Xico Sá

Modos de macho, modinhas de fêmea & outros chabadabadás

 

Breves entrevistas c/ homens hediondos I

Porto Alegre. Lá vem o cara. 62 invernos nas costas. Corpinho de 80, como retratou o Thales Menezes –escriba do policial “Alguém Vai se Machucar Hoje à Noite" (ed. Paulicéia). Leiam.

Lá vem o cara. Ozzy, Ozzy Osbourne.

Com um bloco na mão e um bom par de sapatos, um repórter sempre estará no lugar certo, na hora certa, para mandar cinco perguntas rasteiras para um herói incansável. Esta é a moral desta secção cujo título é roubado de outra hedionda criatura, o chapa David Foster Wallace. 

-Scream Tour 2011?

-Mais conhecida como aquilo que não tem fim. Como eu.

-Inter ou Grêmio?

-Não há mais como não ser Grêmio. Você viu o estrago? (Não sabia,mas o cara havia levado ao palco uma bandeira gremista).

-Brasil?

-O grande show que fiz no Rock in Rio é inesquecível. Não vai querer que eu elogie a bunda de suas mulheres, ou vai? Voces não são ciumentos?

-Mulheres?

-Cada um tem a sua, não é mesmo?

-O meu sobrinho Thalysson David quer saber. Me diga, por favor, dia, mês e hora da volta do Black Sabbath?

-Alguém precisa de um salvador de volta à terra?

Escrito por Xico Sá às 19h52

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Eu menti pra você

E neste 1º de abril consagrado à lorota, a sua, a minha, a nossa Shhh FM, operando em ondas tropicais sob o toque de classe do multiartista Jackson Araujo, oferece para download na faixa o CD “Eu Menti pra Você”, de Karina Buhr, prêmio APCA de cantora revelação.

Além muito além de qualquer categoria de prêmio, Karina está mais do que pronta e revelada. Escute suas danações e comprove. Quando tiver show da moça, corra, Lola, corra, é imperdível. Imperdível até para quem gosta somente de ficar em casa estourando o plástico bolha das encanações de amor sem futuro.

Escrito por Xico Sá às 16h07

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A volta das irmãs Cajazeiras

 

“Tem cabaré no mundo inteiro, chique ou brega, mas acabou sobrando só para o meu. Esses católicos, viu?, vou te contar, bando de... Deixa pra lá, agora além de fechar essa disgrama, voltei para a lei dos crentes, vou orar de novo na Assembléia de Deus”, desabafa, a este blog, por telefone, dona Carla Simone Braga, forçada a fechar, em pleno aniversário da “redentora” Ditadura Militar(31/03), a sua “Locadora de Mulher”, na cidade de Cajazeiras, sertão da Paraíba.

 

Aceitar Jesus, como me cantou a bola o escriba Dirceu Galvão, correspondente deste blogueiro na área, foi fatal para lacrar as portas do cabarezinho. Tia Carla, porém, não tomou essa decisão assim por obra e graça do filho de Deus. Sofreu uma cruzada moral digna dos melhores episódios de “O Bem Amado”. Padre, bispo, irmãs Cajazeiras, parlamentares, ONG´s, ninguém dava sossego.

 

O que chocou, no caso, em uma cidade dionisíaca que já teve as melhores casas da luz vermelha do sertão, foi o nome do humilde puteirinho. “Locadora de mulher” é realista e sugere uma exploração além do que se tem notícia na mais antiga das profissões. No mais, a casa de tia Carla não diferia em nada, era até menos agressiva no funcionamento, do que o Café Photo ou o Casarão, para citar um de luxo e outro que resiste bravamente à modernidade da rua Augusta, SP.

Escrito por Xico Sá às 11h07

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Suicídio: modo de usar *

Suicídio, uma tema proibido na imprensa brasileira. Ninguém sabe como nem a causa inicial do tabu. Não incentivar a prática? Respeito à razão individualíssima da tragédia?

 

Especula-se, mas não há explicação. Alguns jornais até noticiam as mortes, mas não tratam as pessoas como suicidas –vide o último caso notório da atriz Cibele Dorsa.

 

A forma como a imprensa noticia é uma cerimônia histórica das redações. O que aconteceu com a revista Caras é censura mesmo. A 19ª Vara Cível de São Paulo, atendendo a um ex marido da atriz, impediu o veículo de publicar a íntegra da carta enviada à redação por  Cibele, antes de sua morte, no último sábado.

 

A capa da revista traz a velha tarja preta do tempo dos censores. Isso nunca é bom.

 

Como diz o jornalista e escritor Arthur Dapieve, autor do livro “Morreu na Contramão: o Suicídio Como Notícia” (Zahar), a morte voluntária é normalmente noticiada pelas beiradas.

 

Noves fora o tiro do ex-presidente Getúlio Vargas, em 1954, um raro suicídio espetacularizado, a recomendação é de discrição.

 

Curiosidade: por um curto período, nos anos 1930, Rubem Braga, o célebre cronista, decidiu, como editor das páginas policiais do Diário de Pernambuco –o jornal mais antigo em circulação na América Latina-, publicar abertamente os casos de suicídio.

 

Outro escritor, o argelino Albert Camus, aplaudiria o velho Braga. Disse o existencialista sobre o assunto: “Só há um problema filosófico verdadeiramente sério: é o suicídio. Julgar se a vida merece ou não ser vivida, é responder a uma questão fundamental de filosofia”.

 

E você aí, meu rapaz, minha rapariga, o que acha? A imprensa está certa ou errada ao lidar com as tragédias do gênero?

 

 

* título de polêmica obra com técnicas suicidas, dos autores Claude Guillon e Yves Le Bonniec. Disponível em português pela editora Antígona. 

Escrito por Xico Sá às 10h18

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Something is technically wrong

 

Something is technically wrong. O bicho que pia está fora do ar. O que fazer, pergunta minha ansiedade leninista. Meu colega aqui do lado diz que a rede social é é novo crack. Promete sair do escritório e matar gente.

Pense na soma geral dos 140 caracteres de besteiras que estão sendo poupados nessa hora no planeta, reflito, mas também aflito, confesso a minha carência franciscana. Com tecnologia e internet, sempre sou assim: malho quando aparece a novidade e me escravizo no momento seguinte. Humanum est.

O que você fez, amigo, nessa hora de abstinência¿ Onde descarregou aquela frase que julgava genial¿ Na roda do cafezinho da firma¿ -a mais antiga das redes sociais da humanidade. No botequim da esquina¿ Descontou no marido, na esposa¿

Something is technically wrong. Será que é para sempre¿, indaga Cibele, uma amiga apocalíptica. Isso passa, calma, diz o Walter, meu amigo integrado. E se não voltar nunca mais, como ficará a humanidade¿ De novo a Ci, uma gostosa, queria que você visse, meu caro.

Não me siga, eu não sou novela, repito a filosofia de para-choque de caminhão do meu primeiro post no twitter. Não vai voltar nunca mais, eu aposto. Ci insiste. Hoje ela está mais linda do que nunca. Gostosa, encho a boca com a minha palavra predileta. Estou nervoso, confesso, e gasto com a minha tara pela moça apenas sete caracteres e aquela onomatopeia dos velhos safados.

Something is technically wrong. Se não voltar, vai ser lindo, reflito, mais tempo para os textos longos etc e coisa. Meu colega aqui do lado entorta o cachimbo virtual do crack. Hoje eu mato gente, repete. No solene momento penso em Francisco Nildemar, meu pai, lá na zona rural do Crato, que nunca careceu dessas coisas. Nunca tirou sequer documentos.

O pio do povo está mudo e calado. Vai voltar, diz o Nunes, meu brother sebastianista das Minas Gerais. Será¿ Pois saiba que sem você eu passo bem demais, ensaio o autoengano. Meus 140 caracteres de volta ou eu quebro tudo, quem mandou inventar moda para o meu lado. Mais respeito com quem entra tarde na brincadeira.

E assim, com o twitter fora do ar, a roda do cafezinho foi reinventada na firma.   

Escrito por Xico Sá às 17h22

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TE CUIDA, SÃO PAULO

 

O corvo  Edgar, como sabem meus seis leitores fiéis da crônica da Folha, é o maior secador do Brasil. Ave agourenta de estimação que leva o mesmo batismo do gênio da escrita mal-assombrada: Edgar Allan Poe. É uma homenagem ao cara e um empurrãozinho de nada para que mais gente curta a sua obra.

Edgar acha que torcer é coisa para amadores, trouxas que caem no conto dos cartolas etc etc etc. Não sofre pelo velho embate de 22 machos em campo. O corvo seca. Agora esta peçonhenta criatura, que tem vida própria e de quem muitas vezes discordo, estará entre nós. A cada rodada importante do futebol, o mal-assombro revelará o destino das forças do seu agouro.

Do Mundão do Arruda, onde já se encontra no Recife, ali no mocambo da favela Bola na Rede, zona norte, ele se prepara para secar o São Paulo, seu alvo predileto, que enfrenta o Santinha do meu amigo João Valadares, o maior repórter investigativo em atividade no país. O bicho, não o repórter, é revoltado com time que se acha. Não tolera a soberba. Tudo inveja do tri na Libertadores, essa obsessão são-paulina, como Edgar sempre realça.

Essa impoluta figura, o corvo, talvez por herança do seu passado marxista, adora secar os poderosos. Mesmo lá no Recife, mandará uma forcinha para o Frasqueirão, o estádio mais simpático do Nordeste, onde o Vasco fatalmente tropeçará no bravo ABC, o elegante alvinegro de Natal e do mundo.

“Vai, Santa Cruz, vai ABC, fazei por por vós que vos ajudarei!”, diz aqui o Edgar, depois do almoço no Bode Dourado, no bairro da Encruzilhada, no meu Hellcife, a cidade mais bonita do Brasil. Fuerza, cuervo!

Escrito por Xico Sá às 15h39

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OS 10 MANDAMENTOS DO SR. K

No princípio era a lei Cidade Limpa. E o que era para atingir apenas as fachadas, virou uma plataforma higienista. O legado cultural de K., o alcaide que é uma espécie de Jânio Kronenbier, um Jânio Quadros sem álcool, em dez pontos:

1)    Rampa antimendigo –com auxílio da arquitetura limpinha de parte do tucanato.

 

2)    Banco de praça com uma barra de ferro no meio para impedir “o bom sono dos vagabundos”, como diria meu amigo Kurt Vonnegut, o orgulhoso homem sem-pátria da América -jovens,leiam correndo este gringo viejo.

 

3)    Expulsão de mendigos de praças, vide Higienópolis e  Vila Nova Conceição, entre outros sítios incomodados com o mau-cheiro do miserol avulso, nuvem de fedor e desgraça.

 

4)    E se os molambudos, os ninjas-gabirus do esgoto resolvem tomar um banho, que tal, seu prefeito, não se trata de filosofia higienista¿ Mas que nada, passamos o arame farpado ou emparedamos as fontes.Xô, urubus da praça da Sé, vamos preservar a água do planeta.

 

5)    Cerca nos vãos dos viadutos. Pelos mesmos e todos os motivos anteriores.

 

6)    Vinde a mim as criancinhas, mas que se virem. Falta de vagas em creches era de 57 mil e saltou para 125 mil. Esqueçam os números, prefiro as remelas dos olhos.

 

7)    Tentou matar o que SP tem de melhor, fechando, por qualquer motivo banal, bares, boates e puteiros de massa ou de classe. Pois é, tentou lacrar a noite, porém as mariposas, né Adoniram, resistem.

 

8)    Na catraca: passagem de ônibus a R$ 3, a mais recente das realizações, acima de todos os cálculos e réguas do possível. A mobilidade social agradece. Como cantam a bola os boys de São Paulo, o K. num é fraco não nesse aspecto.

 

9)    Só encareceu o cachimbo do crack, o sonho azul dos zumbis, ao zonear geral a Cracolândia e não achar solução para nada. Tudo ficou como dantes, depois de sociedade aberta com as empreiteiras que explorariam o pedaço. Quem perdeu dinheiro na parada¿

 

10) Tomando as enchentes como obra de Deus, catástrofes tão naturais, não toquemos nesse ponto. Pelo menos tais fenômenos cumpriram à risca a cartilha do Sr. K, higienizando os imundos pantaneiros desta nobre Piratininga. Classe! E não é que, depois disso tudo, o cara, rompido com os ex-sócios tucanos, é a menina dos olhos do socialismo-moreno etc e coisa¿ Pare o mundo que eu quero descer, colega, na nave do brega-pop de Silvio Brito. 

Escrito por Xico Sá às 03h46

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NOVOS CHATOS -VC É UM DELES?

 

Sem nenhuma pretensão de atualizar a brochura “Tratado Geral dos Chatos”, que o escriba Guilherme Figueiredo pôs no mundo há meio século, cá estamos com uma nova lista destas criaturas capazes de nos subtrair a paciência e nos deixar tão inquietos quanto as vítimas do Pediculus púbis, como são conhecidos cientificamente os insetos homônimos que atacam as partes mais baixas e indefesas de um cristão de fé.

 Bons e inocentes tempos aqueles em que os chatos se resumiam aos tipos agrícolas, como o chato-pra-chuchu, ou às criaturas crentes na meteorologia, como os prevenidos chatos-de-galocha. Haviam ainda os menos ofensivos, como os da espécime aforismática -sempre com uma filosofia de pára-choque na ponta da língua para importunar a vida alheia.

Enfim, só nos resta ser mais chatos ainda, o que tentamos com engenho e arte, e fazer + uma lista destes maçantes modernos:

 

Macunaemo – tem a preguiça do Macunaíma e a choradeira de um roqueiro Emo.  

 

Stand-up chato – seja profissional da comédia, amador ou simplesmente colega de firma, ele está sempre fazendo uma graça em pé. Melhor esperar sentado que um dia o piadista sem graça te dê sossego.

 

Mega-super-ultra-hype – o mais veloz do Oeste, gente atualizadíssima do mundinho. Sabe a nova gíria dos modernos de Londres e curte no Facebook a última faixa do DJ paquistanês pós-electro-cool-de-cu-é-rola que será a sensação na próxima semana em NY.

 

Mario de Andrades digitais – gente que escreve e-mails enormes, como as famosas cartas do gênio modernista. Esse Mario matou muitos pobres e desnutridos carteiros de tanto fazê-los gastar sola de sapato,  pois se correspondia com o país inteiro. Embora desse a impressão a cada interlocutor que aquela troca de cartas embutia uma linda e única afinidade eletiva. Todos os anos vem à tona um novo carregamento de missivas do gênero. Escreveu para escritores, tocadores de coco do Nordeste, índios, mitos amazônicos, gorilas...

 

Fêmea sitcom – nem tem mais graça, de tão datada, mas trata-se do tipo metropolitano que acha que a vida é um seriado americano, um decadente Sex and City sem fim, século seculorum. Adora vernissages.

 

Chatos de época - rabugentos, inconsoláveis, sempre a resmungar pelo borogodó que se foi. “Bom era no meu tempo”. Saco!

 

 Garçonete-cabeça – Aqui encarno um rápido chato de época para lembrar o tempo em que garçom vestia preto e branco, gravatinha borboleta, e perguntava “o de sempre?”, O uísque era mais chorado que enterro de marido rico, ele sabia o resultado do futebol e ainda nos servia de ombro para uma bela dor de corno. Linda, gostosa e descolex, a garçonete-cabeça é uma graça, mas pode passar a noite a discorrer sobre o neo-cinema paquistanês e a peça do Antunes, em vez de cumprir à risca, no salão dos bares, um dos ofícios mais importantes do mundo.

 

Vamos aumentar a lista, deixando ai nos comentários os novíssimos tipos de cri-cris e malas. E que esta segunda-sem-lei lhe seja leve. P.S.-Não,este post não é uma homenagem ao Rogério Ceni,que já foi eleito pelos colegas de profissa, como o boleiro mais chato do planeta. Hoje o goalkeeper tricolor só merece festa.

 

Escrito por Xico Sá às 12h20

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PERFIL

Xico Sá Xico Sá, 48, escritor e jornalista, colunista da Folha, é autor de “Chabadabadá – As Aventuras do Macho Perdido e da Fêmea que se Acha” e + 10 livros. Na TV, participa dos programas “Cartão Verde” (Cultura) e “Saia Justa” (GNT).


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