no time do próximo. O mais doce dos pecados ludopédicos.

 

Gozar com o falo alheio, como diria  o amigo Sigmund, dando requintes intelectuais à psicanálise  de boteco, é melhor que o gozo próprio. Ô, se é! 

 

Secar é não saber sequer o nome de quem marcou o gol do Ceará que eliminou o poderoso Flamengo.

 

Secar é contra é sempre a favor do mais fraco. Nem que seja o mais fraco segundo o juízo da mídia. 

 

Secar é relax. Se não está dando certo, mudamos de canal e secamos o outro jogo. Meu melhor dia, minha virtuose de secador profissional foi num histórico Náutico 0 x 1 Íbis. Com direito a perder pênalti e tudo.

 

Nos Aflitos.

 

O pênalti, aliás, é o êxtase do secador. Ele chega a se adiantar, no estádio ou no sofá, junto com o goleiro. Ele abre os braços, provoca, fala mal da mãe do cobrador bem ao pé do ouvido... Todo secador que se preza adivinha até o canto.

 

Torcer é brega, é lacrimoso.

 

Secar é chique. Très-chiquè, como diria um justíssimo marroquinho queimador de carros em Paris.

 

Secar é... ser cricri e demasiadamente humano.  

 

O mais doente torcedor corintiano de domingo pode virar, compulsoriamente, o mais convicto secador da próxima quarta. Secar é não precisar suar frio, secar é elegante, democrático, discreto, não tem aquela coreografia ridícula do torcedor aflito, secar é ser o vilão, não o bonzinho, secar é a grande arte.

Escrito por Xico Sá às 01h27

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Não se pede mais em namoro, Sr. Bauman

Bora aproveitar que o respeitável filósofo Zygmunt Bauman está chegando ao Brasil e falar sobre duas ou três coisas que eu sei sobre a fragilidade dos laços humanos.

 

Falar nisso, o prezado amigo e a estimada rapariga sabem de que filme é a cena aí abaixo? Só sei que é bonito e diz respeito ao tema. Amnésicos corações. Nada mais.

 

Caso tenham alguma dica sobre a película, favor deixar um comentário para este desmemoriado blogueiro.

  

 

Bora aproveitar, repito, para discutir, ou simplesmente tirar uma onda cronicamente inviável, sobre o “Amor Líquido”(ed.Zahar), o ótimo livro desse cara que não sai da roda e da moda e que, com licença da sacanagem, empata tanta phoda.

 

É, meu caro Bauman, é cada vez mais difícil saber quando é namoro ou apenas um lero-lero, vida noves fora zero...

 

É namoro ou amizade? Rolo, cacho, ensaio de amor, romance ou pura clandestinidade?

 

“Qualé  a sua, rapá?!”, indaga a nobre gazela.

 

E o homem do tempo nem chove nem molha. Só no mormaço, só na leseira das nuvens esparsas.

 

No tempo do amor líquido tudo escorrega.

 

Vacila o homem, que é a nova fêmea.

 

Vacila a fêmea, que mais parece, em atitude, um novo macho.

 

Sinais trocados.

 

O certo é que nessa confusão toda é cada vez mais raro o pedido formal de enlace, aquele velho clássico, o cara nervoso, se tremendo como vara verde: “Você me aceita em namoro”?

 

O tempo passava e vinha mais um pedido igualmente tenso. O pedido de noivado.

 

Mais adiante, a hora fatal, mais uma tremelica do jovem mancebo: Você me aceita em casamento?

 

E pedir a mão,aos pais, meu Deus, haja nervosismo, melhor tomar na esquina a cachaça da coragem.

 

São raros os nobres pedidos. Em alguns setores mais modernos e metropolitanos, digamos assim, talvez nem existam mais. Mesmo. 

 

No tempo do “ficar” quase nada fica, nem o amor daquela rima.

 

Alguns sinais, porém, continuam valendo e dizem muito. O ato das mãozinhas dadas no cinema, por exemplo, ainda é o maior dos indícios.

 

Tanto quanto um bouquet de flores, mais do que uma carta ou um email de intenções, mais do que uma cantada nervosa, mais do que o restaurante japonês, mais do que um amasso no carro, mais do que um beijo com jeito, daqueles que tiram o gloss e a força dos membros inferiores e superiores.

 

“Vamos pegar uma tela, amor?”, como se dizia não muito antigamente.

 

Eis a senha.  

 

Mais até do que um jantar très-romantic no bistrozim, que pode guardar apenas um desejo de sexo dos dons Juans que jogam o jogo-jogado e marketeiro.

 

O cinema, além da maior diversão, como diziam os cartazes de Severiano Ribeiro, é a maior bandeira.

 

Nada mais simbólico e romântico.

 

Os dedos dos dois patinhos na lagoa se encontrando no fundo do saco das últimas pipocas...

 

Não carecem uma só palavra, ainda não têm assuntos de sobra.

 

Salve o silêncio. 

 

No cinema como na vida. 

 

Chega de revelações e precoces besteiras.

 

Ah, os silêncios iniciais, que acabam voltando depois, mas voltando sem graça, surdo e mudo, eterno retorno de Jedi. Nada mais os unia do que o silêncio, escreveu mais ou menos assim, com mais talento, claro, Murilo Mendes, poeta dos melhores e mais líricos.

 

Palavras, palavras,palavras...

Silêncio, Silêncio, silêncio...

 

Dessas duas argamassas fatais o amor é feito e o amor é desfeito. Simples como sístole e diástole de um coração que ainda bate.

Escrito por Xico Sá às 04h26

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Consolação/Paraíso,17h43,São Paulo

Nem que sobre só uma no mundo, como é bonito uma mulher que fuma.

Uma mulher fumando.

Nem que seja aquela fumante bissexta, que dá uns tragos vez por outra, em uma viagem ao fim da noite. Com um drique e uma olhar borrado de maldade.

No episódio que acabo de testemunhar, ela desliza da escada rolante do metrô Consolação para a avenida Paulista. Ajeita o gorro do casaco verde-lodo para não tomar a leve chuvinha do fim da tarde. Está um pouco triste. Não apenas por habitar a sempre difícil segunda-feira; tampoco por estar no mundo a passeio, ela sabe das coisas.

Pelo mínimo que conheço de moça, há ali uma lágrima, umazinha, represada de algum embate mal-resolvido no final de semana. Na segundona carregamos o peso não do churrasco ou da massa, nunca da comilança. Carregamos a vida por quilo da intensidade de termos vividos mais juntos. Pernoites mais colados na cidade-dormitório. Durante a semana não há tempo nem para perguntar como foi seu dia.

Ela procura a lateral da banca de revista onde Kate Moss sob o vidro molhado acha que impera. Quanto engano. A anônima cria da nossa costela, daquelas paulistanas de olhos com corte rapidamente oriental e morenidade a sobrar na vista, pega o cigarro na bolsa. Coitada de Kate.

Como ela fumava, fuma. Se o prezado rapaz ou a estimada rapariga visitante deste blog carecerem de uma comparação com o cinema eu não citarei, desculpem, a Rita  Hayworth. Nada desse clássico da tela que bafora.

Passo Hollywood e passo a Nouvelle Vague, pra citar duas escolas cinematográficas distintas que nos influenciaram com essa coisa de achar belo a mulher que fuma. Esqueço até a Anna Karina em “Vivre Sa Vie”, a mulher da minha vida no escuro.

Caso pudesse lembar alguém desse ramo seria a Uma Thurman com filtro mais lindamente melancólico. Esqueça. Era ela e só ela, a moça das 17h43 na avenida Paulista.

Tragos e perdições no juizo, chuto sobre a minha personagem desconhecida, como se fosse possível adivinhar pelo menos 10% naquela mulher que fuma.

Agora seus olhos marejam. Este cronista-voyeur finge que folheia a Vogue com a Kate Moss. Jornalismo comparado: a modelo que também amo pelo desacerto no mundo não teria autoridade estética sequer para amarrar os cadarços das botas desgastadas pela nossa costela anônima.

O celular (dela) toca. Já havia desligado o meu em respeito solene ao momento. Chego cada vez mais perto, no meu disfarce de leitor da Vogue. Uma lágrima leve como o sereno que caía faz uma rápida curva e escorre sobre aquele nariz grande. 

-Eu também te amo –ela diz no celula. –Sim, eu aceito!

A esta altura do que despejavam olho e nuvem, este ouvidor-geral do coração denunciador das ruas já estava colado na nossa dublê de Uma. Sentia o confortável cheiro dos cabelos de uma mulher desconhecida -algas marinhas?

Estava tão perto da minha musa crepuscular do metrô que ouvia, ou viajava que ouvia, do outro lado da linha, o esfarrapado –nem por isso deixa de ser amoroso e sincero- pedido de desculpa de um também desconhecido e adorável vagabundo.   

Ela desceu as mesmas escadas e seguiu rumo à estação Paraíso.

O normal em SP é o amor começar no Paraíso e acabar na Consolação, com ou sem baldeações ao longo do percurso. Às vezes, porém, ele faz o caminho de volta, como se o coração não pudesse perder a validade do Bilhete Único que logo logo expira e não dá tempo nem voltar para casa.

Escrito por Xico Sá às 22h22

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Clássicos que estão sumindo das mesas

Alguns clássicos da cozinha –do tempo em que comida era mais para matar a fome do que fetiche de bacana- estão desaparecendo ou são muito difíceis de encontrar hoje na praça.  

Um deles, iguaria finíssima, um dos melhores pratos do mundo (o sociólogo Gilberto Freyre aposta que é de origem francesa) é a galinha à cabidela ou ao molho pardo –tanto faz, Reinaldo Moraes.

 

Nesse caso o desaparecimento é na cidade de SP, onde a inocente penosa foi enquadrada pelo Kassab, nosso Senhor K, o alcaide que adotou as proibições e o higienismo social como programa de governo. É isso ai, quem não faz, proíbe.

 

E lá sumiu até a encorpada cabidela do Bar do Biu, ali na esquina da João Moura com Cardeal Arcoverde, no bairro dos Pinheiros.  É que as austeras otoridades sanitárias do município exigem que o sangue do galinheiro tenha certificado até de nobreza.  

 

A pobre cabidela foi enquadrada, perseguida, politizada. Agora, clandestina, vive à sombra da ilegalidade. Quando vai à mesa em alguns botecos dos subúrbios,  a gente tem a sensação de estar cometendo um crime ou consumindo uma droga pesada. Esconde o osso que lá vem o furioso fiscal da prefeitura.

 

Relatei o fato ao amigo Gustavo (dos Reis) Zubreu, em visita a BH, terra que cheira à melhor comida de sustança do universo, e o cara me saiu com essa: “Pois avisa lá ao prefeito de vocês que a gente come isso aqui há mais de século e num morreu ninguém até agora”.

 

Molho pardo à parte, deixo aí uma lista de comidas que estão ficando difíceis de se achar nas cidades grandes:

 

1)    Língua ao molho madeira. Cadê? Acho que agora só na casa vovó ou da mamãe ou nalguma releitura de chéf metido. Pena.

 

2)    Dobradinha à moda do Porto. Cada vez mais rara, principalmente em São Paulo.

 

3)    Fígado à veneziana. O melhor que comi na vida foi no Lisboa à Noite, belo restaurante popular na rua do Hospício, Recife.

 

4)    Tripa assada, onde andarás? Minha cerveja sente a tua ausência. Outro dia faltou até no Pátio de São Pedro, na mesma resistente capital de Pernambuco.

 

5)    O cozido português vai pela mesma vereda da perdição. O Rio ainda se mantém forte no ramo.

 

6)    Paçoca de carne seca. Cada vez mais restrito a restaurantes para turistas no Ceará. Era comum em tudo que é canto, inclusive aqui no interior paulista.

 

7)    Maxixada. Ainda existe o bar do Maxixe, no Recife, onde tudo era à base dessa maravilha que abunda nas cercas nordestinas?

 

8)   No tabuleiro da baiana nem se fala. Com a palavra o professor emérito da UFBA, Guilherme Radel, estudioso do ramo: o amlá, o latipá, o lelé, o afurá, o quibombo, o ecuru, o quitandê, o efun-oguedê, o denguê, o ipetê e o erampaterê desapareceram da dieta dos baianos.

 

9)  O estrogonofe resiste bravamente. Inclusive lá na gôndola do supermercado separam já cortadinho a sua bandeja. Nos restaurantes rareia. O Degas da Pompeia, SP, tem o melhor e maior do mundo.

 

10)  A mocofava, poderoso afrodisíaco que une a sustança erótica roots do mocotó com o poder nuclear da fava, claro. Está desaparecendo dos piores pés-sujos e botecos do ramo. Lamentamos.

 

E você, prezado rapaz, estimada rapariga, do que tem sentido falta? Como fiquei mais na minha afetiva geografia luso-afro-nordestina, conto com a sua ajuda pra gente mapear o que anda faltando na boa mesa brasileira. Digaí, que eu digo cá!

Escrito por Xico Sá às 01h29

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Ver mensagens anteriores

PERFIL

Xico Sá Xico Sá, 48, escritor e jornalista, colunista da Folha, é autor de “Chabadabadá – As Aventuras do Macho Perdido e da Fêmea que se Acha” e + 10 livros. Na TV, participa dos programas “Cartão Verde” (Cultura) e “Saia Justa” (GNT).


Twitter Twitter RSS

BUSCA NO BLOG


ARQUIVO


Ver mensagens anteriores
 

Copyright Folha.com. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página
em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita da Folha.com.