Xico Sá

Modos de macho, modinhas de fêmea & outros chabadabadás

 

O BLOG MUDOU DE ENDEREÇO

Olá, amigos, o endereço deste blog mudou para http://xicosa.blogfolha.uol.com.br

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Escrito por Xico Sá às 22h32

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O almoço de domingo e a sogra perfeita

 

 

Minha sogra, meu tesouro. Domingo, não sei se por causa dos almoços familiares, sempre lembro delas. 

Volto a uma incrível narrativa, aqui na rede da varanda do Capibaribe: “Livro de uma Sogra”(ed.Casa da Palavra), do escriba Aluísio de Azevedo.

Folclorizada no último, espécie de bumba-meu-boi dos casamentos, a sogra sempre foi motivo de chacota e demonização nos lares doces lares.

Óbvio que há um certo e maligno inseticida do exagero pulverizado sobre a mãe das nossas mulheres, mas, convenhamos, as referidas senhoras estão longe de obter o alvará de soltura e de inocência neste debate.

O problema é sério e universalíssimo.

A mãe da cria das nossas costelas age da mesma forma em qualquer parte do planeta. Seja na Suécia, no Crato ou no reino dos esquimós e avatoscos.

Viram, outro dia, aquela iniciativa da Igreja Católica na Itália? Começou a tentar reeducar as sogras em nome da manutenção dos casamentos e da paz nos lares doces lares.

Em alguns rincões do lindo país macarrônico, os sogros são responsáveis por até 50% do desmantelo conjugal dos pombinhos.

Mas existe sim a sogra perfeita. Ela se chama dona Olímpia.

Nunca cheguei a ter uma dona Olímpia, mas, amigo, cheguei perto. Tive ótimas sogras. Algumas delas,generosamente, sempre me alimentaram de bons acepipes e riram das minhas pilhérias e chistes sem graça nos almoços dominicais.

No mínimo, havia um bom tratamento a um romântico que amava suas filhas –com algum risco que isso pudesse implicar, claro.

Dona Olímpia, porém, foi a melhor sogra do mundo, a perfeita, aquela que descobriu a forma de fazer filha e genro felizes. Felizes na medida em que isso é possível em um casório.

A distinta senhora existiu de fato. É a personagem maravilhosa do tal e genial “Livro de uma Sogra”, aquele mesmo autor de “O Mulato” e “O Cortiço”, tão obrigatórios nos bancos escolares.

Com a sua sogra exemplar, no entanto, o maranhense é divertidíssimo. Livraço. Olímpia, ainda no remoto 1895, sabe tanto das coisas que sempre trata de separar, com pequenas viagens e obrigações nada chatas, a sua filha e o consorte.

Tudo para que nunca caiam na rotina acachapante. Quando noivos, reparem que gênia, ajuda a criar histórias que o deixem no suspense amoroso, apenas com boas pontinhas de ciúmes.

Olímpia, que já havia passado por um casamento desastroso, cuida até em reduzir a solenidade da lua de mel, orientando os recém-casados a se embriagarem sem a obrigação do grande coito na noite inaugural.

A consumação do amor, segundo ela, não poderia ser algo burocrático e abrupto, viria num crescendo de beijos e ternuras até uma explosão naturalíssima. Um belo exemplo!

 

Escrito por Xico Sá às 15h37

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Gritos, sussurros e asma do amor

 

ilustração Manara

 

Não há mais dúvidas: quanto mais beira o verossímil, com gritos lancinantes na noite, como assimilamos do cinema, mais fingido é o tal do orgasmo.  

 

Nunca é condizente com a nossa performance e suor. Os melhores e mais recompensadores orgasmos guardam o bom preceito da educação dos gemidos. Um clássico!

 

Por mais megalomaníaco que seja Vossa Senhoria, recomendo que não acredite naquelas algazarras, feiras amorosas, sacolões do sexo, capazes de fazer os vizinhos pularem da cama só de inveja.

 

Aquela gritaria toda, meu amigo, só vale para provocar um problema dos mais graves. Deixará o casal que mora do outro lado da parede em pé de guerra, uma vez que a mulher, atenta à lição de gozo comparado, vai exigir mais, muito mais, mais e mais, e mais um pouquinho ainda, do seu colega de prédio ou de rua.

 

E o pior é que os gritos só costumam ocorrer quando o gozo não passa de truque, melodrama de fêmea, como canta a deusa La Lupe no filme Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos: “Teatro, lo tuyo es puro teatro/ falsedad bien ensayada/ estudiado simulacro/ fue tu mejor actuación/ destrozar mi corazón!”

 

O gozo desesperado costuma ter origens variadas, como me soprou o amigo W. Reich. O gozo desesperado costuma ser resultado de algum curso mal digerido de teatro amador, de formação em escola com viés jesuíta, interpretação errada dos manuais do Actors Studio, dietas à base de alcachofra e audiências tardias das onomatopéias do Led Zeppelin.

 

As melhores gazelas educam cedo os gemidos. Em vez de gritos que parecem mais apropriados para momentos de sequestro-relâmpago, a boa moça sussurra e balbucia safadezas no cangote do amado. 

 

Até a Amy Winehouse, a bela suburbana de Southgate, sabia disso. Mesmo depois do seu coquetel preferido –ecstasy, vodka, cocaína...- era capaz de um orgasmo educadíssimo. Mordia  um pouco, óbvio, pois sem dentadas, como já dizia tio Nelson, não há amor.

 

Sim, as que só mordem e tudo calam, nada falam... são as melhores! Vixe, como diria meu professor de ídiche.

 

Uma coisa é a gritaria, quase um SOS, edifício em chamas ou algum sinistro do gênero. Outra é a gemedeira gostosa, fungada sentida, sacanagem nas oiças, fogo nas entranhas, quase um decassílabo a cada descida, lirismo sem fôlego, a gostosa e inadiável asma do amor, me falta o fôlego, ave!, traz a bombinha!

Escrito por Xico Sá às 17h33

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Dez lições de amor deixadas por Wando

Ou dez coisas que aprendemos ou devemos aprender com o mestre Wando e suas canções:

1) Que a devoção às mulheres é obrigatória: “Você é luz, é raio, estrela e luar...”

2) Que brochada ou broxada é um ato de delicadeza: “Beijo suas costas e nada... / caem dos meus olhos duas lágrimas geladas”.

3) Que melhor do que colecionar obras de arte ou miniaturas é colecionar calcinhas. Coleção Wando na próxima Bienal, please curadores modernos de São Paulo.

4) Que não se deve estragar hoje o que se pode fazer mais gostoso logo adiante: “Moça, me espere amanhã...”

5) Que em uma mulher não se bate nem com uma flor: “Nossa Senhora das fêmeas proteja toda mulher/ Desses perigos do mundo,/ venha de onde vier/ Livrai dos homens malvados, sem piedade, sem dó/ Ôoo, que batem, xingam, machucam, quando não fazem pior...”

6) Que a vida íntima deve ficar entre as quatro paredes: “Eu te quero assim/ Safada, sacana/Me pedindo grana/ Ouvir seu gemido/ Quando a gente ama/Guardar em segredo/ O que a gente faz...”

7) Que o amor é como campeonato baiano, tem ida e volta, turno e returno: “O que importa, /É que um dia você volte, pra ficar,/ Vá, conheça, tudo que não pude oferecer, /Vá pela vida adormecida dos seu olhos, /Pela avenida, ao encontro das ilusões, /E quando você se cansar...”

8) Que os corpos se entendem, mas almas nem sempre: “Razões tenho demais pra te deixar e ir embora/O que é que eu vou fazer /O que é que eu vou dizer para o meu corpo /Que vai ficar vazio e quase morto”.

9) Que nunca devemos cair no conto das discussões complicadas e labirínticas: “Uma mulher tem os seus desejos loucos, mas no fundo/ Seu coração só quer as coisas mais simples do mundo”.

10) Que a poesia de verdade é punk-brega, como bem sabe Wander Wildner -igualmente Wanderley como o mineiro falecido. Que na despedida cantemos esse refrão rock´n´roll do mestre Wando, repare que lindo: “Aquele amor filho da puta me deixou/ô, uouô uouô uouô –repete 2x.

 

Escrito por Xico Sá às 13h47

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Homem já demora mais no espelho que mulher

 

A metrossexualidade by Allan Sieber 

 

Desculpa aí, meu prezado, pela insistência no tema. Não é perseguição aos fofos metrossexuais. É mera obrigação do cronista de costumes com a história do afrescalhamento contemporâneo.

A vida como ela não deveria ser, mas fazer o quê?

É o apocalipse antes do apito final do cacique Maia.

O caso eu conto como o caso foi:

Minha amiga V. protesta: o novo namorado passa tanto tempo se emperiquitando na frente do espelho que o casal não consegue chegar na hora marcada nos compromissos sociais, shows, teatros, cinemas...

Brava, pede um conselho e, ao final da conversa, desata uma gargalhada nervosa. Só rindo mesmo.

Põe roupa, tira roupa, prova de novo, troca o casaco, muda a meia para combinar com a camisa, testa uns dez pares de tênis e sapatos.

“Uma esquizofrenia fashion do demo”, presta queixa a bela comadre.

Sem se falar nos cremes -é um lambuzamento maluco. Com o cabelo, seu maior exercício de vaidade, ponha ai, por baixo, uns 45 minutos, o tempo de um jogo de futebol.

É o que ela faz, aliás, fica vendo um joguinho do seu Corinthians enquanto o mancebo escolhe as peças do vestuário. 

Por mais que tente se distrair na tv ou na internet durante o processo de embelezamento do seu metrossexual paulistano, V. confessa que vai largá-lo.

O seu critério para a decisão é muito simples: não pode ficar com um homem que demore mais do que ela para ficar pronto e apto a enfrentar o mundo.

“Se pelo menos me deixasse em paz nesse momento”, relata a nobre afilhada de Balzac.

“Não, não deixa, mal consigo falar com os amigos no Facebook, é uma praga, ele fica me consultando para saber se um cachecol está melhor do que o outro”.

Como se não bastasse, começa aquela choradeira de que está sem roupa -mesmo com os armários e araras abarrotados de grifes e acessórios.

Quando ela acha que o cara, enfim, já está “montado”, pronto para a vida, o miserável confere o visual no espelho do elevador e resolve voltar para trocar a camisa.

Só matando, ela suspira. Foi exatamente neste momento em que telefonou a este cronista com o seu desabafo. 

Sintoma da transformação masculina, o episódio narrado pela amiga é cada vez mais freqüente nos lares doces lares.

Boa sorte, amiga V., na escolha do próximo homem.

Escrito por Xico Sá às 00h45

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Grandes questões da humanidade: no país do malfeito, xixi na rua é crime?

 

Nobre mija na rua do Rio, quadro de J.Baptiste Debret, entre 1817/29 

Nem precisou chegar o Carnaval para o debate recomeçar: fazer xixi na rua é crime?

Pode até ser. Dependendo do tamanho do atentado ao pudor, diria um sátiro de plantão.

No Rio, a polícia prendeu 96 por tal desfeita, agora nas prévias de rua do final de semana. Só do bloco “Me esquece” foram 51desobedientes mijões.

Outras cidades de grandes carnavais de rua, como o Recife, Olinda e Salvador, são mais tolerantes. Mas a polêmica é sempre viva nesse período.

Todas têm em comum a mesma história: a falta de banheiros públicos ou os vagabundos banheiros químicos insuficientes para os foliões.

E não apenas para os carnavalescos.

Tente, em qualquer período do ano, achar um banheiro público nestas cidades. Recife ainda se salva se o cidadão estiver na orla de Boa Viagem.

Esqueçamos o carnaval e lembremos do aperto que passamos em SP, por exemplo. Em qualquer período do ano.

Você conhece algum banheiro público, decente ou indecente, na capital paulistana?

Desconheço. E olhe que sou um caminhador profissional que flano por todos os cantos da cidade.

De qualquer maneira, com ou sem privadas públicas –essa contradição em termos- o blog recomenda os bons modos de machos & fêmeas. Muita discrição nesta hora.

À guisa de descarga, uma inocente enquete geográfica e cultural. Em que cidade se faz mais xixi na rua no Brasil?

Escrito por Xico Sá às 02h05

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Só amante de firma ama segunda-feira

Isso mesmo que você leu, caríssimo, ainda sob a ressaca de domingo. Só os homens e mulheres que têm amantes nas firmas e nas repartições amam a segunda-feira.

É, nobre Garfield, os pombinhos sorriem na alienante linha de montagem.

Eles amam este dia como os seus próprios objetos e alvos do desejo. Segunda é o dia sagrado dos amantes de escritórios, redações, bancos, repartições, editoras, almoxarifados, restaurantes, varejões Ceasas, tomate e maravilha como na canção do Arnaldo Baptista.

Depois de esperarem o sábado e o domingo, resignados ou aos coices internos no juízo, os amantes de firmas voltam assobiando aos seus postos, mesmo nas funções mais escravas, mesmo que a burocracia lhes reservem apenas o lirismo comedido antes do almoço no quilo.

As criaturas que têm amantes nas empresas seriam uma incógnita para o velho Karl Marx , cada dia mais atual com a quebradeira dos mercados: seriam a quintessência da mais-valia, uma vez que retornam felizes à labuta e assim produzem de forma lindamente alienada?

Para com isso, seu cronista de quinta. Não ponha ideologia noss amantes.

Esse amor, seja que diabo for, não deixa de ser lindo, pois quebra de alguma maneira a corrente burra do trabalho e dos dias, velho Hesíodo.

Chega. Só queria dizer que hoje é segunda e alguém está sorrindo com essa maldita folhinha do calendário. 

Que a semana lhe seja leve. Com ou sem amante na linha de montagem.

Escrito por Xico Sá às 12h39

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Educação sentimental: como o amor acaba(I)

Nada como um post atrás do outro...

A pedidos,  republico crônica que realça e emenda o sentido do texto anterior, como me lembraram os leitores, digo, as leitoras:

Como se escreve o fim do amor?

Sim, homem é frouxo, só usa vírgula, no máximo um ponto e virgula; jamais um ponto final. 

Sim,  o amor acaba, como sentenciou a mais bela das crônicas de Paulo Mendes Campos: “Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar...”

Acaba, mas só as mulheres têm a coragem de pingar o ponto da caneta-tinteiro do amor. E pronto. Às vezes com três exclamações, como nas manchetes sangrentas de antigamente.

Sem reticências...

 Mesmo, em algumas ocasiões, contra a vontade. Sábias, sabem que não faz sentido  prorrogação, os pênaltis, deixar o destino decidir na morte súbita.

O homem até cria motivos a mais para que a mulher diga basta, chega, é o fim!!!

O macho pode até sair para comprar cigarro na esquina e nunca mais voltar. E sair por ai dando baforadas aflitas no king-size do abandono, no cigarro sem sem filtro da covardia e do desamor.

Mulher se acaba, mas diz na lata, sem metáforas.

Melhor mesmo para os dois lados, é que haja o maior barraco. Um quebra-quebra miserável, celular contra a parede, controle remoto no teto, óculos na maré, acusações mútuas, o diabo-a-quatro.

O amor, se é amor, não se acaba de forma civilizada.

Nem aqui e nem na Finlândia.

Se ama de verdade, nem o mais frio dos esquimós consegue escrever o “the end” sem uma quebradeira monstruosa.

Fim de amor sem baixarias é o atestado, com reconhecimento de firma e carimbo do cartório, de que o amor ali não mais estava.

O mais frio, o mais “cool” dos ingleses estrebucha e fura o disco dos Smiths, I Am Human, sim, demasiadamente humano esse barraco sem fim.

O que não pode é sair por ai assobiando, camisa aberta, relax, chutando as tampinhas da indiferença para dentro dos bueiros das calçadas e do tempo.

O fim do amor exige uma viuvez, um luto, não pode simplesmente pular o muro do reino da Carençolândia para exilar-se, com mala e cuia, com a primeira criatura ou com o primeiro traste que aparece pela frente.   

Escrito por Xico Sá às 13h04

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Mais som e menos fúria, homens largados

 

Cena do filme "Alta Fidelidade"

 

Crime passional existe desde que a vida é como ela é. Chama a atenção no momento, porém, como os homens não seguram a onda diante dos rompimentos.

Preste atenção no noticiário. Repare agora neste caso de BH. Ao que tudo indica o empresário assassinou a mulher. Teria cometido suicídio, com a mesma peixeira sangrenta do crime, em um quarto de motel. Veja aqui na Folha.

Nem estou falando de traições amorosas. Digo simplesmente do macho não suportar ser largado no sereno da amargura. Mesmo depois de ter dado todas as condições históricas e sentimentais para o abandono.

A resenha policial está repleta de casos do gênero.  Vi esta semana no Datena um cara que, desprovido de coragem física, treinou um pitbull para atacar a ex e o seu novo marido.

Todo fim de romance dói no osso, amigo, quem não sabe disso? Dói como uma bala alojada no corpo do cowboy durante o inverno.

As mulheres, meu caro, são mais destemidas. Sofrem um horror, choram em público –outro luxo que raramente temos-, comem toneladas de chocolate, vão à cartomante, ao terreiro, mas seguram mais a onda.

Claro que você pode, a essa altura da crônica,  lembrar de alguma maluca que fez apitar a panela de pressão do amor e da sorte.

Nosotros,  porém, fazemos, hoje em dia, muito mais besteiras. Não estou falando apenas no extremo dos crimes passionais.  

Ah, amigo, se a vida dói, drinque caubói.

Pega o novo disco do Leonardo Cohen e uma garrafa de bourbon, amigo, e gasta essa derrota.

Fura o vinilzão do Roberto Ribeiro, camarada: “Está faltando uma coisa em mim/ e é você, amor, tenho certeza sim...”

Afunda esses cotovelos na fórmica do balcão do botequim, amigo, e segue a lição do meu ídolo Roberto Müller: se o amor nasceu de uma cerveja, outra cerveja beberás para esquecer.

Mais lama e música de fossa, mais som e menos fúria.

Escrito por Xico Sá às 12h00

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Lei do Ventre Livre já, São Paulo

 

Só apelando de novo para a Lei do Ventre Livre, aquela medida abolicionista do ano da graça de 1871. 

É, estimada Princesa Isabel, assina que a lei é tua. 

Só apelando mesmo. Vocês viram, amigos, a imagem infame da mulher algemada depois do parto. Veja aqui o vídeo na Tv Folha.

Elisângela Pereira da Silva, 32 anos, foi presa em flagrante em novembro.

A acusação, senhoras e senhores do júri: furtar duas bonecas e quatro xampus das lojas Americanas, centrão de SP.

Sábado passado chegou a hora da grávida, de sete meses, ganhar uma menina. Mal a bebê saiu do ventre, algemas nela, como tem sido a regra do sistema de segurança paulista.

Conhecia relatos do gênero no documentário “Leite e Ferro” (2011), dirigido por Cláudia Priscilla, fundamental neste assunto. 

Fico pensando: se o Estado não consegue vigiar uma mulher no resguardo máximo, a não ser sob algemas do pós-parto, será capaz de quê? 

 

Escrito por Xico Sá às 21h25

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15 anos sem Chico Science, o cientista do som

photo Fred Jordão

Hoje é dia de Iemanjá. Hoje também é aniversário da morte do cientista do som, Chico Science. Assim se passaram 15 anos. Até parece que foi nunca. 

Deixo ai pendurado na cortiça deste meu querido diário, um fragmento de memória: 

Repórter farejador da lama política,  esperava uma chamada sobre o destino do capo PC Farias, mas o fone do apê da Frei Caneca só tocava para os caras. 

Imprensa e gângsteres de gravadoras à procura de Science e 04. Primeira excursão, ainda sem discos, da Nação Zumbi e do Mundo Livre S/A, ano da graça de 1993, São Paulo. 

Foi ai que atinei para a marcha da história: os amigos estão aprontando alg0 grandioso e não me contaram direito a bola. 

Com 04, havia feito o jornal “A Brecha” e um grupo de estudos sobre “Crônica de uma morte anunciada", do Garcia Márquez. Campus da UFPE, rua 7 de Setembro e Beco da Fome, geografia afetiva e bagaceira do Hellcife velho de assombrações tantas. 

Este outrora poeta e dublê de MC também abria alguns shows do Mundo Livre, com leituras ao som do “Love” -play again Arthur Lee, teu povo o espera, volta, miserável, “forever changes”! 

Stop. De volta ao apê da Frei Caneca. Science não dizia nada do que estava acontecendo, só tirava “la buena onda”; 04 tampouco. 

Nem dava tempo. Eles correndo para encontrar os “falcões” (crédito para Bob Dylan, baby) das gravadoras e este repórter na cola dos bons companheiros do Collorgate. 

Logo depois os jornalistas Bia Abramo e  Alex Antunes, meus Freuds do mangue bit (era assim a grafia inicial) me explicariam tudo. 

Bem que o síndico de pijama bege e trezoitão em punho tentou acabar com a “embaixada” cósmico-universal-pernambucana, o  quarto-e-sala da Frei Caneca. 

Sim, a trilha sonora era muito Hosana nas alturas, glória. Quando saiu “Da Lama ao caos”, fui expulso do prédio na primeira audiência noturna. 

Inesquecível madruga com du Peixe, Lucio e Chico. Falamos de amores distantes e Corto Maltese, que inspiraria mais adiante, com a sua HQ que aborda Lampião,  a música Tiro Certeiro. 

Ufa, como é bom passar no ferro quente da memória as brasas nunca adormecidas!

Escrito por Xico Sá às 09h57

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Só o chifre humaniza o homem

 

 

É, tio Nelson, não tem jeito mesmo. Só um chifre humaniza um macho, repito aqui o velho mantra deste cronista vagabundo. 

Daqueles bem parafusados pelo destino na fronte do artista. Nem que seja apenas como arma de vingança, como diz a canção do gênio potiguar Carlos Alexandre. 

Um chifre daqueles que nos faz furar o LP com Stephanie Says, do Velvet, ou nos põe como a última das criaturas, ao sentir as batidas dos pingos da tempestade contra a vidraça. 

Aí entra Tom Waits, que gorjeia This One’s From The Heart, aquela do fundo coração, o filme de Francis Ford Coppola. 

Posso tocar mais uma da fita “O Fino do Corno”, que acabo de gravar aqui no velho cassete das antigas? 

Então lá vai, lá vai, roda, segura aí, peça logo outra cerveja: Les Amours Perdues, do cafa Serge Gainsbourg, na vitrola. 

Essa é para chorar, como convém a quem deixou rastros de incompetência e de vacilos sentimentais pelo caminho.

Chifre posto, lá estamos nós, répteis do amor (agora entra Por que me Arrasto aos teus Pés, do rei Roberto, para coroar a breguice dos humilhados e ofendidos), carentes como um poodle. 

E essa nossa loucura, muitas vezes, não deve ser tributada simplesmente à febre amorosa que estoura na pele e mancha o caroço dos olhos. 

Enlouquecemos mais pelo ego de macho do que pelo grande amor de fato. 

É o medo do cabrón diante das comparações. 

Tudo que queremos saber é apenas se o adversário -a quem sempre vemos, de imediato, como o rei do tantra e do priapismo- é mesmo o tampa-de-Crush, a bala que matou Kennedy, o tal da química de pele, o cão do terceiro livro...  

Então insistimos, insistimos, insistimos na nossa babaquice, até que ouvimos mesmo, daquela ingrata, que perdemos o embate, o jogo, o clássico, o duelo do faroeste.

A literatura comparada é o golpe fatal. E que gazela perderia a chance, diante da perguntado imbecil, de empurrar o sujeito para o abismo?!

Aí não tem cachaça ou uísque que curem. É o fim. O mais confiante dos homens sucumbe nessas horas.

E se a moça, toda saltitante, aparecer na firma com aquele sorriso franco, aquela pele remoçada...

Nunca vamos imaginar que possa ter sido apenas uma combinação perfeita entre o Prozac e o creme de vitamina C + coenzina Q10, obra e graça da renovadora indústria coméstica!

Sempre pensaremos no desastre-mor, no grito selvagem (dela) de prazer.

Sempre achamos que a desgraçada, a miserável, descobriu, finalmente, todos aqueles multiorgasmos fresquinhos anunciados pela revista Nova.

É o fim.

Escrito por Xico Sá às 19h27

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Por uma PM que brinque de boi e vaca

 

 

Tanto gambé para ser punido por atos de truculência e vai sobrar justamente para os PMs que fizeram uma brincadeira, de certa forma até poética em matéria de polícia, em Santa Catarina.

Nas imagens, ainda de 2011, um militar simula gestos eróticos com uma inocente e imóvel vaquinha da Cow Parade em Florianópolis -na imagem acima. Crime de zoofilia artística. No máximo.

Teatro, puro teatro, como na música da deusa La Lupe.

Se fosse uma vaca de verdade, vá lá, poderia até ser um mau exemplo, um mau emprego da força policial.

Quem dera a PM do tucano Geraldo Alckmin fosse tão poética assim como a de Floripa e fizesse intervenções quase artísticas com esculturas de SP. O “happening” de Pinheirinho não foi bem o caso.  

Quem dera, para citar outro episódio recente, a PM do socialista Eduardo Campos interagisse com as estátuas de Manuel Bandeira e João Cabral de Melo Neto na beira do Capibaribe.

Ao contrário, preferiu tirar o couro de estudantes que protestavam contra o aumento da passagem de ônibus no Recife.

Quem dera a PM de Sergipe deixasse delirar na buena o fã-clube de Rita Lee e cantasse junto: “Mulher é um bicho esquisito, todo mês sangra”.

Quem dera todo policial brincasse de boi e vaca, como em Santa Catarina, e não tratassem os humanos honestos -até prova em contrário- como gado.

 

Escrito por Xico Sá às 11h46

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Você é o ar que eu respiro em SP

 

Piratas do Tietê by Laerte

Definitivamente, amigo, “você é o ar que eu respiro” não é mais uma boa cantada ou declaração de amor em São Paulo.

Não quer dizer, óbvio, que não exista amor em SP. Existe e sobrevive ao monóxido de carbono.

Existe e desafia as leis do cosmo.

Existe, mas não é nada agradável voltar do veraneio sob efeito desta notícia de hoje, na Folha:

Índices de poluição atmosférica em 2011 foram os piores desde 2003, mostra levantamento com base em dados da CETESB.

Aqui todo mundo é fumante. Queira ou não queira. Todo mundo fuma a nuvem de chumbo dos ares. E ela mata oito por dia, segundo o mais cândido e otimista dos estatísticos.

Proibir tragar cigarro é fácil. Quero ver o governo impedir que esse maço diário de veneno invada os nossos inocentes pulmões.

Veneno que não dá barato. Só mata.

Cadê a polícia que não vê uma coisa dessas?!

Só nos resta mudar a cantada romântica para outra bem óbvia: vem sempre aqui no inferno?

 

Escrito por Xico Sá às 10h43

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A melhor mulher do mundo: a mulher culpada

 

Duas ou três coisas que eu sei sobre a mulher culpada.

Tem coisa melhor no mundo que amor de mulher culpada?

Sim, porque como dizia o tio Nelson, até a virtude prevarica, então aproveitemos o doce amor da mulher culpada, a recompensadora, a justa, a mais honesta de todas as fêmeas do mundo, a criatura que deseja, sobre todas as coisas, nos agradar como nunca, como se fosse a primeira vez.

Há algo de uma nova virgindade possível na mulher eivada de culpa. 

Só acredito na mulher culpada.

Capaz de buscar minha camisa mais boêmia e pregar botões que faltam.

Capaz de esfregar o taco do amor como no Último Tango.

Por favor, erre mais meu amor, me xingue, volte com a consciência pesada e me recompense da forma mais justa.

Falte ao respeito, amorzim, me dê motivo para humilhações amorosas.

Mulher sem culpa é Jesus sem cruz, credo.

Quero o sagrado direito da mulher culpada aspirando nosso chão de estrelas.

Não quero perdoar por completo a mulher culpada. Viverei  do quê doravante?

Quero sempre uma beiradinha de culpa no canto do olho. Como um cisco que não sai nem com sopro da pessoa amada – como vi ontem numa cena linda de Poly com seu homem.

Não me venha sem culpa, mulher, cadê a elegância?

A culpa é a melhor lição de estilo.

A culpa é uma mulher vestida de Yves Saint-Laurent  descendo uma escada.

E qualquer uma, até uma freira, pode ter ou fingir uma culpa.

Quero a maçã caramelada da culpa no parque de Exposição de Animais do Crato.

A Eva de Crumb no Gênesis.

E sem culpa eu dispensaria até Ava Gardner, mesmo depois dela humilhar o pobre Frank Sinatra. Quem manda ter olhos azuis!

Quero o forno & fogão da culpa, a sopa quente da culpa, o Alka Setzer e a toalha pós-vômito da culpa.

Quero até o infame e imperdoável trocadilho de boteco: Tem culpa eu?

Casa, comida e roupa lavada para uma mulher culpada.

 

Escrito por Xico Sá às 16h10

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PERFIL

Xico Sá Xico Sá, 48, escritor e jornalista, colunista da Folha, é autor de “Chabadabadá – As Aventuras do Macho Perdido e da Fêmea que se Acha” e + 10 livros. Na TV, participa dos programas “Cartão Verde” (Cultura) e “Saia Justa” (GNT).


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