Xico Sá

Modos de macho, modinhas de fêmea & outros chabadabadás

 

LULA E A LENDA DO VINIL

E lá se foi Lula Côrtes, 61, cantor, compositor e artista plástico pernambucano, morto na madrugada de sábado, no Recife, vítima de câncer na garganta.  O gênio do folk psicodélico, como os gringos viejos  tratavam o seu som, deixa uma lenda empoeirada em alguns sebos do Brasil: o vinil duplo “Paêbiru", gravado com Zé Ramalho(ai bem na foto com o parceiro).

Se o bolachão precioso já liderava o ranking dos vinis mais caros do Brasil, avaliado sempre na faixa dos R$ 4 mil, imagina para quanto vai subir agora. Há uma semana, em uma mesa do bar Genésio, em SP, encontrei o Lula, que celebrava a vida como se não houvesse amanhã, e dizia: “Temos que relançar esse danado, no mesmo formato original, mas não se esqueçam que dependemos também do Zé (Ramalho)”.

Mais espertos -no mau sentido da coisa- que os brasucas, os malacos do selo alemão Shadoks relançaram a obra em 2004, somente na Europa. Uma edição pirata sem conhecimento dos autores.  Tudo igualzinho ao vinil que veio ao mundo em 1975 pela extinta gravadora Rozenblit.

Além de ser genial, Paêbiru virou o mito, a lenda viva, por causa do dilúvio que atingiu o Recife no ano de lançamento. A enchente levou mil discos de uma tiragem de 1300. Quem tem um ai em casa abra o pregão agora mesmo. Quem se habilita¿

Mas se você, amigo, não tem bala pra entrar no leilão da raridade, pode ouvir o disco na íntegra aqui, no Brazilian Nuggets, ótimo blog dedicado à psicodelia brasileira.

Descanse em paz, grande Lula, e gracias pela sabedoria de viver que sempre passou aos amigos.

Escrito por Xico Sá às 21h35

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BACIADA DE AUTOESTIMA

 

Esta semana tratei de coisas chatas na noite de SP. Agora deixo ai uma crônica sobre uma das melhores ocorrências da nuestra Babilônia: a feira. 

 

E nada melhor que uma mulher que acabou de chegar desta festa dos pregoeiros.

Sacola na mão, fome de viver, sorriso de princesa.

 Os vendedores de frutas, peixes e verduras são mestres na arte de reconhecer talentos e animar as moças com os seus adjetivos. Adjetivos às pencas, elogios às dúzias, mimos, dizeres, samba exaltação, graças.

Meia hora de uma mulher na feira vale mais do que um mês de análise, do que a onda de orientalismos tantos do mercado, do que a yoga, do que o mestre japonês das agulhas, do que uma banheira de sais, do que um dia de cartão de crédito free na Oscar Freire...

Nem mesmo quando as mulheres estão acompanhadas, os feirantes dão sossego. Esperam você, jovem mancebo, se distanciar um pouco, dois, três passos, e tome gracejos e flertes à baciada.

''Olha a manga, gostosa!'', bradam, administrando com malícia a vírgula e o duplo sentido na ponta da língua.

“Ovo e uva boa!”, arriscam para as elegantes damas de preto.

“Essa é modelo!”, capricham para as gazelas saltitantes. “Gisele!”

''Se eu fosse um peixe, eu seria um namorado!”.

É a boa guerra dos mascates. Eles vão no ponto, exatos como neurocirurgiões do desejo. Sabem de longe, por exemplo, quando uma mulher tem alguma encrenca com a idade. Em um segundo, sapecam um tratamento carinhoso:  ''Pra mulher nova, bonita e carinhosa, eu não vendo... eu me dou todinho!” E mais: “Só vendo pra menores de 18 acompanhada pelos pais”.

Em dias de chuva, mandam ver de acordo com o meteorologista: ''Essa é enxuta até debaixo d'água'', alardeiam.

Um bom feirante reduz até os efeitos de uma TPM, de uma dívida nunca paga, de uma culpa que corrói o juízo, de um regime ainda sem resultados _elas ainda não sabem que uma polegada a mais, uma a menos, pouco importa para quem tem gosto de fato por mulher.

Nada como incentivar o caminho da feira mais próxima da sua casa para as mulheres.

 No Ceasa, então, os adjetivos saem a grosso e a varejo, na bacia ou nos caixotes.

Os feirantes não mentem jamais. Eles sabem, mais do que ninguém, que em toda mulher, seja quem for, existe um traço ou um aspecto de beleza.

Afinal de contas, mulher é metonímia, parte pelo todo, você passa a apreciá-la por uma boca, um pé, uma orelha, uma mão, uma omoplata, um belo ilíaco ressaltado, uma saboneteira, uma marca sulcada de vacina, um corte no joelhinho esquerdo, uma cicatriz de artes de infância, uma bela bunda faceira, uma falsa magra, um umbiguinho do mundo, aquele tom cinza dos cotovelos da espera...

Na passarela dos feirantes, a insegurança feminina, mesmo naqueles dias em que o cabelo acorda brigando com as leis do cosmo, dissolve-se em segundos, na ligeireza de um pastel, na velocidade de um caldo-de-cana.

Escrito por Xico Sá às 11h42

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O IMPERADOR DA MALOCA

Amigo torcedor, amigo secador, Adriano é do Corinthians. Como escrevi recentemente na minha coluna da Folha, o cara vai fazer mais história no Timão do que Ronaldo, O Fenômeno. Anote ai na sua caderneta do fiado, meu rapaz, e me cobre depois la dolorosa.

 

O Imperador tem sintonia fina com a boa maloqueiragem e, para completar, agora faz o jogo na companhia do ligeiro e fagueiro Liedson. Baita acerto de contratação da turma de Parque São Jorge.

 

Parabéns a quem bancou o cara, contra o coro de todas as Senhoras de Santana da bola. Lembre-se de que os cavalheiros de todas as mesas redondas o deram como morto e enterrado para o futiba. Um irrecuperável. Repare na gravidade do eco: um irrecuperável, senhores.  

 

Sem essa de julgamento moral de quinta. Estou fora. Deixa o menino brincar que no campo ele se garante. Com esse futebolzim que andam jogando por aqui, nossa!, nem carece melhorar da cabeça. Mesmo que tivesse acabado de fugir da clínica Pinel, depois de uma sessão de choques, já faria história.

 

Perde o Flamengo, onde o atacante malaco renderia até mais, ali na buena onda da vizinhança da sua Vila Cruzeiro. Ganha o Corinthians. Uma contratação de alto risco. Alto risco para os adversários.

 

Fosse eu o professor Adenor Leonardo já mandaria o meninão a campo no domingo. Contra o soberbo São Paulo. Daria jogo e equilíbrio ao time. Vai, Adriano, mostra pra eles!

Escrito por Xico Sá às 13h48

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CHAMA O LADRÃO

 

 

 

OU 10 COISAS QUE ENCHEM O SACO HJ NA NOITE DE SP:

 

 

 

1)Levar a pequena ou a patroa para comer fora. É um assalto atrás do outro nos restaurantes da Zona Oeste, com maiores ocorrências em Pinheiros e Vila Madalena. Em vez da romântica luz de vela, um cano fumegante no cangote. Acontece.

 

2)O preço dos restaurantes. Faz você até esquecer e perdoar o ladrão no mesmo instante.

 

3)A turma do Nextel apitando no seu ouvido com diálogos de fazer inveja à turma do BBB 11. Faz você achar o ladrão um gentleman, um digno cavalheiro inglês, um dândi, um lorde.

 

4)Se na mesa da direita está a bancada do rádio-telefone; na da esquerda está o homem-bouquet, arrotando conhecimentos sobre vinho para tentar abater a gazela acompanhante. Ah, esse ladrão que não chega logo para nos livrar dessa chatice toda, desse “paladar aveludado e encorpado, porém macio, bouquet particular, de cor intensa e notas florais, levemente amadeirado...”

 

5)Você convida a dama para o prazer da mesa e a danada só belisca uma maldita saladinha. Desgostoso, só me resta lembrar daquela felicidade demonstrada por Clark Gable no filme ”Os Desajustados”, quando ele observa, morto de feliz, Marilyn Monroe devorando um prato de operário. Como é impagável uma mulher que come sem frescura. Até o ladrão tem pena das feições esquálidas da moça!

 

6) A namorada ensaia a D.R., sigla da mitológica Discussão de Relação, e você mesmo, acuado, chama o ladrão. O restaurante todo muda de assunto. Ufa!

 

7)O custo do estacionamento. Faz você esquecer que o restaurante é assim tão caro, afinal de contas pelo menos alimenta com aquela porçãozinha nouvelle cuisine.

 

8)Cinema no final de semana. Mais tempo na fila do que diante da tela. Corra Lola, corra. O enredo é mais emocionante em algum restaurante da Zona Oeste.

 

9)Aquela velha cantada “você é o ar que eu respiro!” Definitivamente, essa não é uma boa declaração de amor na cidade do monóxido de carbono e outras partículas elementares.

 

10)Gente que só tem dois assuntos em SP: a virada do tempo e o trânsito. Dá até saudade da turma do Nextel, do homem-bouquet cheirando a rolha, da comida cara, do ensaio da D.R., do flanelinha e do moço do estacionamento... Do ladrão nem se fala, a essa altura já virou amor platônico –nos levou umas patacas mas não roubou a preciosa paciência. Enfim um homem civilizado triunfando contra a barbárie! 

Escrito por Xico Sá às 03h07

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SOSSEGO PARA O VELHO SÍNDICO

Poxa, sacanagem maior não há do que essa da Justiça decidir por exumar o corpo do velho Tim. Sim, Tim Maia, o síndico-mor dos Tristes Trópicos, para um exame de paternidade. Qualé, arranca o cabelo dos parentes, faz qualquer coisa, belisca primos, beija na boca da vovozinha e colhe a saliva, ousa, morde gente, mas não desmoraliza o nosso mais genial dos pesos-pesados.

Cadê a polícia que não vê uma coisa dessas?! Desde já em plantão permanente pela intocabilidade do corpinho desse nosso irmão, clamamos, com o seu mantra sagrado: o que eu quero é sossego! Que descanse em paz o maior cantor brasileiro, não acham?! Como disse, na moral mínima e inicial desse blog, cliente morto não paga. Simbora!

Escrito por Xico Sá às 04h17

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DICA ÚTIL PARA UMA VIDA FÚTIL

Atualizando as soluções mágicas do meu amigo Mark Twain para quem anda meio sem grana:

A saudade é o genérico do Viagra!

 

Escrito por Xico Sá às 03h35

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A CACHAÇA E A RESSACA DIPLOMÁTICA

Passando a régua geral na visita de Obama ao Brasil, ficou a sensação de uma certa ressaca diplomática. Menos para os produtores de pinga responsáveis pela caipirinha da recepção carioca ao presidente americano. O cara provou, gostou e deu sinais de que pode resolver uma velha bronca comercial dos alambiques nacionais: legalizar o batismo “cachaça” da bebida exportada para os EUA.

 

A marvada ainda é inscrita por lá como “brazilian rum”, o que prejudica os brasucas na concorrência com o rum caribenho, o melhor do mundo. Mesmo com um ex-presidente fã da branquinha e um ex-vice-presidente dono de uma marca mineira do produto, o país não conseguuiu avançar na sua nobre causa.

 

A cachaça, aliás, só provocou barracos entre diplomatas dos dois países. Mire-se no caso da reportagem escrita pelo então correspondente do NYT no Brasil, Larry Rother, em 2004, que tratava da queda de Lula por uma “purinha”. Mr.Obamis, como representado nas camisetas satíricas que louvam o gênio Mussum, parece que finalmente vai resolver a pendenga.  

 

Se nos bebes, a turma que produz 1,4 bilhão de litros de aguardente por ano ficou animada, na gastronomia parece que não fomos nada bem. A picanha e o baião-de-dois do banquete do Itamaraty não bateram com a fisiologia do gosto de Barack. Logo o baião-de-dois, um dos melhores pratos do mundo. Iguaria finíssima. Quer provar? Faça você mesmo com a receita do Mocotó, restaurante nordestino de SP. Veja aqui.

Escrito por Xico Sá às 23h17

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A MULHER E A MARVADA -CRÔNICA

- Ou ela ou eu – disse Germana, toda metida no seu vestidinho de palha, no seu figurino Ronaldo Fraga de bananeira.
O pobre do cachaceiro ficou passado, perplexo no seu zarolhismo a 45º de graduação alcoólica.
Arrastá-lo dos bares era um serviço humanitário tão comum à patroa quanto lavar roupa suja ou discutir a relação envelhecida em barris de estrago.
Mas naquele dia tudo seria diferente. Deparou-se logo com a birra da empalhada, que reivindicava, no mínimo, mais gratidão do cachaceiro a quem tanto manguaçara.
- Ou ela ou eu - disse de novo, botando fogo pelas ventas.
Sem permitir a réplica feminina, incendiou mais ainda o ambiente, a Mercearia São Pedro, diga-se, ali no alto da vila Madalena:
- Cansei de te derrubar em colo de vagabunda...
Embora muito educada, uma fofa, a patroa não suportou a humilhação:
- Você está acabando com a vida desse infeliz... Repare só o farrapo humano que virou.
- Ah, minha santa, a graça desse bofe sou eu, Bovary ces´t moi. Dou-lhe verve, ânimo, o luxo da coragem, mato-lhe a timidez e os assombros...
- Desalmada, destruidora de lares, você acaba com o que sobra desse infeliz...
Marquinhos abaixa o portão de ferro.
E a peleja continua:
- O que acaba com essa criatura é a tua rabugice, a tua carranca, já te viste no espelho quando acordas? Que cabelo é aquele, dona?
- Pois saiba que esse desalmado acorda te maldizendo, numa ressaca miserável, sempre como aquele corvo, never more, never more, never more...
- Quando se recompõe volta aos meus caprichos... É um doente por mim, queres devoção maior?
- Eu sou a cura...
- Tu és mesmo um banho frio, sem alma, bálsamo chinfrim... És tão sólida na vida dele quanto um Sonrisal...
- És a ruína desse infeliz...
- Apenas não desejo que ele morra cheio de saúde... Já pensou que triste?
- Cínica.
- Gorda.
- Invejosa, enquanto dás a queda eu dou um colo macio e reconfortante...
- Se ele erra o prumo de casa é por conta da tua feiúra...
- Mas nunca errou o buraco da fechadura...
As duas se engalfinham. A mercearia vem abaixo. Marquinhos levanta o portão de ferro. O sol por testemunha de mais uma peleja entre a mulher e a cachaça. Ah, por isso que eu não quero que me faltem essas danadas. Tão passionais, tão iguais, tão donas das nossas quedas e baques.

Escrito por Xico Sá às 23h00

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QUAL O MAIOR BANDIDO VIVO

Qual é o maior bandido vivo no Brasil ? Repetimos, orgulhosamente, o concurso feito em 1931 pelo genialíssimo jornal “O Homem do Povo”, do casal Pagú & Oswald de Andrade (na fotinha com o filho Rudá), periódico no quaOswald, Pagú e o filho Rudál este blog recolhe, digamos assim, românticas inspirações.

À época da enquete,  éramos tão bem-servidos de crápulas como agora. Lampião, por exemplo, no auge do cangaço,  nunca liderou a enquete, humilhado em um desprezível 7º lugar. O ex-presidente Arthur Bernardes revezava com Assis Chateaubriand, nosso velho companheiro de imprensa, a cabeça da disputa.

Até o glorioso antropófago paulista, sim, o próprio Oswald, era muito bem votado. Chegou a tomar o lugar de Lampião na lista, repare que injustiça.

E agora chegou o solene momento de você, amigo, escolher o seu honorável bandido contemporâneo.

Quem se habilita

Deixe o seu voto ai nos comentários. Importante: não vale bandido que já bateu as botas, afinal de contas, como diz o título daquela comédia, cliente morto não paga conta.

 

 

Escrito por Xico Sá às 21h54

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GUIA DO MOCHILEIRO DA BLOGOSFERA

Nem todo blogueiro tem a sorte –legalíssima!- da Maria Bethânia, mas todo blogueiro toca Raul, com a metamorfose ambulante e aquela velha opinião formada sobre tudo. Este que vos bloga não poderia ser diferente, vai na pegada do roqueiro.

Meus meninos e minhas meninas, esse tiozinho gutenberguiano, um velho tarado por "la prensa", inicia aqui, nas folhas das folhas do outono,  a sua nova aventura na blogosfera.

Como dito na fachada ai acima, cá teremos o cronista, o repórter, o homem, o mito, a fraude –afinal de contas todos nós, jornalistas, médicos e monstros, temos uns 10% de picaretagem, né não? 

Conto com vocês nesse trabalho que junta, no mesmo embornal, aventura & rotina –vide a viagem expressionista de Gilberto Freyre, um dos meus guias afetivos nessa narrativa. Comentem, xinguem, esculhambem, sugiram e, vez por outra, deixem uns dengos e cafunés para restaurar o ego. O escriba agradece.  

 

 

Escrito por Xico Sá às 21h10

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PERFIL

Xico Sá Xico Sá, 48, escritor e jornalista, colunista da Folha, é autor de “Chabadabadá – As Aventuras do Macho Perdido e da Fêmea que se Acha” e + 10 livros. Na TV, participa dos programas “Cartão Verde” (Cultura) e “Saia Justa” (GNT).


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